Alex Nascimento Publisher do OBemdito

Dos campos do Aceru às duas taças: a história de Raiane, atleta de Umuarama

Raiane da Silva Alves começou no ACERU, em Umuarama, e conquistou dois títulos pela Chapecoense em sua estreia no futebol 7 - Foto: arquivo pessoal
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Alex Nascimento - OBemdito
Publicado em 20 de setembro de 2026 às 17h27 - Modificado em 20 de setembro de 2026 às 17h27

Antes de levantar duas taças pela Chapecoense, Raiane da Silva Alves era apenas uma menina que gostava de jogar futebol com os primos.

Foi em Umuarama que ela começou a construir uma história que ainda está longe do fim. No Parque Industrial, a jovem encontrou no Aceru os primeiros caminhos para transformar paixão em sonho.

Na época, quase não havia espaço para meninas. Raiane jogava com a prima Beatriz, que também seguiu no futebol e atualmente defende a Afsu.

A falta de oportunidades não fez a atleta desistir. Pelo contrário, ela encontrou no incentivo de pessoas próximas a força para continuar acreditando.

Entre essas pessoas estava o técnico Flavio dos Reis. Raiane o considera uma das figuras mais importantes de sua formação.

“Ele foi uma pessoa sensacional e muito importante na minha vida, porque ele sempre acreditou em mim, sempre me incentivou e sempre me colocou pra jogar.”

Um sonho que começou cedo

Raiane não consegue apontar exatamente quando decidiu transformar o futebol em profissão. Para ela, a resposta está na sensação que sente quando pisa em campo.

“Quando eu entro dentro de campo eu me sinto feliz, me sinto aliviada. Claro que tem a tensão do jogo e tudo mais, mas é onde eu me sinto bem.”

Os elogios que recebia também ajudaram a despertar a certeza de que poderia ir mais longe. Pessoas próximas diziam que ela tinha talento e poderia construir uma carreira. “Foi daí que eu vi que eu queria isso pra minha vida.”

Com o passar dos anos, o sonho ganhou novos contornos. Raiane percebeu que precisaria deixar Umuarama para buscar oportunidades que ainda não encontrava na cidade.

Longe de casa para correr atrás do sonho

A primeira tentativa aconteceu em uma peneira da Ferroviária. Ela não passou, mas não desistiu.

Um mês depois, surgiu outra oportunidade. Cerca de cem meninas participaram de uma avaliação no Avaí Kindermann. Apenas cinco foram escolhidas. Raiane estava entre elas. “Fiquei lá por um ano e meio, joguei competições nacionais, foi uma experiência única.” Depois, vieram novas mudanças. A atleta passou pelo Jaraguá e pelo Marcílio Dias, ambos de Santa Catarina.

A distância da família trouxe momentos difíceis. Viver longe de casa exigiu amadurecimento e obrigou Raiane a enfrentar situações que nem sempre compartilhava com os familiares. “Não é fácil ficar longe de casa, longe da família. Eu já passei por grandes dificuldades onde minha família nem sabia.”

Mesmo assim, ela não enxerga esse período apenas como sofrimento. Para Raiane, cada experiência ajudou a formar a jogadora e a pessoa que ela é hoje. “Eu acho que isso faz parte de quem mora em alojamento, que é bem complicado.”

A passagem pelas equipes catarinenses também mostrou que o sonho poderia ser maior. No Campeonato Catarinense de campo, Raiane ganhou experiência e passou a acreditar ainda mais em seu potencial. “Foi onde eu tive experiência no Catarinense de campo e vi que posso ir além.”

Uma nova modalidade e uma oportunidade inesperada

Foi então que o futebol 7 apareceu no caminho de Raiane. O convite para defender a Chapecoense partiu de uma jogadora com quem ela já havia atuado. A oportunidade trouxe uma sensação difícil de esconder. “Eu pulei de alegria, porque tem gente que acredita no meu potencial, né?”

Havia, porém, um detalhe importante. Raiane nunca tinha jogado futebol 7. “Foi uma novidade total, uma bomba. Eu nunca tinha jogado Fut7.” O início foi cercado por receio. Aos poucos, porém, a atleta encontrou seu espaço e passou a gostar da modalidade. “No começo estava meio receosa, depois fui me soltando. Me adaptei muito, gostei muito de jogar.”

Ela ainda não sabia, naquele momento, que a primeira experiência terminaria com duas taças.

