Jaqueline Mocellin Publisher do OBemdito

Paciente de Cruzeiro do Oeste que recebeu polilaminina mostra evolução e confia na reabilitação total

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Jaqueline Mocellin - OBemdito
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 21h09 - Modificado em 27 de agosto de 2026 às 22h08

A promissora molécula polilaminina reacendeu a esperança de reabilitação e transformou radicalmente a rotina de Fabiane Azevedo, moradora de Cruzeiro do Oeste, no Noroeste do Paraná. Após uma tragédia que a deixou paraplégica, ela agora celebra conquistas antes tidas como inalcançáveis pela medicina tradicional.

A jornada de superação de Fabiane começou após um pesadelo brutal. No dia 25 de dezembro de 2025, em pleno dia de Natal, a moradora de Cruzeiro do Oeste sofreu uma grave agressão por arma branca (um crime enquadrado como tentativa de feminicídio) por parte de seu companheiro.

O golpe com a faca atingiu sua medula na altura da vértebra T1 (primeira vértebra torácica, localizada na região superior das costas, logo abaixo do pescoço). O traumatismo devastador tirou-lhe instantaneamente toda a mobilidade e a sensibilidade do corpo, paralisação que se estendia da clavícula até as extremidades inferiores.

Após o impacto inicial, Fabiane e os médicos confirmaram as graves consequências daquela agressão, entre elas, a paraplegia. Nas semanas seguintes ela percebeu que não conseguia sequer manter-se sentada sozinha. E, além disso, que sua vida tinha passado a depender integralmente do suporte de terceiros para realizar até mesmo as tarefas mais básicas do dia-a-dia.

Nas fotos acima, o fisioterapeuta aplica a técnica de mobilização articular manual, que estimula a circulação de líquidos nas articulações do quadril e das pernas, além de ajudar a restaurar os movimentos – Fotos: Jaqueline Mocellin/OBemdito

A ponte da esperança: como a polilaminina age no organismo

A história de Fabiane começou a mudar de rumo no dia 1º de maio de 2026, quando passou por um procedimento inovador e ainda experimental. Ela se tornou o primeiro caso registrado no Brasil a receber a aplicação de polilaminina em decorrência de lesão medular provocada por arma branca. O procedimento aconteceu no Hospital do Trabalhador, em Curitiba.

A substância, desenvolvida por cientistas brasileiros em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o laboratório Cristália, atua de forma surpreendente no tecido nervoso afetado. Em termos didáticos, a polilaminina funciona como uma verdadeira “ponte celular” no ponto de interrupção da medula.

A proteína reorganizada cria um caminho físico e biológico pelo qual os impulsos e comandos disparados pelo cérebro conseguem atravessar a área lesionada. Dessa forma, viabilizam a regeneração dos circuitos neurais e estimulam a reabilitação gradual dos movimentos e percepções corporais.

“Quando eu recebi a polilaminina, fiquei cerca de três semanas em Curitiba fazendo fisioterapia intensiva e acompanhamento constante. A doutora me explicou que o medicamento cria uma ponte onde houve a interrupção. Os comandos do cérebro passam por ali como se fosse um tobogã, enviando os sinais de volta”, disse.

“É um tratamento que veio para inovar o mundo, e ver que está funcionando comigo, sentindo na pele cada evolução, é extremamente gratificante”, relata Fabiane, emocionada.

Apoio fundamental para agilizar o procedimento

A agilidade para ingressar no estudo experimental exigiu uma mobilização contra o tempo. Graças à articulação da família, apoio de lideranças locais como o então Secretário Estadual de Saúde, Beto Preto, e a vereadora Rosy Anne Bertoco, de Cruzeiro do Oeste, além da avaliação decisiva de uma neurocirurgiã de Maringá, a documentação chegou ao laboratório Cristália.

A autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) saiu em apenas duas semanas, permitindo que a aplicação ocorresse cerca de três meses e meio após o trauma.

O fortalecimento dos braços também faz parte da rotina na clínica de fisioterapia – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

Renascer em etapas: de T1 a T8

Após o período de observação e fisioterapia intensiva na capital paranaense, Fabiane retornou para Cruzeiro do Oeste e estabeleceu sua rotina diária na Clínica de Fisioterapia Dr. Décio. O acompanhamento médico demonstrou que a polilaminina promoveu uma regressão notável no nível do bloqueio neurológico.

Nos exames de atualização realizados em Curitiba há cerca de 3 meses, a lesão (que originalmente travava o corpo na altura da vértebra T1) havia descido para a região da T8 (parte média da coluna torácica).

As fotos acima mostram Fabiane logo após a aplicação da polilaminina em Curitiba. Naquele momento, nem ela sabia que sua recuperação aconteceria dia após dia – Fotos: Arquivo pessoal

A reconquista da força nos braços

Entretanto, a percepção diária de Fabiane aponta para ganhos ainda maiores. A paciente já recuperou totalmente a força e a sensibilidade nos braços e axilas — antes insensíveis até mesmo ao toque de agulhas. Hoje, ela consegue se posicionar, firmar o tronco na barra de apoio durante a sessão de fisioterapia sem ajuda de terceiros e comanda funções viscerais cruciais.

“Da clavícula para baixo eu não sentia nada. Hoje sinto até o quadril. A sensação de bexiga está voltando totalmente. Em uma semana eu não sentia a região do meu umbigo; na outra, quando minha irmã foi fazer a massagem, eu já senti a pressão e avisei que estava apertando. O corpo está se fortalecendo de uma semana para outra, parece que está se curando de dentro para fora”, comemora Fabiane.

A sintonia entre paciente e fisioterapeuta é fundamental para superar os obstáculos que surgem durante o tratamento – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

Outra vitória fundamental trazida pela polilaminina e pelo progresso do tratamento foi a eliminação da sonda de demora (bolsa coletora de urina), que causava frequentes infecções de repetição e internações hospitalares.

