Jaqueline Mocellin Publisher do OBemdito

Vítima de feminicídio em Umuarama é identificada; casal residia no imóvel há pouco tempo

Foto: Vagner Delaporte/OBemdito
Vítima de feminicídio em Umuarama é identificada; casal residia no imóvel há pouco tempo
Jaqueline Mocellin - OBemdito
Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 08h19 - Modificado em 8 de janeiro de 2026 às 13h36

Foi identificada como Luzivalda Rodrigues Alves, de 50 anos, a vítima de um feminicídio descoberto na última segunda-feira (5) em Umuarama, região Noroeste do Paraná. O crime choca pela frieza do autor confesso, Thiago José Conradi, de 36 anos. Luzivalda e Thiago tinham um relacionamento, porém, não há detalhes oficiais a respeito de qual era a real situação do casal.

Ela era natural de Guaíra (PR) e ele de Blumenau (SC). A Polícia Civil do Paraná (PCPR) confirmou que ambos residiam em Umuarama há alguns anos. Contudo, estavam morando no endereço onde ocorreu o crime há pouco tempo.

De acordo com vizinhos, eles se mudaram para o local há cerca de um mês e quase ninguém os via – principalmente Luzivalda. “Para ser sincera, nunca cheguei a vê-la. Já o homem, vi algumas vezes quando saía de casa e ia andando em direção à Praça Tamoio, mas sempre de costas. Por isso, se me perguntarem, nem sei dizer como é o rosto dele”, disse uma moradora dos arredores de onde ocorreu o feminicídio.

O crime aconteceu na residência do casal, na avenida Roberto Silveira, na Zona VI. O imóvel é um apartamento sobre uma garagem, nas proximidades do Colégio Estadual Vereador José Balan.

Uma mulher “invisível”

OBemdito esteve na Zona VI e conversou com vizinhos e comerciantes. Por questão de segurança, nenhum deles será identificado na reportagem. Todos os entrevistados falaram algo em comum: nunca viam Luzivalda. A vítima era praticamente uma mulher “invisível”.

“Apesar de eles terem mudado ali há mais ou menos um mês, nunca vi a mulher. Não tenho a menor ideia de como ela era, de como era seu cabelo, seu olho… Nada, nada”, afirmou uma jovem que mora da região.

Por outro lado, seu companheiro era visto às vezes andando pela rua, principalmente nos seus deslocamentos em direção à Praça Tamoio. Inclusive, foi no entorno desta mesma praça que a Polícia Militar (PM) realizou sua prisão.

Ele estava bebendo em um bar quando os PMs o localizaram. Pouco antes os policiais tinham encontrado o corpo de Luzivalda em avançado estado de decomposição. Ela estava envolta em lonas plásticas no banheiro do imóvel em que o casal residia.

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Fachada do imóvel onde o crime aconteceu (Foto: Vagner Delaporte/OBemdito)

Após o feminicídio, a ocultação do cadáver

Logo após sua prisão, Thiago confessou aos policiais que havia tirado a vida da companheira. Ele indicou que foi motivado por ciúmes e que eles haviam discutido. O ato passional fez com que desferisse diversos golpes na cabeça da vítima e que, dessa forma, ela morreu.

De acordo com o autor confesso, o crime aconteceu entre às 16 e às 18h do dia 30 de dezembro de 2025. Contudo, a PM localizou o corpo da mulher apenas no fim da noite do dia 5 de janeiro de 2026, ou seja, após uma semana.

Por incrível que pareça, os vizinhos comentaram que o morador continuou na residência durante esses 7 dias (mesmo com o corpo dentro do banheiro). O homem disse aos policiais que utilizou panos para tentar conter o odor da putrefação.

A vizinhança afirma não ter sentido cheiro incomum. O odor foi sentido apenas após os policiais entrarem no imóvel e abrirem o banheiro onde estava o cadáver de Luzivalda, já em estado avançado de decomposição.

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O momento quando ocorreu a remoção do corpo de Luzivalda de sua residência, uma semana após o feminicídio (Foto: Reprodução/OBemdito)

A intenção era remover o corpo da residência?

A OBemdito, uma pessoa confirmou que o autor teria comentado em um bar, no dia 1º de janeiro, que tinha tirado a vida da convivente. “Mas ninguém acreditou que isso seria verdade. Todos acharam que era algum tipo de brincadeira”, disse a fonte. Ele também teria dito que estava em busca de uma pá e de um carrinho de mão. que estava em busca de uma pá e de um carrinho de mão. Ele teria dito isso logo após afirmar.

A princípio, a pá e o carrinho de mão podem indicar que o homem teria intenção de remover o corpo do imóvel em breve. No entanto, a confirmação deste fato está à cargo da investigação, de responsabilidade da Polícia Civil do Paraná (PCPR), através da equipe da Delegacia da Mulher de Umuarama.

Outro fato que pode indicar esta mesma intenção, é que o autor do feminicídio furtou a câmera de monitoramento de um estabelecimento próximo de local onde aconteceu o crime. O furto aconteceu na madrugada de segunda-feira (5), às 3h18.

