Assessora de Flávio Bolsonaro negociou emenda com condenado no caso Marielle, aponta PF
Uma assessora do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou, em 2023, a liberação de uma emenda parlamentar com Robson Calixto. Conhecido como “Peixe”, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por organização criminosa relacionada ao caso Marielle Franco.
As conversas foram encontradas pela Polícia Federal no celular de Calixto. Os investigadores apuram suspeitas de desvios de emendas destinadas a entidades do Rio de Janeiro. A apuração foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Segundo a investigação, a assessora Maria de Fátima Bezerra Castro atuava como interlocutora de Calixto dentro do gabinete de Flávio. Ele procurou a assessora para pedir recursos ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop.
A entidade recebeu R$ 199 mil por meio de uma emenda destinada por Flávio Bolsonaro. O recurso foi direcionado a um projeto esportivo. O pagamento aparece no Portal da Transparência em 29 de novembro de 2023.
Conversas tratavam da liberação dos recursos
Nas mensagens analisadas pela PF, Calixto pediu que Maria de Fátima verificasse com Flávio a possibilidade de liberar recursos para o instituto. Em determinado momento, ele solicitou ajuda para garantir a continuidade do projeto.
A assessora orientou Calixto a reforçar pessoalmente o pedido com Flávio Bolsonaro. Em outra conversa, ela o convidou para participar de um evento com o senador.
Segundo a investigação, a participação poderia permitir que Calixto cobrasse diretamente do senador a liberação dos recursos. As conversas continuaram durante 2023 e chegaram a março de 2024.
Calixto voltou a cobrar informações sobre os recursos e pediu que Flávio não esquecesse do instituto. O repasse de R$ 199 mil ocorreu meses depois das primeiras tratativas registradas nas mensagens.
PF apura possível desvio de emendas
A Polícia Federal investiga se parte das emendas destinadas a entidades relacionadas aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foi desviada. Os dois foram condenados pelo STF como mandantes do assassinato de Marielle Franco.
Robson Calixto também foi condenado no caso, por integrar uma organização criminosa relacionada ao assassinato da vereadora. As investigações sobre as emendas analisam repasses feitos para entidades do Rio de Janeiro.
No caso envolvendo Flávio Bolsonaro, a apuração aponta cerca de R$ 600 mil destinados a organizações sob investigação. Além dos R$ 199 mil destinados ao Ifop, aproximadamente R$ 400 mil foram enviados a Barra do Piraí por meio de emenda Pix.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União incorporada à investigação apontou outro fato. Segundo o levantamento, parte dos recursos destinados ao Ifop teria sido utilizada para pagar um escritório de advocacia ligado aos responsáveis pela entidade.
A Polícia Federal considera essa movimentação um possível indício de desvio de recursos. A apuração ainda busca esclarecer a destinação efetiva dos valores e eventual responsabilidade dos envolvidos.
Assessora pediu ingressos para Carnaval
As mensagens analisadas pelos investigadores mostram ainda outro pedido feito por Maria de Fátima a Calixto. A assessora solicitou quatro ingressos para um camarote no Sambódromo do Rio de Janeiro.
Os ingressos seriam destinados ao desfile das escolas campeãs do Carnaval. Segundo a investigação, o pedido pode representar uma possível vantagem indevida.
Calixto conseguiu as credenciais por meio de outro interlocutor. Os diálogos, porém, não deixam claro se os ingressos chegaram efetivamente às mãos da assessora.
Flávio diz que emenda seguiu critérios técnicos
Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda negociada pela assessora seguiu a legislação vigente. Segundo o senador, o repasse também respeitou critérios técnicos do Ministério do Esporte.
A defesa de Flávio declarou que a entidade responsável apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos. Também informou que os valores que não foram utilizados foram devolvidos.
A manifestação afirma ainda que a responsabilidade pela execução dos recursos pertence à entidade beneficiária. Flávio também defendeu que eventuais irregularidades sejam apuradas pelos órgãos de controle.
Maria de Fátima Bezerra Castro não respondeu aos contatos da imprensa. A defesa de Robson Calixto também não se manifestou sobre o caso.
A defesa de Domingos Brazão informou que não atua nesse assunto relacionado às emendas. A investigação segue sob autorização do STF e busca esclarecer possíveis desvios de recursos públicos.
A apuração da Polícia Federal integra uma investigação mais ampla sobre a destinação de emendas parlamentares para entidades do Rio de Janeiro. Os investigadores analisam os repasses, as negociações e a aplicação dos recursos.
Com informações: Banda B
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