Paula Damacena Publisher do OBemdito Paula Gibi convive com câncer há 13 anos e encontra no humor uma forma de enfrentar a doença
A tatuadora e educadora física Ana Paula Cardoso, conhecida como Paula Gibi, tinha pouco mais de 30 anos quando descobriu um nódulo na mama esquerda. O que inicialmente parecia uma alteração sem gravidade se revelou um câncer de mama. Desde então, ela passou por uma mastectomia, cirurgias na axila e diferentes tratamentos. Em 2018, recebeu o diagnóstico de metástase óssea.
Hoje, aos 44 anos, convive com limitações físicas e a incerteza sobre a evolução da doença, mas diz ter escolhido o bom humor como uma forma de enfrentar a rotina.
Moradora de Umuarama, no noroeste do Paraná, Paula conta que costumava observar o próprio corpo e percebeu o nódulo durante o autoexame. Como era jovem, chegou a acreditar que se tratava de uma glândula mamária ou de uma alteração relacionada ao ciclo menstrual. Após notar que o caroço persistia, procurou atendimento médico.
A primeira biópsia indicou uma lesão benigna. Paula se mudou para Mato Grosso e continuou o acompanhamento médico em Cuiabá. Um novo exame, porém, confirmou o câncer maligno.
Ela estava sozinha quando recebeu o resultado, a cerca de 800 quilômetros de onde morava. “Eu não escutei mais nada. Fui pra rodoviária sozinha, porque eu sempre chorei, chorei, chorei”, lembra.

O desgastante início do tratamento
O tratamento começou com a retirada total da mama. Durante os quatro anos em que viveu em Mato Grosso, Paula precisou viajar para consultas e procedimentos e passou períodos em uma casa de apoio. Também foi submetida a cirurgias na axila para a retirada de tecido da região.
Segundo ela, as intervenções afetaram os movimentos do braço e reduziram sua capacidade de trabalhar. Na época, dava aulas de zumba e continuou trabalhando mesmo durante a quimioterapia.
“Chegava no outro dia, dava aula, saía correndo vomitar na aula, voltava, dava aula”, conta.
As dificuldades aumentaram quando começou a sentir dores na coluna, que a impediram de continuar dando aulas. Após retornar ao Paraná, em 2018, exames identificaram metástases nos ossos.
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Desde então, Paula passou por novos ciclos de quimioterapia. Como começou a apresentar reações adversas ao tratamento, a equipe médica optou por medicamentos bloqueadores hormonais, que ela recebe há cerca de quatro anos e meio. De acordo com a entrevistada, as aplicações custam mais de R$ 20 mil e foram obtidas por meio de uma ação judicial.
O tratamento exige acompanhamento médico e exames periódicos. Com metástases na coluna e no quadril, ela precisa evitar quedas e atividades que possam provocar fraturas. As dores também variam ao longo dos dias e se intensificam em dias frios.
“Todos os dias é uma dor diferente dos ossos. Esse frio, pra mim, é uma luta constante”, diz.

Da educação física para a tatuagem
A doença também modificou sua relação com o trabalho. Paula já não atua como educadora física, embora mantenha exercícios físicos dentro de suas possibilidades. Na tatuagem, passou a aceitar trabalhos menores, pois permanecer muito tempo na mesma posição pode provocar dores intensas.
“Quando eu estou bem, eu atendo. Quando eu não estou bem, eu não atendo. E assim eu vou levando a vida”, afirma.
A careca, os brincos e o rock
A perda do cabelo durante a quimioterapia foi uma das mudanças físicas que precisou enfrentar. Na primeira vez, Paula usou lenços para cobrir a cabeça. A reação dos alunos, porém, ajudou a mudar sua percepção.
Durante uma aula, decidiu tirar o lenço e ouviu elogios à sua aparência. Nas sessões seguintes de quimioterapia, passou a dispensar a cobertura e adotou brincos grandes.
“Como eu sou da galera do rock and roll, todo mundo achou que eu tinha raspado. Falei: “Maravilha! Mal sabe vocês”, conta.
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O humor também aparece nas consultas. Paula diz que costuma brincar com os profissionais de saúde e que, mesmo nos dias difíceis, tenta retomar a rotina depois de chorar ou desabafar.
Isso não significa que não tenha medo. A cada três meses, quando realiza exames para verificar se há alterações nos órgãos, ela enfrenta novamente a ansiedade da espera pelos resultados.
“Você só respira e dorme depois que sai de lá e fala: ‘Ah, tá tudo bem nos seus órgãos’, afirma.
Paula relata que a possibilidade de uma notícia desfavorável está sempre presente. Ainda assim, procura concentrar-se no que consegue fazer no presente e atribui à fé parte da força para continuar.
“Eu não falo ‘me cura’. Falo ‘obrigado pela minha cura’. Porque todo dia é uma cura”, diz.

A família e os dias que antes pareciam improváveis
Entre os motivos para agradecer, Paula destaca a possibilidade de acompanhar o crescimento da filha e conviver com o neto recém-nascido. Quando recebeu o diagnóstico, ela não sabia se conseguiria ver a filha chegar à vida adulta e construir uma família.
“Achei que eu nem ia conseguir ver minha filha ficar adulta, construir uma família. Hoje, eu já estou conseguindo ver meu netinho”, afirma.
A família também faz parte das preocupações cotidianas. Paula acompanha a situação dos pais, que vivem em Icaraíma, enquanto tenta conciliar os compromissos profissionais, os cuidados com a saúde e a convivência com a filha e o neto.
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A rotina, segundo ela, exige adaptações constantes. Atividades que antes realizava sem pensar passaram a depender de como está se sentindo e do nível de dor. Aprender a reconhecer os próprios limites se tornou parte do tratamento.
“O que me faz mal, eu não faço mais. Vou me adaptando. Todo dia é uma adaptação”, diz.

Um alerta para outras mulheres
No Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, Paula Gibi defende que as mulheres prestem atenção às mudanças no corpo e procurem avaliação médica diante de sinais suspeitos.
Ela recorda que, no início, a pouca idade e a possibilidade de uma alteração hormonal contribuíram para que o nódulo parecesse menos preocupante. A persistência do caroço, porém, levou-a a buscar novas avaliações.
“Se eu fosse pelo que o pessoal fala, ‘não é nada, você é nova, é glândula mamária’, talvez eu não estivesse aqui. Eu fui muito na minha intuição. Eu fui com o meu medo, mas fui”, afirma.
Para Paula, procurar esclarecimento é melhor do que adiar uma consulta por acreditar que não há motivo para preocupação.
“É melhor saber que não é nada do que você deixar, achando que não é nada, e depois não tem mais jeito”, diz.
A experiência também a fez rever o significado de uma vida saudável. Mesmo tendo praticado esportes e cuidado da alimentação durante anos, ela recebeu o diagnóstico de câncer. Hoje, reconhece que a doença não pode ser explicada por um único fator e que manter hábitos saudáveis não elimina todos os riscos.
Apesar das limitações, Paula tenta ampliar o alcance de sua mensagem por meio das redes sociais. Ela conta que recebe mensagens de pessoas que se sentem inspiradas ao vê-la sorrindo durante as consultas e os tratamentos.
“Eu choro, eu tenho medo. Só que eu optei por ir pelo lado mais leve”, afirma.
A escolha de Paula não elimina a incerteza e nem torna o tratamento menos difícil. Mas ela escolher viver enquanto convive com a doença.
“A gente só tem dois caminhos: enfrentar rindo ou chorando. Então, enfrentando rindo é mais leve.”
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