Rudson de Souza Publisher do OBemdito

Jovem cego e autista supera limites e vira campeão na prova dos três tambores

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Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 11h31 - Modificado em 31 de agosto de 2026 às 11h42

A voz é uma das ferramentas que Douglas Aparecido de Assunção usa para competir. Aos 21 anos, ele percorre uma pista de três tambores sem enxergar os obstáculos. Em vez da visão, segue os sons produzidos por pessoas posicionadas ao lado de cada tambor.

Douglas nasceu cego e também recebeu diagnósticos de TDAH e autismo. Encaminhado por um neurologista à Reabilitação Anjos de Deus, encontrou no cavalo uma atividade que ultrapassou os limites da terapia e chegou às competições.

A adaptação permite que ele identifique a posição dos tambores durante a prova. Cada pessoa permanece junto a um deles e faz barulho para orientá-lo. “Cada pessoa fica em um tambor e vai fazendo barulho para que eu possa me localizar através do som.”

A partir dessas referências, Douglas conduz o cavalo Swiip Time Trouble, contorna os obstáculos e completa o percurso. A participação exige que ele transforme os sons em direção e confie também na sintonia com o animal e nos treinadores. “Eu necessito da ajuda deles para fazer a prova em forma áudio.”

Resultados que foram além da reabilitação

A adaptação abriu espaço para Douglas também no esporte de competição. Ele foi campeão em 2025 em São Paulo, conquistou o primeiro lugar na Copa dos Campeões e venceu a Copa SGP, em Apucarana.

Segundo a fisioterapeuta Cynthia Catarina de Oliveira Santos, responsável pelo projeto, Douglas foi pioneiro entre atletas com deficiência visual na prova dos três tambores na categoria em que compete.

“Em cima do cavalo ele transforma essa realidade, essa visão que as pessoas têm sobre ele.” Para a mãe do atleta, Maria Aparecida Silva de Assunção, a participação no projeto trouxe mudanças importantes.

“Foi um degrau maravilhoso na vida dele. Ele se sente muito bem, adora fazer.” Ela também destaca os reflexos da atividade no processo cognitivo do filho.

Atendimento chega a 14 municípios

A Reabilitação Anjos de Deus atende atualmente cerca de 40 praticantes de 14 municípios do Noroeste do Paraná. A iniciativa começou há seis anos, em Presidente Castelo Branco, e atualmente também possui uma filial em Floresta.

Fazem parte do grupo famílias de Marialva, Floresta, Maringá, Paiçandu, Apucarana, Ângulo, Alto Paraná, Presidente Castelo Branco, Nova Esperança, Floraí, Paranavaí, Sarandi, São Carlos do Ivaí e Iguatemi.

Douglas Aparecido de Assunção compete nos três tambores com uma adaptação sonora que permite localizar os obstáculos durante a prova

O trabalho é coordenado por Cynthia, fisioterapeuta que também passou quatro anos como gerente de esportes paralímpicos do município de Maringá. Foi nesse período que ela conheceu mais de perto o paradesporto.

A experiência mudou a forma como passou a observar as pessoas atendidas. “Comecei a ter essa visão de ver o potencial das pessoas com deficiência e neurodivergentes, sem olhar o diagnóstico.”

A proposta da Reabilitação Anjos de Deus combina o trabalho com cavalos e o desenvolvimento das capacidades de cada praticante. Quem demonstra interesse e aptidão pode avançar para a atividade esportiva.

Douglas disputa provas de três tambores com o cavalo Swiip Time Trouble e utiliza referências sonoras para localizar os obstáculos durante o percurso

Cada atleta precisa de uma adaptação

O projeto não trabalha com um único modelo de atividade. As adaptações são definidas conforme as características de cada praticante.

Há pessoas com deficiência visual, autismo e deficiência auditiva, além de usuários de cadeira de rodas e outras condições. Nas competições oficiais, os atletas passam por classificação esportiva, que considera suas características e necessidades.

No caso de Douglas, o percurso precisou ganhar uma referência sonora. A solução permitiu que ele disputasse uma modalidade que, tradicionalmente, depende da percepção visual dos tambores.

Para Cynthia, essa possibilidade ajuda a deslocar o olhar que muitas vezes se concentra apenas no diagnóstico.

“Muitos ficam travados apenas no diagnóstico e não veem que essas pessoas têm um potencial, uma habilidade muito grande. O cavalo acolhe sem julgamento.”

Família também está na origem do projeto

A relação de Cynthia com a inclusão também está presente dentro de casa. Ela é esposa de Amilton Luiz do Santos, equitador com habilidade com cavalos, e mãe de Maria Rosa e Luiz Augusto. Os três integrantes da família estão no espectro autista.

Essa convivência também contribuiu para a maneira como ela passou a compreender diferentes habilidades.

O projeto mantém ainda uma equipe de paratambor, modalidade adaptada dos três tambores, que participa de competições estaduais e nacionais.

Solidariedade ajuda a manter atendimento

Para que mais famílias tenham acesso ao trabalho, o projeto conta com apoio de empresários e pessoas ligadas ao universo dos cavalos e ao meio rural. Os colaboradores contribuem mensalmente por meio de cotas.

Esse apoio ajuda a reduzir o custo para as famílias. Os praticantes pagam uma mensalidade considerada simbólica pela iniciativa.

“Isso faz com que consigamos levar a reabilitação integrada com o cavalo com um valor mais acessível às famílias.”

A experiência de Douglas mostra o resultado de uma proposta que começa na reabilitação, mas pode alcançar outros caminhos. No caso dele, o que começou com um encaminhamento médico chegou às pistas, às viagens e aos troféus.

(Com informações do site GMC Online e imagens de rede social)

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