Comemoração e emoção marcam alta médica de moradora de Iporã após mais de 200 dias na UTI
Uma comemoração marcou a despedida da moradora de Iporã, Conceição Aparecida Gomes, após mais de 200 dias na UTI do Hospital Cemil. A surpresa contou com a participação da equipe do hospital e de alguns familiares da senhora de 68 anos. O momento de grande emoção aconteceu por volta das 17h de quinta-feira (29).
OBemdito participou da comemoração e conversou com familiares, equipe médica e com a própria Dona Conceição. Ainda com dificuldade para falar, principalmente por estar com a traqueostomia, a moradora de Iporã informou que estava feliz com a alta médica. Além disso, estava ansiosa para voltar para sua casa e também para rever toda a família.
Dona Conceição estava internada em decorrência de uma doença inflamatória rara, a Encefalite de Bickerstaff. No entanto, até que os médicos chegassem ao diagnóstico, a família passou por vários dias de angústia. No período de 11 dias, Dona Conceição apresentava quadro clínico que indicava morte cerebral.
Contudo, o trabalho interdisciplinar e o esforço da equipe médica, além das conversas com familiares, fizeram com que houvesse uma desconfiança de que a paciente estivesse com Encefalite de Bickerstaff. Os exames seguintes confirmaram o diagnóstico.

Como tudo começou
Quem relatou a história da Dona Conceição a OBemdito foi o filho Reginaldo Gomes Brito, que também é morador em Iporã. Bastante emocionado, Reginaldo contou que no dia 18 de junho de 2025 teve início um período que se tornou um verdadeiro pesadelo na vida da família.
Foi nesta data que surgiram os primeiros sintomas. A senhora se queixou de sentir formigamento nas mãos e pés. Os filhos a levaram ao Hospital Municipal de Iporã, onde a equipe fez alguns testes para verificar se era um AVC (acidente vascular cerebral). Entretanto, não foi esse o diagnóstico. Por isso, ela apenas foi medicada e foi liberada para ir embora.
A moradora de Iporã estava lúcida e aparentemente bem. Porém, por volta das 21h os formigamentos voltaram e o filho mais velho a levou novamente ao hospital. Mais uma vez ocorreram exames e nada de anormal foi detectado, o que ocasionou nova liberação para Conceição ir para casa.
Pelo fato dela morar sozinha, um dos filhos foi passar a noite com a mãe e, às 5h do dia 19 de junho, acordou e foi verificar com ela estava. Neste momento ele percebeu que a mãe não tinha mais nenhum tipo de reflexo, não respondia e estava com a pele arroxeada. Imediatamente a família a levou para o hospital de Iporã e, após intubação e estabilização, houve a transferência para a UTI do Hospital Cemil em Umuarama.

O difícil diagnóstico de uma doença rara e quase desconhecida
Assim que a paciente deu entrada no hospital Cemil, tiveram início diversos exames e testes com o objetivo de diagnosticar o que Dona Conceição tinha. A tarefa foi árdua, exigiu a integração de uma junta médica multidisciplinar e contato com profissionais de fora do hospital, além de muito estudo e pesquisa.
A Dra. Karina Farah, que atua na clínica médica e pneumologia no Hospital Cemil e acompanhou Dona Conceição, explicou o caso. “A paciente chegou aqui com um quadro muito grave e desconhecido inicialmente. Ela veio entubada, sem sinais de funcionamento cerebral. Então, a hipótese inicial era de uma morte encefálica. Ao examinar a fundo, fazer os exames conforme os protocolos, vimos que, na verdade, ela tinha sinais discretos de funcionamento cerebral, mas existia um risco muito grande de evoluir pra uma morte cerebral”, disse a médica.
Somente no oitavo dia de permanência na UTI os médicos decretaram o diagnóstico: Encefalite de Bickerstaff. Trata-se de uma doença autoimune que ocorre pouco tempo após um processo infeccioso.
A enfermidade rara que acometeu a paciente é caracterizada por uma disfunção aguda do tronco encefálico pós-infecção. Ela causa a paralisação de funções do organismo, incluindo o sistema neurológico, e o paciente aparenta estar em quadro de morte cerebral.

Atuação de vários médicos
Karina disse que o diagnóstico começou durante a conversa com a família, quando a equipe identificou que Conceição teve um quadro, em torno de 20 dias antes, que aparentava ser de dengue. Porém, ela já tinha feito alguns exames, sendo todos negativos.
“Com uma equipe multidisciplinar, fomos estudar os casos raros que envolvem suspeita de morte cerebral. Nesse momento chegamos ao diagnóstico de Encefalite de Bickerstaff. Foi o primeiro caso aqui no nosso hospital. É uma condição rara e, inclusive, muitos de nós médicos nem tínhamos ouvido falar. Trata-se de uma variação da síndrome de Guillain-Barré, que é um pouco mais conhecida”, informou.
No caso de Dona Conceição, a febre Chikungunya foi responsável pelo processo infeccioso que desencadeou a Encefalite de Bickerstaff. A Chikungunya é uma arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue.
Karina continuou explicando que a “doença autoimune faz com que o corpo produza anticorpos, que acabam, digamos assim, atacando o próprio corpo do paciente. Só que no caso dela, o foco foi especificamente na região ali do tronco cerebral. Então, ela perdeu a função da pupila, o movimento ocular, o movimento da respiração. Também parou de mexer as pernas, depois os braços”.

