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Uma obra gigantesca, no meio da selva. Como foi a abertura da primeira estrada em Umuarama

No século passado, a compra e vendas de vastas áreas de terras foi um senhor negócio. Nem antes nem depois se presenciou nada igual no Paraná, principalmente aqui no Norte Novíssimo, atual Noroeste, em que se descortinava uma nova e imensa fronteira agrícola.

Só a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, grupo que fundou Umuarama e uma penca de outras cidades, teve em seu poder mais de meio milhão de alqueires, de uma só vez, para fatiar e vender em forma de lotes urbanos e rurais.

É algo de dimensões continentais em qualquer lugar do mundo, especialmente se fizermos uma comparação com o continente europeu, onde os países têm territórios bem menores que nas Américas, África ou Ásia.

Porém, os colonizadores, comerciantes de larga experiência no metiê, herdada das colonizadoras antecessoras que abriram Londrina e Maringá, sabiam que a única fórmula mágica para o sucesso desse grandioso empreendimento imobiliário (que eles mesmos batizaram de “maior movimento colonizatório da América Latina”) era construir estradas.

Vejam a primeira estrada Umuarama-Maringá-Londrina emoldurada pelos belos cafezais. Nesse trecho, por exemplo, o problema não era o barro das chuvas, mas toda a extensão era de areia… Encalhar, rodopiar e até capotar eram acidentes comuns tanto no verão como no inverno. E, imaginem naquele tempo, como socorrer esses motoristas desesperados?

Elas eram a forma de atrair compradores, principalmente os grandes investidores de São Paulo, ávidos em repetir aqui a saga dos “Barões do Café” paulistas e abrir majestosas fazendas. Sem estradas, seria absurdamente impossível o gigantesco empreendimento da CMNP dar certo, por questões de necessidades que a própria agricultura exigia.

Primeiro, para a chegada dos colonos que iriam abrir as matas e trabalhar nas lavouras; segundo, para a interligação entre as cidades que iam surgindo no Norte Novíssimo, bem como dar a elas opções de acesso aos centros paranaenses maiores, como Maringá e Londrina; e terceiro, o mais importante, o escoamento das futuras safras de café, que deveriam ser transportadas para os portos de Santos (SP) e Paranaguá, afinal os magnatas do café sempre sonharam com a exportação.

Mesmo sonho compartilhado pelo governo federal da época, que contabilizava ricas divisas com as vendas do café para a Europa e os Estados Unidos. A outra fonte de riqueza, à primeira vista, era o escoamento da madeira, das diversas espécies e em escala astronômica, que irrigou com altas fortunas a indústria madeireira predominante na economia paranaense.

Quando se tratava de um rio maior, como o Ivaí por exemplo, a travessia só era possível com balsas. Dependendo da força da correnteza das águas, era um percurso tranquilo ou de medo…

Em resumo da ópera: sem abrir estradas, era impossível colonizar. Não que os colonizadores estivessem dispostos a fazer essa obra gigantesca de abrir caminhos por pura generosidade. Era inevitável a construção dessas vias, seja estradas mestres como estradas vicinais, aquelas menores interligando fazendas, sítios e chácaras.

Era a alma desse negócio imobiliário bilionário! Primeiramente, como já contei, foram privilegiadas as obras da estrada mestre, aquela ligando Maringá a Umuarama e passando por diversas outras cidades que iam brotando, mesmo aquelas fundadas por outras colonizadoras (como é o caso de Cruzeiro do Oeste).

Depois que ela ficou pronta, a custo de muito sacrifício da equipe de operários e técnicos da CMNP, a colonização deslanchou, antes dificultada pela penúria de uma viagem pela antiga trilha-picadão, que impedia a chegada das legiões de famílias de lavradores.

O surgimento das ‘jardineiras’

Com essa estrada, mais larga e que oferecia condições para a passagem de ônibus (as velhas “jardineiras”); caminhões e jipes, ficou mais fácil o acesso dos “picaretas” (vendedores de terras), dos colonos (que vieram para a zona rural e outros que iniciaram o comércio em Umuarama; e os primeiros profissionais liberais, todos imbuídos em construir os alicerces de uma nova cidade).