Ele utilizou uma vassoura para acertar o equipamento, que ficava direcionado justamente para o imóvel onde o casal residia. Entretanto, devido à distância, a câmera não chegava a captar o apartamento e, sequer, estava virada diretamente para ele.

Mesmo conseguindo levando o aparelho, o autor provavelmente esqueceu-se que as imagens ficam arquivadas em um sistema. E elas mostram o rosto dele no momento em que removia a câmera da parede do comércio.

Desconhecidos no bairro

Aparentemente o casal não tinha emprego fixo. “O homem saía de casa, a qualquer hora do dia ou da noite, e seguia em direção à praça Tamoio. Depois de algum tempo voltava aparentando estar bêbado. Ela eu nunca via. Acredito que não trabalhavam. E não sei como pagavam as contas, o aluguel, faziam mercado”, disse um morador da região onde o feminicídio ocorreu.

OBemdito apurou que o imóvel teria sido alugado através de um anúncio no Market Place do Facebook. Contudo, a reportagem não conseguiu descobrir quem é o proprietário. A intenção era verificar se o casal já tinha realizado algum pagamento de aluguel, tendo em vista que estavam há apenas um mês (ou até menos tempo) morando no local.

Outra entrevistada comentou que os dois teriam se conhecido na região da antiga rodoviária de Umuarama. O local costumeiramente é frequentado por usuários de drogas, praticantes de delitos e de prostituição. No entanto, até o momento a PCPR não divulgou quaisquer informações que indiquem que os dois tinham condutas relacionadas com essas práticas.

Como a PM descobriu o feminicídio

A PM chegou até o imóvel e localizou o corpo após Thiago relatar para pessoas que estavam em um bar que teria cometido o crime no dia 30 de dezembro. Os policiais tomaram conhecimento da conversa e foram até o endereço checar se o fato era verídico.

Ao chegarem ao local indicado, os policiais militares encontraram o cadáver que, aparentemente, era de uma mulher. O intervalo de tempo entre o feminicídio e a localização, além do calor, fizeram com que o corpo já estivesse em avançado estado de decomposição.

O próximo passo das equipes do 25º Batalhão da PM foi sair em busca do suspeito. E os policiais não tiveram grande dificuldade, pois ele estava em uma via pública nas proximidades do imóvel. Imediatamente os PMs deram voz de prisão em flagrante e o conduziram à Delegacia de Polícia Civil.

Em seu interrogatório, Thiago confessou a autoria do crime, alegando motivações passionais. De acordo com a Delegacia da Mulher, o homem já possui histórico criminal por violência doméstica praticada contra outras mulheres. Ele, inclusive, estava usando tornozeleira eletrônica quando foi preso.

A princípio, o autor confesso deve responder pelos crimes de feminicídio e ocultação de cadáver, ambos previstos no Código Penal Brasileiro. Ele segue na carceragem da cadeia pública de Umuarama.

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Equipes da Polícia Militar em frente ao imóvel logo após a descoberta do cadáver – Foto: Reprodução/OBemdito

Investigação em andamento

A equipe da Delegacia da Mulher é responsável pela investigação, sob a coordenação da autoridade policial local, a Delegada Fernanda Bertoco. Na última quarta-feira (7) a PCPR divulgou uma nota explicando que outras informações sobre o caso ainda dependem da juntada de laudos periciais.

Os documentos podem esclarecer com mais exatidão como foi a dinâmica dos fatos que levaram ao feminicídio. Bem como, indicar o que causou, efetivamente, a morte da vítima, entre outros aspectos extremamente relevantes para a investigação. Além disso, a equipe trabalha nas oitivas complementares de possíveis testemunhas e familiares.

A Polícia Científica de Umuarama informou que familiares de Luzivalda estiveram no Instituto Médico-Legal (IML). Após a confirmação da identidade da vítima de feminicídio, o corpo foi liberado para os atos fúnebres – que aconteceram em Umuarama.

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Moradores da Avenida Roberto Silveira, na Zona VI, acostumados com a tranquilidade daquela região da cidade, ficaram abalados com o crime – Foto: Vagner Delaporte/OBemdito

Violência contra a mulher na região de Umuarama

No mês de dezembro OBemdito divulgou dados que indicam o aumento dos registros de casos de violência contra a mulher na região de Umuarama. Nas comarcas atendidas pela Delegacia da Mulher de Umuarama, os registros cresceram mais de 40% em 2025.

O aumento, porém, não significa necessariamente uma escalada da violência. Na avaliação da delegada Fernanda Bertoco, a escalada reflete principalmente o fato de que mais mulheres estão rompendo o silêncio e procurando as autoridades policiais.

De acordo com o relatório da PCPR, o total de boletins de ocorrência na região saltou de 1.513 em 2024 para 2.132 em 2025, um crescimento de 41%. No mesmo período, as solicitações de medidas protetivas de urgência passaram de 593 para 636.

A Delegacia da Mulher também registrou 170 prisões em flagrante relacionadas a crimes de violência doméstica e familiar. Confira a entrevista com a delegada aqui.

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