O início do longo tratamento
Assim que houve o diagnóstico, os médicos iniciaram o tratamento com imunoglobulina intravenosa. Dona Conceição seguia aparentemente sem reagir nos primeiros dias de aplicação do medicamento, o que preocupava os profissionais do hospital e causava desespero nos filhos.
A literatura médica informa que a doença tem gravidade inicial e que o paciente começa a apresentar melhora assim que recebe a medicação. Isso não era o que estava acontecendo neste caso e tudo indicava realmente para uma morte cerebral.
Para alívio de todos, a paciente começou a apresentar resposta. A pneumologista disse que a recuperação nesses casos é lenta, com duração média de 6 meses, e normalmente exige que a pessoa fique em UTI. Por isso, a médica destacou o trabalho essencial da equipe da UTI do Cemil, que ao longo de mais de seis meses atuou na reabilitação da moradora de Iporã.
“A cada dia ela tinha uma reaçãozinha. Ficou muitos e muitos meses sem conseguir respirar sozinha, precisando da ajuda do respirador. Nessa condição a imunidade acaba baixando e a paciente teve infecções, pneumonias, infecções urinárias. Dentro dos tratamentos, ela teve reações alérgicas gravíssimas. Enfim, paciente crítico, crônico. E dentro da UTI, chegou até uma parada cardiorrespiratória, precisou reanimação, mas a equipe sempre muito disposta, muito envolvida, reverteu o quadro”, acrescentou.

Dona Conceição teve a primeira reação física
A primeira reação surgiu no 12º dia em que ela estava hospitalizada e ocorreu no momento em que um dos filhos clamou por um sinal. Moacyr Gomes Brito estava visitando a mãe na UTI e, quando o horário de visita estava acabando, ele começou a se despedir e pediu que ela mexesse a cabeça caso estivesse escutando ele falar.
Para a surpresa do filho, Conceição conseguiu mexer suavemente a cabeça. Explodindo de felicidade, Moacyr avisou o médico, que rapidamente foi ao leito verificar. Ele pediu que o filho conversasse com Conceição e ela mexeu a cabeça novamente.
“No dia seguinte eu vim visitá-la e disse: ‘mãe, é o Rogê, a senhora lembra de mim? Aí ela chacoalhou a cabeça. A partir de então a minha mãe começou a ter uma melhora neurológica. Mesmo sem ela abrir os olhos, mexer a boca ou qualquer outra parte do corpo, nós nos enchemos de esperança. A gente acredita muito no milagre de Deus. E graças a Ele, ali entendemos que tinha uma parte neurológica intacta e uma chance de recuperação”, disse Reginaldo.
De acordo com a médica Karina a recuperação dos pacientes com Encefalite de Bickerstaff tem fases similares. Normalmente eles começam com um balançar da cabeça, depois a pessoa abre os olhos, passa a movimentar a boca e segue para outras partes do corpo. Tudo aos poucos, gradativamente.

Mais de 7 meses no hospital
Ao todo, a moradora de Iporã permaneceu hospitalizada 225 dias, sendo que 214 dias foram na UTI. Ela chegou a ter alta da UTI neste mês de janeiro e foi para um dos quartos do hospital, mas apenas por dois dias.
Dra. Karina disse que a equipe médica identificou uma nova infecção, sem uma gravidade tão importante, mas que fez com que optassem por voltá-la para a UTI para sua plena recuperação. “Assim que ela estabilizou, teve alta e agora volta para casa”, informou a médica.
Reginaldo comentou que recuperação foi uma luta constante e gradativa. “É uma doença que ela tem altos e baixos, ela não é constante e a melhora demora. Teve dias que chegamos aqui e a mãe tinha ali uma melhora significativa. Em outros, a gente encontrava ela regredindo”.

A dedicação da família
Os três filhos (Reginaldo, Manoel e Moacyr) se revezaram para visitar Conceição diariamente durante todo o tempo em que ela permaneceu internada. Eles chegaram a fazer um cronograma mensal das visitas.
Além deles, os netos e noras também ‘disputavam’ espaço no cronograma para vir a Umuarama e ficar com a moradora de Iporã por alguns minutos. Apenas a filha Sandra, que reside em Rio Claro, não conseguiu acompanhar a mãe presencialmente.
“Só teve um dia que ela ficou sozinha. Isso aconteceu porque meus irmãos erraram a data e chegaram juntos aqui. Um falava ‘é meu dia’ e o outro dizia que era o dia dele. Por fim, deixaram os dois irem na UTI, pois já estavam em Umuarama mesmo, mas combinaram que no dia seguinte ninguém poderia entrar”, lembra Reginaldo.
A OBemdito, ele contou que questionou a mãe sobre o que ela pensou ou sentiu no período em que esteve em coma e depois disso. Ela disse que sonhava muito. Os sonhos envolviam fatos reais e também possíveis fantasias.
“Por exemplo, ela sonhava com o meu filho que já faleceu. Outras vezes, eu chegava na UTI e ela perguntava sobre pessoas que já se foram ou que nunca conheceu e nem sabemos se existem. Certa vez, ela disse que recebeu a notícia que meu tio faleceu, mas ele estava bem. Tive até que fazer um vídeo mostrando o tio para enviar para ela se acalmar”, explicou.

