Rudson de Souza Publisher do OBemdito

A geografia do crime e o desafio para encontrar os suspeitos da chacina de Icaraíma

Quatro homens foram mortos após emboscada em área rural de Icaraíma; caso segue sem prisões nove meses depois (Foto Rede Social)
A geografia do crime e o desafio para encontrar os suspeitos da chacina de Icaraíma
Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 7 de julho de 2026 às 20h16 - Modificado em 7 de julho de 2026 às 20h16

A inclusão de dois suspeitos da chacina de Icaraíma na lista internacional de procurados da Interpol vai muito além de um novo capítulo nas investigações. A medida evidencia uma realidade conhecida pelas forças de segurança no Noroeste do Paraná. A proximidade com a fronteira pode transformar a região em rota de fuga para criminosos e exigir cooperação internacional para que eles sejam localizados.

Foi justamente esse aspecto que a Polícia Civil do Paraná destacou ao voltar a se manifestar sobre o caso. Antônio Buscariollo, de 67 anos, e o filho dele, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 23 anos, passaram a integrar oficialmente a Difusão Vermelha da Interpol, mas, para os investigadores, a importância da medida está diretamente ligada à geografia da região.

CONFIRA TAMBÉM: Onze meses após chacina de Icaraíma, foragidos passam a integrar lista da Interpol

A fronteira que desafia as investigações

Icaraíma está localizada em uma das regiões mais sensíveis do Paraná quando o assunto é segurança pública. Cortado pelo Rio Paraná e próximo ao Paraguai, o Noroeste reúne extensas áreas rurais, vegetação densa e inúmeros caminhos utilizados historicamente para o contrabando e outras atividades criminosas. É justamente essa característica que preocupa as forças de segurança quando um investigado desaparece.

Embora a Polícia Civil não afirme oficialmente que os suspeitos estejam fora do Brasil, a possibilidade nunca foi descartada. E foi esse contexto que levou o delegado Thiago Andrade Inácio a destacar, em vídeo divulgado nesta terça-feira (7), a importância da cooperação internacional.

A investigação aponta que a localização geográfica da região pode favorecer rotas de fuga de criminosos para países vizinhos (Foto PMPR)

“Essa medida é de suma importância, pois o Estado do Paraná faz fronteira com outros países. Ela permite que os órgãos de segurança dessas nações tenham ciência de que os dois estão foragidos e, caso sejam localizados, possam efetuar a prisão e encaminhá-los à Justiça brasileira.”

A declaração não cita diretamente o Paraguai, mas reforça uma preocupação comum em investigações conduzidas na faixa de fronteira. A facilidade de deslocamento para países vizinhos pode dificultar a captura de criminosos e prolongar as buscas por tempo indeterminado.

Um crime que revelou muito mais do que quatro homicídios

O desaparecimento de quatro homens em agosto de 2025 parecia, inicialmente, estar ligado a uma cobrança decorrente da negociação de uma propriedade rural. Com o avanço das investigações, porém, a Polícia Civil encontrou um cenário muito maior.

Na Fazenda Jundiá, localizada no distrito de Vila Rica do Ivaí, os policiais localizaram a Fiat Toro utilizada pelas vítimas enterrada em uma estrutura subterrânea. O resgate do veículo levou mais de dez horas.

Quando finalmente foi retirado, o automóvel apresentava marcas de diversos disparos de arma de fogo, vestígios de sangue e pertences das vítimas, entre eles o boné de Diego Henrique Affonso.

Dias depois, durante novas buscas na mesma propriedade em Icaraíma, equipes localizaram os corpos de Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Marascalchi, Robishley Hirnani de Oliveira e Alencar Gonçalves de Souza Giron.

O caso deixava de ser apenas uma investigação sobre desaparecimento para revelar uma estrutura criminosa muito mais complexa.

A Fiat Toro utilizada pelas vítimas foi encontrada enterrada em um bunker na Fazenda Jundiá durante as buscas da Polícia Civil (Foto PMPR)

Os bunkers escondidos na mata em Icaraíma

As buscas continuaram e produziram uma das descobertas mais impressionantes da investigação. Ao todo, a Polícia Civil identificou 22 estruturas subterrâneas espalhadas pela Fazenda Jundiá. Cinco delas eram bunkers construídos em alvenaria, enquanto outras 17 eram esconderijos improvisados, camuflados sob a vegetação.

Segundo a investigação, essas estruturas eram utilizadas para esconder veículos, cargas de contrabando e drogas provenientes do Paraguai. As descobertas ampliaram significativamente o alcance das investigações.

