Luiz Fernando Publisher do OBemdito Crise em banco do Paraguai bloqueia contas de clientes e ameaça presidente do país
A intervenção no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, desencadeou uma crise financeira e política no país. Com aproximadamente 3 milhões de clientes, a instituição teve suas atividades suspensas após o Banco Central identificar graves problemas de solvência. O bloqueio das contas provocou filas em agências, protestos e dificuldades de acesso ao dinheiro, enquanto o presidente Santiago Peña passou a enfrentar um pedido de impeachment.
A situação se agravou nesta quarta-feira (4), quando clientes de diferentes instituições financeiras procuraram agências para retirar suas economias. Aplicativos bancários também apresentaram instabilidades, ampliando a preocupação de que os problemas pudessem atingir outras instituições.
O Ueno Bank possui cerca de 2,9 milhões de clientes, número equivalente a quase metade dos aproximadamente 6,1 milhões de habitantes do Paraguai. Além dos depósitos particulares, a instituição mantém cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores relacionados à previdência social.
A crise também provocou a renúncia do presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, a detenção de oito dirigentes ligados ao banco e a apresentação de um pedido de impeachment contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana.
Intervenção
O Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou o processo de resolução do Ueno Bank após identificar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação financeira.
Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, o indicador chegou a 5,56%, enquanto o mínimo regulatório era de 12%.
O índice de solvência mede a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas e manter capital suficiente diante dos riscos de suas operações. Quando esse indicador fica abaixo dos limites legais, aumenta a preocupação com a capacidade do banco de cumprir suas obrigações.
A decisão de iniciar o procedimento foi tomada pelo Banco Central na segunda-feira (2) e anunciada publicamente na terça-feira (3).
A autoridade monetária informou que a medida ocorreu após ajustes nos demonstrativos financeiros do banco durante um processo de regularização.
A intervenção abriu caminho para a dissolução da instituição e para a adoção de mecanismos destinados a proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro.
Suspeitas de irregularidades e oito dirigentes detidos
Além dos problemas de solvência, o Ueno Bank passou a ser investigado por suspeitas de irregularidades financeiras.
Entre os pontos examinados pelas autoridades estão operações de crédito envolvendo empresas ligadas aos controladores da instituição, possíveis falhas na avaliação de riscos e inconsistências nos demonstrativos financeiros.
O Ministério Público paraguaio abriu uma investigação criminal para apurar possíveis delitos financeiros e outras irregularidades relacionadas à administração do banco.
Oito dirigentes ligados à instituição foram detidos, incluindo Miguel Vázquez, um dos principais acionistas e fundadores do Ueno Bank.
A investigação também alcança outras pessoas relacionadas às operações financeiras da instituição. Segundo a CNN Brasil, 27 pessoas foram formalmente apontadas pelo Ministério Público como suspeitas de envolvimento nas irregularidades.
As suspeitas ainda dependem de apuração judicial, e a abertura dos procedimentos não representa condenação dos investigados.
Banco administrava milhões em recursos públicos
Um dos aspectos mais sensíveis da crise envolve a presença de dinheiro público no Ueno Bank.
A instituição mantinha aproximadamente US$ 850 milhões em recursos de órgãos e entidades estatais paraguaias.
Parte desse montante estava relacionada ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por benefícios previdenciários e serviços de saúde. Estimativas divulgadas pela imprensa internacional apontam que aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao instituto estavam aplicados na instituição.
O banco também mantinha recursos de outras entidades públicas, incluindo a Administração Nacional de Eletricidade (Ande) e instituições relacionadas à usina binacional de Itaipu.
A situação levantou questionamentos sobre os critérios utilizados para direcionar recursos públicos ao banco, os mecanismos de fiscalização e os riscos assumidos pelas entidades responsáveis pelos investimentos.
A presença desses valores também ampliou as preocupações com eventuais prejuízos aos cofres públicos e aos fundos destinados ao pagamento de benefícios previdenciários.
Autoridades paraguaias passaram a defender medidas para recuperar os recursos e identificar eventuais responsabilidades pela crise.
Santiago Peña
A crise ganhou dimensão política devido às relações empresariais anteriores do presidente Santiago Peña com o grupo controlador do Ueno Bank.
Antes de assumir a Presidência do Paraguai, em 2023, Peña possuía investimentos no Grupo Vázquez, conglomerado empresarial ligado à instituição financeira.
O presidente manteve participação no grupo até 2025, quando se desfez dos investimentos.
A relação passou a ser questionada principalmente devido ao crescimento acelerado do banco e à aplicação de recursos públicos na instituição durante o governo Peña.
Em outubro de 2024, por exemplo, o Instituto de Previdência Social adquiriu títulos do Ueno Bank no valor de 250 bilhões de guaranis, equivalentes, na época, a aproximadamente US$ 32 milhões.
Na ocasião, Peña rejeitou as acusações de conflito de interesses e classificou as publicações sobre o assunto como uma campanha de informações falsas.
A direção do banco também afirmou, naquele período, que o presidente não possuía vínculo direto com a instituição bancária, embora tivesse participação na holding relacionada ao empreendimento.
Outro ponto de questionamento envolve Carlos Carvallo, que assumiu a presidência do Banco Central em 2023, após ter dirigido a Financiera Ueno, empresa que deu origem ao banco.
A trajetória profissional de Carvallo passou a ser examinada em meio às suspeitas sobre a fiscalização exercida pelo Banco Central.