Chegou o dia da alta médica para a moradora de Iporã
Na última quinta-feira a emoção tomou conta de Conceição, que não deixava de sorrir por um só momento. A felicidade e o alívio também estavam estampados no rosto de cada familiar que estava presente e, também, da equipe do Hospital Cemil.
“Eu já chorei, já sorri. É uma mistura de sentimentos, com uma gratidão muito grande a todos que apoiaram e a Deus, pois nós cremos muito que aconteceu um milagre”, falou Reginaldo.
Ele aproveitou para agradecer aos profissionais da saúde, que cuidaram de Conceição 24 horas por dia ao longo de mais de 7 meses. “A gente ficava com ela 4 horas por dia. Então, nas 20 horas restantes, ela teve carinho, atenção, momentos de angústia… e a todo momento a equipe esteve aqui, cuidando dela. Então, a instituição Cemil e aos profissionais, agradecemos por tudo o que fizeram pela mãe. Se não fossem vocês, o milagre não tinha acontecido. Eu creio muito em Jesus, em milagre, mas sei que esses profissionais foram usados por Ele para fazer o milagre na vida da minha mãe”.

A singela e emocionante comemoração de despedida
Na tarde de quinta, vários profissionais do hospital Cemil se reuniram em um corredor próximo à porta de saída. Com balões, eles comemoraram o momento em que Dona Conceição passou de maca para entrar na ambulância e seguir para sua casa em Iporã.
A Dra. Karina, assim como toda a equipe, comemorou a alta médica da paciente e disse que o caso foi um aprendizado para todos. “A Dona Conceição e os três filhos nos ensinaram muito, porque são três homens, três provedores, os três trabalham fora. E mesmo assim, todos os dias estiveram presentes, se organizando, conversaram, até fizeram planilha para as visitas”.
Ela continuou: “No dia que ela saiu da UTI, eu achei muito bonita uma atitude, que talvez eu não lembrasse, mas a dona Conceição lembrou de agradecer ao hospital, aos médicos, aos funcionários. E, ainda, aos patrões dos filhos por terem possibilitado que eles estivessem aqui presentes todos esses dias. Achei isso de uma grande sensibilidade. Dona Conceição, até o último dia eu estou aprendendo com a senhora”, finalizou a médica.
Após passar pelo ‘corredor humano’, Dona Conceição recebeu muitos abraços, muito carinho e ouviu muitas mensagens comemorando sua alta médica e desejando uma plena recuperação.

A volta para casa
A nova rotina em casa exigiu preparação da família, que contratou uma cuidadora, providenciou uma cama hospitalar e um respirador para uma eventual necessidade. “Em casa foi tudo preparado, o quarto com os equipamentos, ar condicionado. Tudo organizado para recebê-la”, disse Reginaldo.
A residência também foi preparada para uma recepção carinhosa, com balões, amigos e familiares. Todos estavam ansiosos para rever Conceição.
Além disso, os filhos se organizando para cuidar da mãe, que é viúva há muitos anos e mora sozinha. Ela mora ao lado de um dos filhos e também perto da residência de outro. A cuidadora permanecerá com a idosa durante o dia e, mais uma vez, os filhos revezarão os cuidados – dessa vez ao longo da noite.
Atualmente, apesar de ter mobilidade em todo o corpo, Conceição não consegue andar ou desempenhar outras tarefas que exijam mais esforço. Isso porque ela ficou mais de 7 meses na UTI e não tem forças para manter-se em pé, por exemplo. Porém, o objetivo é que ela seja acompanhada por um fisioterapeuta ou outro profissional da área, o que acontecerá apenas quando os médicos autorizarem.
Ainda no hospital, ela confidenciou aos filhos um desejo: comer arroz, feijão e abobrinha. Uma vontade simples para uma verdadeira guerreira, que enfrentou longos meses na UTI, renasceu e, ao se despedir do hospital e da equipe, exibia largos sorrisos, espalhando a felicidade de quem tem gratidão pela vida.
_______________________________________________________________________________________
ESTÁ EXPRESSAMENTE PROIBIDA A REPRODUÇÃO, PARCIAL OU INTEGRAL DESTE CONTEÚDO (TEXTO E IMAGENS) SEM AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DO SITE OBEMDITO, SOB PENA DE CONSEQUÊNCIAS LEGAIS PREVISTAS NA LEI Nº 9.610/98.





