Ausente por medo, sobrevivente de feminicídio marca formatura com carta
A estudante Sayonara da Silva emocionou o público durante a cerimônia de formatura em Administração, realizada na última sexta-feira, 27, em Apucarana. A solenidade ocorreu na Universidade Estadual do Paraná.
Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio registrada em 10 de fevereiro, Sayonara não compareceu ao evento. O suspeito, seu ex-companheiro Ademar Augusto Crepe, 58, permanece foragido, mesmo com prisão preventiva decretada.
Ausência foi explicada em carta aberta
Durante a cerimônia, a organização leu uma carta aberta enviada pela graduanda. No texto, ela afirmou que a ausência não foi uma escolha, mas uma imposição do medo e da insegurança.
Ela criticou o sistema e apontou que a vítima precisa se recolher enquanto o agressor circula livremente. Ainda assim, destacou que a conquista representa resistência.
“Roubaram meu momento, não meu futuro. A formatura ficou para depois, mas a coragem me formou para sempre. Estudar não é rebeldia, é resistência”, afirmou.
Diploma simboliza resistência
No texto, Sayonara declarou que o diploma simboliza superação. Ela afirmou que seguiu estudando mesmo sob traumas e angústias.
“Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não interrompi o meu caminho”, escreveu.
Ela também relatou que produziu trabalhos acadêmicos enquanto protegia os filhos. Além disso, afirmou que persistiu quando o cenário exigia apenas sobrevivência.
Protocolo foi alterado na cerimônia
Durante o evento, a organização quebrou o protocolo oficial. A cerimônia anunciou que Sayonara foi aprovada no mestrado em Administração da Universidade Estadual de Maringá.
Ela também foi bolsista de projeto de extensão do Programa Universidade Sem Fronteiras durante a graduação. O anúncio gerou aplausos e comoção entre os presentes.
Crime ocorreu há duas semanas
A tentativa de feminicídio completou 15 dias na última semana. Segundo a Polícia Civil do Paraná, o suspeito utilizou uma caminhonete F-350 para colidir intencionalmente contra o carro da vítima, um Audi A1.
No veículo também estava o filho dela, de nove anos. O impacto empurrou o carro contra um poste, que caiu sobre a estrutura do automóvel.
De acordo com as investigações, após a batida, o investigado tentou efetuar três disparos contra a ex-mulher e a criança. A arma falhou, o que permitiu que ambos fugissem a pé.
Suspeito segue foragido
Mãe e filho receberam atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento com ferimentos leves. Desde então, a polícia realiza diligências para localizar o suspeito.
A Polícia Civil divulgou fotos de Ademar Augusto Crepe e solicita informações anônimas pelos telefones 197 ou 181.
Na carta, Sayonara reforçou a mensagem de resistência. “Meu corpo não está aqui, mas minha conquista é imensa e dela ninguém poderá me despojar. Estudar não é rebeldia; é resistência. Viva a universidade pública. Viva a UNESPAR.”
Leia a carta na íntegra:
“Gostaria profundamente que estas palavras fossem ditas por mim, olhando nos olhos de cada colega, professor e familiar. Contudo, hoje minha voz chega até vocês por meio deste texto, porque minha presença física me foi privada. Formo-me nesta noite, mas não posso subir a este palco.
Enquanto celebramos o encerramento de um ciclo acadêmico, eu atravesso o ápice de um ciclo de injustiça. Não estou presente porque aquele que atentou contra a minha vida e a de meu filho permanece em liberdade.
Minha ausência não é uma escolha; é o retrato de um sistema que ainda impõe à vítima o recolhimento, enquanto o agressor circula sem restrições. Ainda assim, quero que saibam: ele não venceu.
Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não interrompi o meu caminho. Estudei entre angústias e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo parecia exigir apenas que eu sobrevivesse.
Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que este lugar hoje simbolicamente ocupado pela professora Carine seja um lembrete de que nossa formação deve servir à construção de um mundo no qual nenhuma mulher precise ausentar-se da própria vitória para garantir o direito de permanecer viva.
Eu concluí a faculdade. Rompi o silêncio. E, ao lado de meus filhos, continuarei vencendo a cada dia. Meu corpo não está aqui, mas minha conquista é imensa e dela ninguém poderá me despojar. Estudar não é rebeldia; é resistência. Viva a universidade pública.
Viva a UNESPAR.”
Sayonara da Silva
Com informações: TN Online