Hoje, com a melhora do quadro clínico geral e a orientação médica, a rotina adota o cateterismo de alívio, livrando a paciente do incômodo constante do equipamento e devolvendo sua autoestima.

Trabalho incansável na fisioterapia diária

A aplicação da polilaminina representa uma engrenagem vital, mas a consolidação dos resultados exige esforço diário indiscutível. Em Cruzeiro do Oeste, Fabiane cumpre sessões intensivas de fisioterapia todos os dias, combinando exercícios de fortalecimento muscular, treino de postura na barra paralela e eletroestimulação.

O fisioterapeuta Décio Augusto Andrade Baraviera, profissional com 18 anos de experiência formado pela Unipar e que atende pelo SUS no município, destaca que a evolução de Fabiane impressiona toda a equipe.

A dedicação de Fabiane e do Dr. Décio é recompensada: há menos de 4 meses ela não conseguia ficar sentada sem auxílio; hoje já se ergue na barra- Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

“Logo após ela retornar de Curitiba onde recebeu a polilaminina, iniciamos a reabilitação. O controle de tronco que ela apresenta agora é notável; antes ela não conseguia nem ficar sentada, caía para trás. Hoje ela puxa o próprio corpo e sobe na barra com autonomia. Trabalhar em um caso pioneiro como este traz uma alegria indescritível para nossa clínica. Cada pequena melhora da Fabiane é uma vitória gigantesca para todos nós”, afirma o Dr. Décio.

O fisioterapeuta explica que o ritmo das sessões respeita os limites biológicos do organismo. Como a recuperação neural demanda alto gasto energético, o acompanhamento monitora os episódios de fadiga e espasticidade (contrações involuntárias), fazendo as pausas necessárias para que o corpo absorva os estímulos da terapia.

Rede de afeto: o suporte familiar que alimenta a fé

Por trás da garra demonstrada no consultório e nos exercícios, existe um alicerce familiar comovente. Fabiane é mãe de três filhos: Davi (12 anos), Helena (10 anos) e a pequena Aurora (2 anos). A dinâmica da casa em Cruzeiro do Oeste envolve cooperação, carinho e esperança renovada.

Durante os dias úteis, entre 6h e 18h, a cunhada Edieli da Silva Pereira Azevedo atua como cuidadora e companheira inseparável. Edieli presenciou desde o estado mais frágil da paciente até os momentos de vibração e lágrima de emoção.

A rede de apoio de Fabiane inclui a cunhada e cuidadora Edieli, a filha Helena e os fisioterapeutas Danúbia e Décio – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

“No começo a Fabiane estava totalmente ‘mole’, sem sustentação nenhuma. A recuperação está sendo maravilhosa. Dias atrás eu dei um leve toque no quadril dela, ela sentiu imediatamente e pediu para eu repetir só para ter certeza. Foi uma alegria emocionante. Eu tenho convicção em Deus de que ela vai voltar a andar perfeitamente”, conta Edieli.

As crianças também desempenham papel central nessa corrente de otimismo. A filha Helena ajuda com algumas tarefas domésticas, busca água e frequentemente acompanha as sessões de reabilitação. “Estou muito feliz vendo a recuperação da minha mãe”, diz a garota de 10 anos.

Enquanto os filhos mais velhos se revezam nos cuidados e na atenção à mãe, a pequena Aurora conta com o suporte da creche municipal, garantindo a tranquilidade necessária para o cronograma de exames e terapias.

Fabiane com os fisioterapeutas Danúbia e Décio: as conquistas diárias são muito comemoradas – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

A força da solidariedade

O golpe sofrido por Fabiane naquele Natal virou sua vida de cabeça para baixo. E isso também inclui a parte financeira. Sem trabalhar, ela aguarda a concessão formal do benefício previdenciário junto ao INSS (benefício de incapacidade permanente). Porém, o processo ainda se encontra em análise técnica.

Enquanto isso, a família conta com a solidariedade da comunidade de Cruzeiro do Oeste, do apoio do Creas/Cras, da Prefeitura Municipal com cestas de alimentos e de rifas solidárias organizadas por voluntários e lideranças locais.

O próximo retorno médico em Curitiba está agendado para o mês de dezembro. A princípio, os especialistas avaliarão o marco de sete meses de tratamento. Enquanto aguarda a consulta e faz tudo o que é possível para que o tratamento tenha os melhores resultados, Fabiane olha para o futuro com coragem inabalável.

O olhar atencioso do fisioterapeuta mostra que o trabalho árduo de reabilitação está no caminho certo – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

A mensagem para o Brasil

Sabendo que é uma das pioneiras a testar a polilaminina no mundo, ela deseja que sua voz alcance outras pessoas em situação semelhante. “A quem está enfrentando a paralisia ou passando por um momento difícil, eu digo: tenham fé e persistência. Procurem ajuda, não achem que a medicina ou que a polilaminina é algo impossível de alcançar. Eu sou do interior do Paraná, passei por uma tragédia terrível e o tratamento chegou até mim”.

Ela acrescenta: “O nosso corpo tem uma capacidade incrível de se regenerar quando unimos a ciência, a fisioterapia diária e a fé em Deus. Não desistam jamais!”, conclui Fabiane, com o olhar firme no horizonte e a certeza de que cada passo do processo a aproxima da reabilitação total.

O sorriso no rosto mostra que Fabiane entendeu que sua reabilitação total é possível e que, inclusive, já está acontecendo – Foto: Jaqueline Mocellin/OBemdito

– Reportagem e fotografias: Jaqueline Mocellin/OBemdito

– Vídeo: Jean Soriani/OBemdito
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