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Rudson de Souza Publisher do OBemdito

“Infelizmente, não tivemos progresso”: irmã de Alencar revive dor um ano após crime em Icaraíma

Registro de um encontro familiar no pesqueiro dos Buscariollo, local que, anos depois, se tornaria peça central da investigação sobre a chacina de Icaraíma (Foto cedida ao OBemdito)
“Infelizmente, não tivemos progresso”: irmã de Alencar revive dor um ano após crime em Icaraíma
Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 19h44 - Modificado em 5 de agosto de 2026 às 19h44

Nos primeiros dias de agosto de 2025, enquanto Icaraíma tentava entender o desaparecimento de quatro homens, a família Gonçalves de Souza vivia entre a esperança e a incerteza. As informações chegavam de forma fragmentada, sem respostas capazes de aliviar a angústia de quem aguardava notícias.

A cada telefonema, a cada carro que entrava no sítio, renascia a expectativa de que Alencar voltaria para casa. Durante dias, a família se agarrou à possibilidade de um desfecho diferente.

Ele nunca voltou

Quase um ano depois, o tempo seguiu seu curso para a cidade, mas, dentro da casa da família, a ausência ganhou novos significados. O choque dos primeiros dias deu lugar a uma saudade que aparece nos detalhes mais simples da rotina, em conversas interrompidas e em momentos cotidianos que inevitavelmente trazem a lembrança de quem partiu.

“A tristeza aumenta. A saudade aumenta. As lembranças aumentam”, resume Alesandra Gonçalves de Souza. Para ela, o luto não diminui com o passar dos meses. Apenas muda de lugar.

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Aos 38 anos, ela nunca quis ocupar o centro da história. Mas, desde 5 de agosto, assumiu uma responsabilidade comum a muitas mulheres em situações semelhantes, amparando a família enquanto tentava lidar com a própria dor.

Foi ela quem acolheu o pai, Alencar Favoreto de Souza, ajudou a reorganizar a rotina da casa e encontrou forças para seguir quando tudo parecia suspenso pela espera de respostas. Enquanto a investigação avançava, a vida continuava exigindo trabalho, decisões e coragem.

Ao longo deste último ano, a reportagem de OBemdito acompanhou de perto a trajetória da família. Desde os primeiros dias do desaparecimento, Alesandra optou pela discrição e evitou transformar a dor em exposição pública. Mesmo nos momentos mais difíceis, ela sempre demonstrou confiança no trabalho das autoridades responsáveis pela investigação.

“Essa foto foi Alencar [Gonçalves de Souza Giron] me ajudando a plantar uma árvore na frente da escola que eu trabalhava”, relembra Alesandra Gonçalves de Souza

Essa postura ficou evidente em todas as conversas mantidas ao longo dos últimos meses. Enquanto muitas famílias recorrem a manifestações públicas e cobranças constantes, Alesandra escolheu esperar.

“Eu não quero ficar na porta da delegacia tendo que cobrar o trabalho de ninguém. Eu acredito no trabalho deles, sempre acreditei desde o início”, afirmou em uma das entrevistas concedidas ao OBemdito.

Passados quase 12 meses, porém, a espera deixou marcas. A confiança demonstrada no início permanece, mas a falta de respostas e a permanência dos principais suspeitos em liberdade acabaram abalando parte da esperança da família. “Infelizmente, não tivemos nenhum progresso.”

A frase é curta, mas revela o desgaste provocado pelo tempo. A investigação continua sob sigilo, e a ausência de novidades transformou a expectativa dos primeiros meses em uma espera cada vez mais difícil.

Como se a perda não bastasse, vieram também as acusações e as especulações. Em meio à repercussão nacional do caso, um programa policial exibido em São Paulo chegou a sugerir que Alencar seria o responsável pela morte dos três paulistas, levantando a hipótese de que teria cometido o crime para escapar de uma dívida.

Para a família, ainda mergulhada no luto, foi mais uma dor em meio ao processo de despedida.

Foi nesse contexto que Alesandra decidiu romper o silêncio. Em setembro de 2025, abriu o coração exclusivamente ao OBemdito, veículo que acompanhou o caso desde o início e tratou a história com cautela e responsabilidade.