Até o momento, a existência desses vínculos empresariais e profissionais não comprova, por si só, participação de Peña ou Carvallo nas irregularidades investigadas.
Crise provoca renúncia no Banco Central
Com o agravamento da situação, Santiago Peña solicitou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo.
O dirigente formalizou sua saída na terça-feira (3), em meio à repercussão da intervenção e aos questionamentos sobre a atuação do órgão regulador.
Na quarta-feira (4), Peña anunciou a indicação do economista e ex-ministro Raúl Vera Bogado para comandar a autoridade monetária.
Também foram anunciadas indicações para outros cargos da diretoria do Banco Central, após novas mudanças na administração da instituição.
Vera Bogado já havia presidido o Banco Central entre 2001 e 2002 e possui experiência no setor financeiro.
O governo afirmou que as mudanças buscam garantir a continuidade das operações de fiscalização e recuperar a confiança da população no sistema bancário.
Oposição apresenta pedido de impeachment
A repercussão do caso chegou ao Congresso Nacional paraguaio.
Na quarta-feira (4), um grupo de 35 deputados apresentou formalmente uma acusação contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, solicitando a abertura de um processo de impeachment.
Os parlamentares apontam suspeitas de conflito de interesses, utilização indevida de recursos previdenciários, favorecimento financeiro e possíveis falhas deliberadas na fiscalização do banco.
O documento também questiona operações de crédito relacionadas ao Ueno Bank e a atuação de autoridades responsáveis pela supervisão do sistema financeiro.
Entre os argumentos apresentados está o risco de que a condução do caso tenha comprometido a confiança da população nas instituições financeiras paraguaias.
Os deputados solicitaram uma sessão extraordinária para esta quinta-feira (5), com o objetivo de discutir a acusação.
O pedido, entretanto, não significa o afastamento automático do presidente. Para avançar, o processo depende do cumprimento das exigências constitucionais e da obtenção de apoio parlamentar suficiente.
A oposição ainda não dispõe, isoladamente, dos votos necessários para aprovar o impeachment, embora o movimento tenha recebido apoio de integrantes dissidentes do Partido Colorado, legenda de Peña.
O presidente afirmou que sua prioridade é proteger os recursos dos depositantes e que eventuais responsáveis pelas irregularidades deverão responder à Justiça.
Clientes
A suspensão das atividades do Ueno Bank deixou milhões de clientes temporariamente sem acesso aos valores depositados na instituição.
Para enfrentar a situação, o governo paraguaio aprovou uma legislação destinada a acelerar os pagamentos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos.
A proteção alcança até 228,3 milhões de guaranis por depositante, valor equivalente a aproximadamente US$ 38 mil.
Segundo informações divulgadas pelas autoridades e pela imprensa internacional, a cobertura é suficiente para proteger integralmente cerca de 97% dos depositantes da instituição.
A nova legislação prevê mecanismos para antecipar a liberação dos recursos garantidos, com prazo de até cinco dias úteis.
Apesar disso, a efetiva disponibilização dos valores depende da execução dos procedimentos administrativos e financeiros.
Para clientes com depósitos superiores ao limite de garantia, a recuperação integral do dinheiro dependerá dos ativos disponíveis e do andamento do processo de resolução do banco.
O governo também anunciou medidas voltadas à proteção dos recursos públicos mantidos na instituição.
Corrida aos bancos e protestos
O bloqueio das contas provocou uma reação imediata entre os clientes.
Agências do Ueno Bank permaneceram fechadas e sob vigilância policial, enquanto correntistas tentavam obter informações sobre a devolução de seus depósitos.
A preocupação também atingiu clientes de outras instituições, que procuraram retirar dinheiro diante do receio de que a crise se espalhasse.
Na quarta-feira, bancos paraguaios divulgaram comunicados sobre instabilidades em aplicativos e serviços digitais.
Em Assunção, capital do país, manifestantes realizaram protestos cobrando explicações e a liberação dos recursos.
A mobilização também expressou insatisfação com a atuação das autoridades financeiras e com a presença de dinheiro público na instituição.
Apesar da movimentação, o Banco Central afirmou que os demais bancos continuam apresentando condições adequadas de solvência e liquidez.
A Associação de Bancos do Paraguai também declarou que o sistema financeiro permanece operacional e que não há evidências de comprometimento generalizado das instituições.
Riscos
Embora a situação tenha provocado instabilidade e preocupação entre os correntistas, as autoridades paraguaias afirmam que o problema está concentrado no Ueno Bank.
O Banco Central negou a existência de outras intervenções e declarou que o sistema financeiro mantém níveis adequados de capital e liquidez.
Especialistas e representantes do setor bancário acompanham especialmente o comportamento dos depositantes, já que retiradas simultâneas de grandes volumes de dinheiro podem pressionar a liquidez de instituições financeiras.
Esse fenômeno é conhecido como corrida bancária e ocorre quando muitos clientes tentam sacar seus recursos ao mesmo tempo, geralmente por receio de perdas ou dificuldades de acesso às contas.
A existência de filas e instabilidades nos serviços, entretanto, não significa necessariamente que outros bancos estejam insolventes.
O principal desafio das autoridades será assegurar a devolução dos depósitos garantidos, esclarecer as irregularidades e impedir que a perda de confiança comprometa o funcionamento das demais instituições.
A crise também poderá produzir consequências políticas e econômicas mais amplas, especialmente em razão das investigações sobre recursos públicos e das acusações apresentadas contra integrantes do governo.
(Com informações de CNN Brasil, ABC Color e La Nación)
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