Jaqueline Mocellin Publisher do OBemdito

MST transfere acampamento para fazenda em Perobal e Incra tenta conciliar crise agrária

MST transfere acampamento para fazenda em Perobal e Incra tenta conciliar crise agrária
Jaqueline Mocellin - OBemdito
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 09h50 - Modificado em 17 de janeiro de 2026 às 09h50

Uma crise agrária se instaurou em uma fazenda no município de Perobal, que atualmente é ocupada por integrantes do MST e por famílias de posseiros. Na sexta-feira (16) uma agente do setor de conciliação agrária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) esteve na Fazenda Tiburi. O objetivo foi intermediar o conflito que se instaurou no local.

Na tarde de sexta OBemdito esteve na Fazenda Tiburi para conversar com os envolvidos, ou seja, com Incra, MST e moradores. Localizada na Estrada Pinhalzinho, em Perobal/PR, região de Umuarama, a Fazenda Tiburi também recebe o nome de Fazenda Agro Felicetti.

Integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) começaram a se deslocar para a área no início de janeiro deste ano. No entanto, nesta sexta o acampamento ganhou volume e recebeu dezenas de integrantes.

O líder regional do movimento, Ireno Prochnow, estima que cerca de 300 integrantes estejam no local. Eles saíram do acampamento Benedito Gomes, instalado em Umuarama no mês de junho de 2025. Conforme levantamento do Incra, o acampamento de Umuarama tinha 541 famílias cadastradas no mês de outubro.

De acordo com Ireno, a Fazenda Tiburi é uma área que há muitos anos pertence ao Incra e se destina ao programa de reforma agrária. Por isso, o MST aguarda a criação de um assentamento no local.

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Acampamento do MST que estava em Umuarama está sendo transferido para a Fazenda Tiburi, em Perobal – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

A ligação entre Perobal, Umuarama e Xambrê

Contudo, após a desocupação de outra propriedade em Xambrê, o grupo do MST que estava em Umuarama decidiu por se deslocar para Perobal. O objetivo é evitar uma possível ocupação da área por integrantes de outros movimentos sociais – a Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) e o Movimento de Terra e Alimento.

Estes dois grupos invadiram uma fazenda em Xambrê dia 27 de dezembro de 2025 e no dia 2 de janeiro de 2026 iniciaram a desocupação do imóvel rural após a Justiça determinar a reintegração de posse.

Inicialmente, o grupo do MST ocupa uma área marginal da propriedade em Perobal. E, por enquanto, eles devem permanecer neste espaço em virtude de um compromisso assumido com o Incra.

“Nós fizemos um acordo com o Incra para mudar o acampamento aqui e estamos tentando nos ajeitar. Nesse acordo, a gente fica em cima de um pedaço de terra de 4, 5 ou 6 alqueires. Aqui vamos fazer o nosso acampamento, respeitando essa questão também do arrendatário [posseiros], para que ele tire as suas lavouras num prazo de 30 dias”, disse Ireno a OBemdito.

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Equipes do 25º Batalhão de Polícia Militar (PM) de Umuarama acompanham a situação desde o início – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

A notificação do Incra

Na última quinta-feira (15) o superintendente substituto Ciro Fernandes Correia Junior e perito federal agrário Gabriel, ambos do Incra, estiveram na Fazenda Tiburi para notificar os posseiros para desocuparem o imóvel.

A entrega da notificação administrativa concede prazo de 30 dias para que as duas famílias (que estão há vários anos no local) se organizem e saiam. Uma equipe da Polícia Federal acompanhou os representantes do Incra durante a entrega do documento.

Já na sexta-feira, o Instituto novamente enviou um integrante para intermediar um possível conflito após o MST ampliar consideravelmente o número de famílias na fazenda, o que elevou o clima de tensão no local.

Equipes do 25º Batalhão de Polícia Militar (PM) de Umuarama acompanham a situação desde o início. Na sexta-feira, equipes Rotam e RPA estiveram na propriedade para acompanhar a servidora do Incra.

Josiane Aparecida Grossklaus, Conciliadora Agrária, explicou que a notificação administrativa que o Instituto entregou aos posseiros é oriunda de uma ordem judicial. Em conversa com OBemdito, ela disse que sua presença na Fazenda Tiburi tem como objetivo ouvir as partes envolvidas e tentar encontrar uma saída através do diálogo. A intenção é, principalmente, evitar que a situação evolua para um cenário de violência.

“Cheguei aqui e eu pedi para conversar com as lideranças do acampamento. Perguntei quais eram as reivindicações e sobre a possibilidade de a gente fazer um acordo. Além disso, expliquei toda a questão legal que envolve o caso”, comentou.

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Área onde o MST se instalou na Fazenda Tiburi, em Perobal – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

As reivindicações e o acordo

A primeira reivindicação que o MST apresentou à servidora do Incra é que, de forma imediata, a Fazenda Tiburi seja destinada para reforma agrária, ou seja, para o Plano Nacional de Reforma Agrária.

Conforme Josiane, tal pedido está de acordo com o que determinam as normas legais e com a decisão judicial. Além disso, está de acordo com o posicionamento do Incra, que prevê destinar a área da fazenda em Perobal para um projeto de assentamento.

Entretanto, a conciliadora informou aos integrantes do MST que os ocupantes antigos (posseiros) possuem um prazo legal para sair do imóvel. Até que este prazo termine, o Instituto não pode criar um projeto de assentamento e nem colocar outras pessoas na propriedade.

“Eles demonstraram muita disposição para o diálogo e propuseram, então, que fiquem numa área onde a produção do ocupante mais antigo já foi retirada. Eles solicitaram em torno de 3, 4, no máximo, 5 alqueires e água pra poder ficar dentro da área”, disse Josiane.