Imagem de um momento em família registrado quando a matriarca ainda estava viva, antes da tragédia que mudou para sempre a rotina dos Gonçalves de Souza

A decisão não surgiu da necessidade de responder às acusações, mas do desejo de preservar a memória do irmão diante de versões precipitadas. Desde então, ela não voltou a conceder entrevistas a outros veículos.

Ao longo deste último ano, a vida exigiu movimento. Entre a espera por respostas e a necessidade de seguir em frente, Alesandra concluiu a formação em enfermagem, reorganizou a rotina e amadureceu em meio ao processo de luto.

Nos fins de semana, continua voltando ao sítio da família, onde Alencar morava, trabalhava e ajudava o pai nas atividades rurais. A propriedade permanece praticamente a mesma, mas a ausência do irmão continua presente nos detalhes. “A vida toca porque você tem que tocar. Mas esquecer, a gente nunca esquece.”

Para ela, Alencar era mais do que um irmão. Era alguém presente nas decisões importantes, uma referência para a família e um apoio constante no dia a dia. “Ele era meu braço direito. Tem coisas que eu olho hoje e penso que, se ele estivesse aqui, eu estaria tranquila.”

Com o passar dos meses, a rotina da família encontrou um novo equilíbrio. O pai, antes viúvo, ganhou uma companheira. A casa reaprendeu a existir e as obrigações do cotidiano voltaram a ocupar espaço. Ainda assim, existem dores que não acompanham o ritmo do calendário.

“É uma ferida que continua ali. Às vezes ela dói mais, às vezes menos. A gente vai vivendo e entregando tudo nas mãos de Deus.”

Neste dia 5 de agosto, faz um ano que Alencar saiu de casa pela última vez. A investigação continua sob sigilo, e os principais suspeitos seguem foragidos. Para a família Gonçalves de Souza, porém, a espera por Justiça continua sendo a parte mais difícil.

Alencar Gonçalves de Souza Giron durante um momento de descanso na propriedade da família, ao lado do cão que o acompanhava na rotina do campo

O caso

O desaparecimento de Alencar Gonçalves de Souza Giron, Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Mariscalchi e Robishley Hirnani de Oliveira completa um ano no próximo dia 5 de agosto. O caso, que mobilizou forças policiais de diferentes regiões do país, ainda aguarda respostas definitivas.

Segundo a investigação, Alencar foi o responsável por contratar os três homens vindos de São Paulo para cobrar uma dívida relacionada à negociação de um sítio em Icaraíma. A decisão, de acordo com familiares, foi tomada sem o conhecimento da família.

A propriedade rural, de aproximadamente cinco alqueires e avaliada em cerca de R$ 750 mil, havia sido negociada meses antes. Alencar pagou parte do valor à vista, enquanto o restante dependeria da aprovação de um financiamento bancário, que acabou não sendo liberado.

Com o atraso nos pagamentos e as divergências sobre a devolução do dinheiro, Diego, Rafael e Robishley viajaram até o interior do Paraná para participar da cobrança. Na manhã de 5 de agosto de 2025, os quatro homens foram vistos juntos pela última vez em uma panificadora de Icaraíma.

De acordo com a Polícia Civil, o grupo seguiu para uma propriedade rural, onde teria sido vítima de uma emboscada. Laudos periciais indicam que as mortes ocorreram por volta das 12h30, com disparos de diferentes calibres.

A caminhonete Fiat Toro utilizada pelas vítimas foi encontrada mais de um mês depois, escondida em um bunker subterrâneo em meio à mata. Dias depois, os corpos foram localizados a cerca de 500 metros do veículo.

As investigações também revelaram a existência de dezenas de estruturas clandestinas utilizadas para esconder armas, drogas e veículos na região.

Os principais suspeitos, Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, continuam foragidos. O inquérito segue sob sigilo e familiares das vítimas ainda aguardam respostas sobre um dos crimes de maior repercussão da história recente do Noroeste do Paraná.

(Com imagens cedidas gentilmente ao OBemdito pela família Gonçalves de Souza)

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