Duas taças para coroar a estreia

A Chapecoense conquistou a Copa Sul Feminina de Futebol 7 de 2026 após enfrentar o Atlético na decisão. A partida terminou empatada por 1 a 1 no tempo regulamentar. Nos pênaltis, a equipe catarinense garantiu o título inédito.

A campanha também assegurou à Chapecoense uma vaga na fase nacional da Liga Fut7. Para Raiane, a conquista teve um significado ainda maior. “Ser campeã logo de cara significou que eu tô no caminho certo.”

A atleta participou diretamente dos momentos decisivos. Ela marcou dois gols de pênalti durante a competição e também balançou as redes na final.

A segunda taça veio na Copa dos Campeões de Futebol 7 de 2026. A decisão novamente exigiu força da equipe. A Chapecoense vencia por 2 a 1 quando ficou com uma jogadora a menos. Raiane conta que chegou a imaginar que o adversário poderia empatar. “Aí eu pensei ‘meu Deus, elas vão empatar’.”

Pouco depois da expulsão, ela marcou o gol que aumentou a vantagem da Chapecoense. “Logo depois que expulsaram a nossa jogadora eu fui lá e fiz o gol. Na hora eu só agradeci a Deus.”

Quando a ficha caiu

As duas conquistas trouxeram mais do que medalhas e troféus. Elas fizeram Raiane olhar para trás e lembrar de tudo o que precisou enfrentar para chegar até ali. “Quando a gente levou esses títulos e eu vi a camisa que eu estava vestindo, vai caindo a ficha: caramba, eu tô vivendo um sonho.”

Naquele momento, a menina que começou jogando com os primos estava vivendo uma realidade que parecia distante anos antes. O pensamento voltou para Umuarama. Voltou para o Aceru, para o Moreno, para a família e para as pessoas que acompanharam seus primeiros passos.

“Sim, na hora eu lembrei do Moreno, do início da Aceru, da minha família e de todas as pessoas que acompanharam e acreditaram em mim.”

A lembrança transformou a comemoração em algo ainda mais especial. “Aí muda tudo, o coração fica quentinho, aconchegante. É muito bom esse sentimento.”

Raiane sabe que não chegou sozinha até aquele momento. Por isso, faz questão de agradecer quem acreditou nela. “Eu tenho muito a agradecer a todas as pessoas que acreditam em mim, que acreditam no meu potencial.”

Mas, acima de todos os agradecimentos, ela coloca a fé. “Mas eu agradeço mais a Deus, porque sem Ele eu acho que nunca conseguiria nada.”

O sonho ainda está começando

As duas taças não representam o ponto final da história. Para Raiane, elas são mais uma etapa de uma caminhada que começou em Umuarama.

Atualmente, ela está no Marcílio Dias e se prepara para disputar o Campeonato Catarinense de Futebol Feminino. O objetivo é claro. “Meu próximo objetivo, de verdade, é ser campeã nesse campeonato, muito campeã.”

O futebol 7 também continuará fazendo parte dos planos. A atleta pretende disputar outro campeonato em novembro.

Ao mesmo tempo, Raiane segue procurando oportunidades no futebol de campo. Ela reconhece o peso do atual clube, mas sabe que ainda quer crescer. “É um time de peso, mas a gente sempre quer mais e eu tô lutando pra isso.”

O maior sonho, porém, vai além de uma competição específica. Raiane quer viver integralmente do futebol. “Meu maior sonho como atleta é viver 100% do futebol.”

Ela quer se tornar uma grande jogadora profissional e ganhar a vida fazendo aquilo que ama. Também quer retribuir à família todo o apoio recebido. “Dar orgulho pra minha família e mostrar que tudo que eu passei desde o início da ACERU valeu a pena.”

No fundo, existe ainda outro desejo. Raiane quer encontrar um clube que enxergue nela mais do que uma atleta dentro de campo. “Eu acho que o sonho de todo atleta é estar num time que te valoriza, não só financeiramente, mas também emocionalmente, como atleta e como jogadora.”

A história que começou entre os primos, ganhou força no Aceru e atravessou a distância de Umuarama agora tem duas novas páginas. São duas taças conquistadas logo na primeira experiência no futebol 7. Para Raiane, porém, elas representam algo maior: a prova de que aquele sonho de menina continua vivo.

De Umuarama para os campos de Santa Catarina, Raiane segue construindo uma história feita de coragem, renúncias e sonhos. As duas taças conquistadas na estreia pelo futebol 7 mostram o tamanho do caminho percorrido. Mas, para ela, essa história ainda está apenas começando, com a lembrança do Aceru e da família como parte de cada novo passo.

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