Segundo a servidora, o Incra solicitou que o MST não perturbe a permanência do antigo morador enquanto ele não sair. Bem como, ter cuidado com a produção que os posseiros têm. “Então, eles se comprometeram a não entrar nas áreas que tem produção, não danificar nada da produção e a ter uma convivência pacífica”, afirmou.

A representante do Incra também conversou com os posseiros. Uma das famílias assumiu o compromisso de convivência pacífica, de não agressão e de livre circulação para o grupo do MST. A outra preferiu não se manifestar e aguardar o advogado.

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A conciliadora do Incra conversou com as famílias que residem na fazenda e fazem o cultivo de mandioca – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

Uma vida na propriedade rural

Leonardo dos Santos Felicetti, 47 anos, é um dos posseiros que está na fazenda. Ele conversou com OBemdito e disse que está na propriedade desde 2006, quando começou a abrir as áreas de cultivo e, em 2007, passou a morar no local. O produtor rural cultiva mandioca e lembra que em 2009 já aconteceu uma ocupação do MST. Porém, pouco tempo depois aconteceu a reintegração.

Conforme Leonardo, um homem que se intitulava como proprietário do imóvel nunca cobrou arrendamento. Este senhor disse que estava tentando fazer a regularização do imóvel, pois tinha a posse, mas o domínio era da União. Entretanto, em 2015 esse antigo proprietário perdeu a posse.

“Como eu já estava na posse desde 2006, trabalhando na área com atividade agrícola, ingressei no Incra com um pedido de regularização fundiária. Em 2019, eu já estava com toda a documentação pronta. E no ano de 2021, o Incra emitiu um documento me reconhecendo na posse desde 2006, que foram os documentos usei para comprovação”, disse Leonardo.

No entanto, mais uma reviravolta ocorreu depois disso. “Estava próximo de sair a documentação quando o Ministério Público entrou com essa ação de rever a documentação e tudo mais. E agora a gente está ‘brigando’ na última instância, em Brasília”, falou, se referindo à Supremo Tribunal de Justiça.

O posseiro reforça que a fazenda sempre foi produtiva. “Em 2015, 2016, fui campeão de produtividade aqui em cima da área. Sempre trabalhei com a minha família, esposa e filho. O meu filho nasceu aqui, está com 18 anos. Eu fiz barracão, fiz casa, poço artesiano, fiz curvas de nível, correção de solo. Estamos aí, nessa luta”, lamenta Leonardo ao saber que pode perder todo o investimento feito e também o local onde mora com a família.

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Apesar de haver receio de um conflito, até este sábado (17) a situação era calma na fazenda – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

Aguardando uma decisão da Justiça

Agora, o produtor rural aguarda a decisão da Justiça. “Eu aguardo essa decisão, porque não está nada decidido ainda, nem em meu favor, nem contra”, finalizou. E ele está esperançoso de que essa decisão o mantenha na propriedade, onde ele e a família criaram raízes ao longo de 19 anos.  

A Fazenda Tiburi possui 215 hectares reconhecidos judicialmente como de domínio do Incra. O Instituto enviou uma nota a OBemdito, onde afirma que está acompanhando a situação e que “oportunamente” serão adotadas medidas para desocupação do imóvel. Dessa forma, o Incra poderá dar continuidade do processo de implantação do assentamento destinado a agricultores familiares com perfil socioeconômico compatível com o Programa Nacional de Reforma Agrária.

Conforme Josiane, “a sentença que determinou que o Incra notificasse a desocupação é a confirmação de uma decisão liminar. Além disso, foi confirmada por julgamento em segunda instância, pelo TRF4. Por mais que exista um recurso, é possível fazer o cumprimento da sentença, pois a apelação não tem efeito suspensivo”, informou.

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Na sexta-feira o volume de famílias no acampamento do MST na fazenda de Perobal aumentou Mst Transfere Acampamento Para Fazenda Em Perobal (4)Apesar de haver receio de um conflito, até este sábado (17) a situação era calma na fazenda – Foto: Danilo Martins/OBemdito – Proibida a reprodução sem autorização

MST espera uma decisão já nos próximos dias

Instalado na área há alguns dias, o MST tema a expectativa de que, após a desocupação da fazenda por parte dos posseiros, o Incra faça o assentamento destinado às famílias do movimento que estão no local. “Nós queremos essa área pra gente produzir comida, pra gente se alojar melhor. A presença do Incra aqui para notificar o arrendatário cria também uma expectativa de que a gente vai poder alojar nossas famílias”, afirmou o líder regional, Ireno Prochnow.

Ele ressaltou que o objetivo é seguir com as negociações para que se chegue a uma solução pacífica. “Hoje foi um dia de começar uma negociação e nossa expectativa é que amanhã ela continue e sempre vamos buscando uma saída honrosa, tanto para o arrendatário, como para nós”.

Ireno acrescentou: “ele vai ficar no lugar dele e nós vamos honrar com os compromissos que assumimos. E agora a gente tem um pedaço de terra para fazer um barraco e que a gente possa viver aqui em paz. A gente não precisa fazer guerra, mas cada um tem o direito de buscar aquilo que tem direito”, argumentou.

Por fim, Ireno disse não saber se todas as famílias que estão no acampamento Benedito Gomes, em Umuarama, irão para Perobal. O líder regional explicou que ninguém será obrigado a mudar de local. Porém, “agora o MST vai conduzir o acampamento Benedito Gomes aqui em Perobal. E, se Deus quiser, em cima dessa fazenda aqui”, finalizou.

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