Além dos homicídios, a polícia passou a enxergar a existência de uma logística estruturada, capaz de ocultar cargas ilegais e dificultar a atuação das forças de segurança em uma área de difícil acesso.

“Há uma diferença entre eles. O bunker é uma construção de alvenaria, com base reforçada. Já os esconderijos são estruturas mais simples, feitas com lonas, madeira e terra”, explicou o delegado Thiago Andrade em ocasião anterior.

Descobertos durante as investigações da chacina, os bunkers chamaram a atenção pela complexidade da construção e pela localização estratégica próxima à fronteira (Foto PMPR)

Um território marcado por diferentes ilegalidades

A Fazenda Jundiá também passou a ser alvo de uma grande operação ambiental. Durante as fiscalizações, a Polícia Militar Ambiental identificou aproximadamente 278 hectares de áreas degradadas, entre reserva legal e áreas de preservação permanente.

Os policiais constataram supressão de vegetação nativa, pisoteio de gado, compactação do solo e assoreamento de cursos d’água. As multas aplicadas ultrapassaram R$ 7,5 milhões e a propriedade foi embargada.

A Polícia Militar Ambiental ressaltou, entretanto, que as autuações ambientais em Icaraíma não vinculam proprietários ou arrendatários aos homicídios investigados pela Polícia Civil.

Mesmo assim, o caso acabou revelando um cenário onde crimes ambientais, estruturas utilizadas para atividades ilícitas e uma investigação de quádruplo homicídio passaram a coexistir no mesmo espaço.

Por que a Interpol entrou no caso

Depois que OBemdito divulgou, na segunda-feira (6), a confirmação da inclusão dos dois investigados na Difusão Vermelha, a Polícia Civil de Icaraíma publicou uma nota explicando como funciona o procedimento e, na manhã seguinte, divulgou um vídeo do delegado Thiago Andrade esclarecendo a importância da medida.

Segundo a corporação, a inclusão de um investigado na lista internacional de procurados não acontece automaticamente. Primeiro, a autoridade policial representa ao Poder Judiciário e assume formalmente o compromisso de solicitar a extradição caso o investigado seja localizado em outro país.

Após o deferimento judicial, a decisão é encaminhada à Polícia Federal, responsável por intermediar o pedido junto à Interpol. Somente depois da conclusão de todas essas etapas administrativas ocorre a inclusão oficial na Difusão Vermelha.

Antônio Buscariollo, de 67 anos, e o filho dele, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 23 anos, passaram a integrar oficialmente a Difusão Vermelha da Interpol (Foto Rede Social)

De acordo com a Polícia Civil, todo esse procedimento foi concluído em relação a Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo. “Esclareço que esse procedimento encontra-se encerrado e que Paulo Ricardo Costa Buscariollo e Antônio Buscariollo já estão oficialmente incluídos na lista internacional de procurados pela Interpol.”

Na prática, isso significa que autoridades policiais de diversos países passam a receber comunicados de forma oficial sobre a condição de foragidos dos dois investigados. Caso sejam localizados no exterior, poderão ser presos para que o Brasil solicite posteriormente a extradição.

As buscas continuam

Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo estão com prisão preventiva decretada desde 8 de agosto de 2025 e permanecem foragidos. Mesmo quase um ano após o crime em Icaraíma, a Polícia Civil afirma que as diligências continuam diariamente.

“A Polícia Civil do Paraná, juntamente com os demais órgãos de segurança pública e com o apoio integral da Secretaria de Segurança Pública do Estado, vem realizando diligências diuturnamente para a localização, prisão e responsabilização de todos os envolvidos nesses crimes.” Enquanto isso, o inquérito permanece sob sigilo.

A espera por justiça

Para os familiares das vítimas, o tempo não diminuiu a dor. Meire Marascalchi, viúva de Rafael Juliano Marascalchi, já declarou em entrevistas ao OBemdito que a expectativa da família continua sendo a prisão dos responsáveis.

Quase um ano depois da chacina, esse desfecho ainda não chegou. Agora, porém, a investigação ultrapassa as fronteiras brasileiras.

Com a inclusão dos nomes na Difusão Vermelha da Interpol, as informações sobre os investigados passam a ser compartilhadas com as forças policiais dos países integrantes da organização. Caso eles sejam localizados no exterior, poderão ser presos para que o Brasil adote os procedimentos de extradição previstos em lei.

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