Ítalo Fabio Casciola

Sua alteza a peroba, rainha absoluta das florestas que não existem mais em Umuarama!

Soberana nas forestas que não existem mais por aqui, a peroba é tema da coluna deste domingo. Ao longo do tempo, através de minhas crônicas jornalísticas aqui n’OBEMDITO, venho vem tentando cumprir o propósito de formar um mosaico mesclando relatos e imagens por intermédio das quais Umuarama vai sendo, aos poucos, mostrada em diferentes momentos de sua pré-existência e fundação.

Esse começo, como podem ter observado os atentos leitores e leitoras, não foi pincelado com cores de glória como quer deixar transparecer a “história oficial”, tão decantada em versos e prosas ao longo de 70 anos de História da Capital da Amizade. Tentando, talvez, passar uma borracha em certos abusos do passado que hoje, mesmo que tardiamente, saltam aos nossos olhos revelando um quadro que não se pode mais esconder: o horror e a desgraça causada pela guerra deflagrada contra o meio ambiente.

Isso ocorreu principalmente a partir da década de 1950 que, mesmo sentindo as conseqüências que batem à nossa porta, parece não ter mais fim e isso está claramente demonstrado nos crimes que continuam sendo cometidos contra a natureza em toda a região Noroeste paranaense, da qual fazemos parte…

O progresso a qualquer preço

Entre tantos “anjos verdes” caídos nessa longa e interminável saga, abatidos pelos demônios da ganância que usavam como escudo a esfarrapada mentira do “progresso a qualquer preço”, está outra madeira de lei, que ao lado das araucárias (pinheiros), despontava na “lista negra” do setor comercial/industrial madeireiro da época: a PEROBA.

Farta documentação do século passado prova por todos os ângulos que Umuarama e o território ao seu redor eram riquíssimos em perobas, também conhecidas como amargoso, guatambu-amarelo, ibirá-ró-mí, marela, paroba-amargosa, pau-caboclo, peroba, peroba-açu, peroba-amarela, peroba-amargosa, peroba-branca, peroba-osso, peroba-comum, peroba-do-rio, peroba-mirim, peroba-miúda, peroba-rajada, peroba-verdadeira, peroba-vermelha, perobeira, perobinha, perova e sobro.

Sua alteza a Peroba, rainha absoluta das antigas florestas que não existem mais…

Ela existia em fartura

A fartura dessa espécie foi a fonte de prosperidade da indústria madeireira, pois a madeira de peroba-rosa era apropriada para a fabricação de vigas, caibros, sarrafos, assoalhos e tábuas usadas durante o ciclo da colonização na construção de moradias, barracões e similares que exigissem madeiras resistentes e de longa vida. Pesada, dura e durável, a árvore era matéria-prima que os carpinteiros desejavam. E usada na confecção de móveis pesados, carrocerias, barcos e lanchas e, principalmente, para dormentes e vagões de ferrovias.

Nós, que assistimos àquele assalto às florestas de então, podemos lembrar com clareza a majestade daquele imenso manto verde que se perdia no horizonte. As perobas, com 30 a 35 metros de altura e troncos de um metro ou mais de circunferência, reinavam absolutas. Verdadeiras gigantes, intocadas, facilmente identificadas entre tantas espécies. Mesmo à longa distância, pelos seus troncos tortuosos, galhos trifurcados e formando uma charmosa copa lá no alto.

A sua casca rugosa acinzentada, profundamente sulcada de baixo a cima, se assemelhava à pele de um jacaré. Artisticamente esculpida pela mãe natureza. A cor de sua madeira, vermelha-rosada, conferia-lhe uma singular beleza, razão de ser cobiçada pelos artesãos da arte mobiliária.

Na primavera chegam as flores…

Na primavera, então, se vestia de flores miúdas amarelo-esverdeadas. Olhar uma peroba-rosa de baixo para cima era algo que impressionava, de tão alta. Era o que poderia se chamar, sem medo de cometer exagero algum, de uma superárvore, uma rainha das matas. Distinguindo-se ao lado de outra de sua mesma alteza como rei, o pinheiro. Ambas faziam sombra em qualquer outro tipo de espécie da flora, que pareciam rastejar aos seus pés, oooops!, às suas raízes!

Caminhões e caminhões abarrotados de enormes toras saíam diariamente das nossas matas rumo às serrarias

Em sua mais completa ignorância ambiental, aliada à sede de enriquecer à custa da venda de sua valiosa madeira e da inexistência de fiscalização rigorosa, os colonos da época foram colocando abaixo as milhares de perobas-rosa, talvez pensando que elas nunca acabariam. Como não se cultivava a cultura de reflorestamento, até porque uma peroba leva décadas para atingir aquela altura fantástica, dizimaram todas…

Hoje, por incrível que pareça, se quiserem perobas têm que importá-las do vizinho Paraguai! A preço de ouro… E lá, também, elas estão acabando!!! (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO).

Ítalo Fábio Casciola

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