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EDITORIAL: Boicotar não é crime; humilhar pessoas humildes é perverso e infernal

EDITORIAL: Boicotar não é crime; humilhar pessoas humildes é perverso e infernal
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Publicado em 30 de outubro de 2026 às 10h42 - Modificado em 30 de outubro de 2026 às 10h42

Há algo profundamente perverso em transformar a preferência política de um trabalhador em condição para que ele consiga vender um doce, um salgado ou qualquer produto que garanta o sustento de sua família.

O boicote comercial, por motivação política, não é, por si só, crime. O consumidor tem o direito de escolher onde gastar seu dinheiro. Mas abordar vendedores ambulantes, perguntar em quem votaram e anunciar que só comprará de quem não votou em Lula ultrapassa os limites da divergência política. É uma demonstração deplorável de arrogância e insensibilidade.

É usar o poder de compra para humilhar quem luta pela sobrevivência. Essa prática tem que ser repudiada. Não porque defenda determinado candidato ou partido, mas porque nenhuma convicção política justifica a degradação da dignidade humana.

Existe ainda uma premissa preconceituosa nessa conduta: a ideia de que o eleitor de Lula é necessariamente pobre, passa fome ou depende de benefícios sociais. Trata-se de uma caricatura grosseira de um eleitorado formado por milhões de brasileiros de diferentes classes sociais, profissões e níveis de renda.

Eleitores de esquerda também são empresários, comerciantes, empregadores e consumidores. Também movimentam a economia. Se adotassem a mesma lógica, poderiam boicotar estabelecimentos cujos proprietários pregam a exclusão comercial de quem votou em Lula.

E então? Teríamos supermercados de direita, padarias de esquerda e restaurantes que selecionam clientes conforme suas preferências eleitorais?

A democracia não exige unanimidade. Exige civilidade. O direito de discordar não confere a ninguém licença para humilhar. A contradição torna-se ainda mais grave quando esse comportamento parte de pessoas que se apresentam como defensoras dos valores cristãos.

Jesus ensinou: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (João 13:34). Não estabeleceu exceções para adversários políticos. Em Lucas 6:27, foi ainda mais incisivo ao ensinar o amor aos inimigos e a prática do bem até mesmo àqueles que nos odeiam. Em Mateus 7:12, encontramos a essência da reciprocidade: devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. E Provérbios 14:31 adverte: “O que oprime o pobre insulta aquele que o criou”.

O apóstolo Tiago já condenava, há quase dois mil anos, aqueles que dispensavam honras aos ricos enquanto tratavam os pobres com desprezo. Em sua epístola (2:1-9), classificou essa distinção como um julgamento perverso. É difícil imaginar contradição maior com esse ensinamento do que humilhar um trabalhador que vende doces nas ruas simplesmente porque seu voto desagrada a quem tem dinheiro para comprá-los.

Não há coerência em proclamar amor a Cristo enquanto se utiliza a pobreza alheia como instrumento de humilhação.

É preciso distinguir a liberdade individual da crueldade deliberada. Ninguém é obrigado a comprar de ninguém. Mas transformar a necessidade econômica de um trabalhador em oportunidade para constrangê-lo é revelar uma das faces mais execráveis do comportamento humano.

Imagine a mulher que acorda de madrugada para preparar os doces que venderá na rua. Ou o homem que passa o dia sob o sol oferecendo salgados para conseguir pagar o aluguel e alimentar os filhos. Essas pessoas não estão pedindo aprovação ideológica. Estão trabalhando.

Não representam um partido. Não respondem pelos atos de um presidente. Não devem explicações sobre o voto que depositaram na urna. E, sobretudo, não precisam se submeter a um interrogatório político para merecer respeito.

O Brasil já sofre as consequências de uma polarização que invade famílias, destrói amizades e compromete relações profissionais. Estender essa hostilidade às relações comerciais, especialmente contra os mais vulneráveis, significa avançar mais um passo na desumanização do adversário.

Convém lembrar que nem toda conduta moralmente repugnante constitui crime. O boicote pacífico é, em regra, legítimo. Dependendo das circunstâncias, porém, ameaças, ofensas ou outras formas de constrangimento podem configurar ilícitos. Mas a ausência de crime não transforma uma atitude em algo aceitável.

OBemdito também não defende que eleitores de Lula respondam com uma campanha de retaliação comercial. Embora tenham pleno poder de consumo para isso, alimentar uma guerra de boicotes apenas ampliaria o abismo entre brasileiros.

Ninguém deve ser perseguido, hostilizado ou humilhado por votar em Lula, Bolsonaro ou no Saci Pererê. A liberdade política perde seu sentido quando se converte em instrumento de intimidação.

É muito fácil falar em Deus, família, liberdade e amor ao próximo diante de quem concorda conosco. Difícil é praticar esses valores quando o outro pensa diferente.

Quem humilha um trabalhador pobre por causa de seu voto não demonstra superioridade moral, consciência política ou fidelidade aos ensinamentos cristãos. Demonstra apenas a própria miséria de espírito.

Uma sociedade que precisa perguntar em quem alguém votou antes de reconhecer sua dignidade já perdeu muito mais do que uma eleição.

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Leonardo Revesso

Graduado em Direito pela Unipar, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especializando em Neurociência do Consumo pela ESPM. Tutor da Olívia, da Ludi e da Mila. Está no jornalismo há 27 anos (iniciou aos 15). No OBemdito escreve sobre política e consumo.