Por esse caminho também começaram a chegar as máquinas pesadas usadas na instalação das primeiras serrarias; e aquelas que a própria Companhia Melhoramentos usaria para a abertura da futura cidade e as estradas de chão batido que serviriam de artérias em várias direções da área em processo de colonização.

Da mesma forma vieram por esse percurso os primeiros motores movidos a óleo diesel que gerariam energia elétrica usada pelo Hospital Umuarama, a casa de saúde pioneira, e as cafeeiras, indústrias de beneficiamento das primeiras colheitas do “ouro verde”.

Passaram por ali ainda aquelas máquinas, torres esquisitas e de grande porte, usadas nas perfurações dos poços artesianos que proporcionariam água para os moradores de Umuarama ainda vilarejo. Enfim, a abertura daquela estrada ligando Maringá e a nossa vila que surgia passou a ser a alavanca dando o impulso inicial para que fosse possível este rincão sair do estado absoluto de primitivismo.

Vale enaltecer que a execução dessa primeira malha viária ficou completamente a cargo da colonizadora CMNP, sem receber um único auxílio dos governos federal ou estadual da época. Esse detalhe é importante que seja registrado em alto relevo, assim como é obrigatório frisar que a conservação dessas estradas continuou a cargo dela. Na época, distrito de Cruzeiro do Oeste, Umuarama simplesmente ficou absolutamente desamparada e nunca mereceu atenção.

PR-323 foi projetada na década de 1960 por Paulo Pimentel

O mesmo continuou acontecendo por parte do Governo do Paraná depois da criação do município, em 1960. Só passou a merecer a atenção que merecia no final dos anos 1960, no governo Paulo Pimentel, quando ele inaugurou a primeira rodovia asfaltada ligando Maringá a esta região, a PR-323, mesmo assim ela só chegava até Cruzeiro do Oeste.

Mas era melhor do que continuar sem nada como aconteceu durante mais de dez anos… Nos anos 1950 e 60, o Brasil respirou a Era do Rodoviarismo, tempo em que se privilegiou a construção de estradas de rodagem, desprezando o transporte ferroviário.

Optou-se pela forma mais cara de transporte, para privilegiar a indústria automobilística que florescia no ciclo áureo do presidente Juscelino Kubistchek. Infelizmente, Umuarama não foi beneficiada por esse tão decantado progresso do rodoviarismo (rodovias pavimentadas), amargando por anos a fio as penúrias que os caminhoneiros e viajantes sofreram nas acidentadas estradas de terra, um terror seja com chuva, seja com sol…

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A primeira estradinha de terra aberta no meio da floresta mais parecia uma trilha… Estreita, dificuldade e até perigo no encontro de dois veículos, esburacada e lamacenta na temporada de chuvas, enfim, era um verdadeiro túnel no meio das árvores gigantescas. Na imagem, um pequeno onibus antigo, que eram chamados de ‘jardineiras’… Ele teve um problema técnico, todo mundo teve de descer e esperar o motorista-mecânico consertar a bronca…
A estrada aberta pela colonizadora Cia Melhoramentos Norte do Paraná era larga, preparada por motoniveladoras. Mas, mesmo assim, era torturante nos tempos chuvosos de inverno, dominada pela erosão. Manter a sua conservação era tarefa pesadíssima e cara. E tinha que estar transitável, principalmente quando começaram as primeiras colheitas de café. A pressão dos fazendeiros que haviam investido fortunas nas propriedades era fortíssima, pois era urgente levar a produção para o porto de Santos de onde seguiria exportada para o exterior…

ITALO FÁBIO CASCIOLA é um dos mais experientes jornalistas paranaenses, publisher do portal Coluna Italo e escreve semanalmente para OBemdito.

Ítalo Fábio Casciola

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