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2021 foi carrasco demais com Umuarama, deixando feridas difíceis de cicatrizar

2021 foi carrasco demais com Umuarama, deixando feridas difíceis de cicatrizar
Valdir Miranda
OBemdito
29 de dezembro de 2021 10h56

Gostaria de iniciar esse texto com uma saudação altamente positiva, empolgada, entusiasmada, mas não dá. Poderia me ater a escrever sobre a inauguração da nova rodoviária, ou do anúncio do início dos voos comerciais em janeiro, ou ainda do início das atividades do primeiro shopping da cidade, ou ainda do recorde de projetos da construção civil.

Mas tudo isso já foi fartamente divulgado e é muito legal. E o que vou escrever não é legal. Esse 2021 foi um ano carrasco com Umuarama. E não se trata tão somente do flagelo da pandemia de Coronavírus, que nos levou mais de três centenas de vidas – e quantas delas poderiam ter sido evitadas se houvesse o devido e pronto atendimento.

Umuarama tem outras feridas abertas de difícil cicatrização cuja origem está num outro vírus igualmente terrível, de nefastas consequências que costuma acometer os meios públicos, esses que agem com o dinheiro do povo.

Umuarama, que parecia anestesiada diante de número considerável de obras públicas dando a ilusão de um oásis administrativo e um ambiente político sadio, de repente se viu arrancada dessa letargia para a mais dura realidade: dinheiro público estava escorrendo pelo esgoto da corrupção e abastecendo bolsos dos responsáveis por zelar exatamente do erário.

Vilões da noite para o dia

Pessoas tidas como probas, de linhagem familiar intocável do ponto de vista moral, se tornaram vilãs da noite para o dia. Ou melhor, num amanhecer de início de semana, quando representantes do Ministério Público com apoio da Polícia Militar fizeram um cerco ao Paço da Amizade, sede administrativa de Umuarama.

As revelações que começaram a ser feitas chocaram boa parte da população, especialmente os que conheciam mais de perto o prefeito Celso Pozzobom, que se encontrava no primeiro ano do seu segundo mandato – para o qual fora reconduzido com um balaio de votos, capazes de lhe garantir também um futuro tranquilo na política.

Enquanto assessores do prefeito eram presos levando junto alguns prestadores de serviços, ele permaneceu mais algum tempo no cargo até ser afastado por decisão monocrática de um desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná.

Engrenagem azeitada

Tido como a cabeça pensante e mandante principal de um grupo que agiu de forma engenhosa e com uma engrenagem azeitada, o prefeito foi acusado pelo Ministério Público de ser responsável pelo desvio de cerca de 19 milhões de reais de verbas federais destinadas a combater a Covid-19.

Isso explodiu como uma bomba, pois se deu num momento em que a pandemia estava em seu auge e havia reclamações sobre falta de médicos, de leitos, de equipamentos e de remédios para atender os acometidos pela doença.

Essas feridas abertas pela corrupção, pelo que se sabe, não devem cicatrizar tão cedo. O farto material apreendido pelas Operações Metástase e Jaborandy (esta levada a efeito pela Polícia Federal), ainda estão em análise pelos investigadores.

Fora os que já foram presos e outros que tiveram seus nomes expostos pelo que se tornou público, certamente tem mais gente que não está conseguindo dormir direito ultimamente dada a proximidade mantida com o poder municipal sob o comando de Pozzobom, o Celso.

Situação surreal

Enquanto prosseguem essas investigações Umuarama vive sua situação até certo ponto surreal: a Prefeitura está sob o comando interino do vice-prefeito Hermes Pimentel da Silva. Ocorre que Pozzobom encontra-se afastado, conforme decisão da Justiça, pelo tempo que durar as investigações.

Mas essa decisão, de acordo com o que transcorre nos tribunais, deverá ser decidida de forma coletiva e não individual – ou seja, o afastamento do Celso do cargo de prefeito de Umuarama será agora avaliado por uma turma formada por três desembargadores.

Ou seja, o futuro da cidade está nas mãos da Justiça. 

Decisões difíceis

A Prefeitura continua andando dentro da normalidade. Mesmo que no cargo de forma interina, Pimentel tem tomado decisões difíceis do ponto de vista administrativo, e mantém o ritmo de trabalho sob o seu comando. Mas para ele, inclusive, e para sua equipe de forma geral, fica difícil trabalhar com planejamento em longo prazo, o que é extremamente necessário para a gestão pública, pois não se sabe o que irá acontecer no dia de amanhã.

Também poderia discorrer sobre o papel do Poder Legislativo municipal em todo esse episódio, mas dada a natureza do cargo que ocupo atualmente na Prefeitura, qualquer avaliação que eu faça pode vir a ser confundida com o que pensa Pimentel, e não é nada disso. Essas observações são absolutamente de cunho pessoal, baseadas em fatos.

Poderia, igualmente, fazer observações sobre cada uma das personagens desse trágico momento vivido por Umuarama, mas demandaria um texto bastante longo.

Os observadores mais atentos da cena político-administrativa de Umuarama, já concluíram que esse escândalo não tem origem só nesta cidade. Como já mencionei, as investigações ainda estão em curso, e não será mais nenhuma surpresa se nomes conhecidos da política virem à tona. Esse pesadelo não tem fim tão cedo.

Por isso, não há nenhuma exaltação entusiasmada no início deste texto. Pra mim, 2021 foi carrasco demais com Umuarama.  

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*Valdir Miranda, radialista e jornalista em Umuarama desde 1972; aposentado, atualmente é secretário de Comunicação Social da Prefeitura (cargo já ocupado em quatro outras gestões).

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