As últimas palavras em vida de Tayana Cristina: ‘A sedação foi muito forte’
Sob aplausos, lágrimas e um forte clima de inconformidade, familiares e amigos se despediram nesta terça-feira (25) de Tayana Cristina Lopes de Toledo, de 37 anos, em Umuarama. A estudante de Psicologia foi sepultada às 15h20, no Cemitério Municipal.
Enquanto a família tenta assimilar a perda, a Polícia Civil do Paraná (PCPR) investiga as circunstâncias da morte, ocorrida após Tayana passar mal depois de realizar uma ressonância magnética com sedação.
Familiares ouvidos pelo OBemdito suspeitam que o óbito possa estar relacionado a uma possível falha no atendimento prestado durante o exame. A médica anestesista Ana Cláudia Abdo Lopes, responsável pelo procedimento, nega que tenha ocorrido erro médico ou falha assistencial e afirma que todas as condutas adotadas seguiram protocolos técnicos e padrões profissionais.
A despedida foi marcada também pela situação dos filhos de Tayana. Ela deixa os gêmeos Leonardo e Lucas, ambos bastante dependentes da mãe em razão do transtorno do espectro autista. O vínculo com os filhos também estava diretamente relacionado à escolha profissional da estudante. Tayana queria se formar em Psicologia para ajudar outras mães de crianças com o espectro.
A morte causou grande comoção na Universidade Paranaense (Unipar), onde Tayana cursava o quarto ano. A instituição suspendeu as aulas do curso na segunda-feira (24) e divulgou nota de pesar aos familiares, amigos e integrantes da comunidade acadêmica.

Família de Tayna relata sequência de problemas após ressonância
A família tenta agora compreender o que aconteceu entre a realização do exame e a piora repentina do estado de saúde da estudante.
Uma prima acompanhou Tayana até a Card (Centro Avançado de Radiodiagnóstico), em Umuarama, na manhã de quarta-feira (19). Segundo o relato repassado ao OBemdito, as duas chegaram ao local por volta das 8h e aguardaram aproximadamente duas horas até o início do procedimento.
Tayana demonstrava desconforto e dificuldade para realizar a ressonância. Por esse motivo, teria sido utilizada sedação.
De acordo com os familiares, a primeira dose não teria produzido o efeito esperado, o que levou à administração de uma nova dosagem. Durante o exame, Tayana teria permanecido com tremores.
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Após o procedimento, ela foi encaminhada para uma sala reservada porque continuava passando mal, com vômitos e diarreia. Ainda segundo os familiares, algum tempo depois a mãe foi liberada para voltar para casa.
É justamente esse momento que mais provoca questionamentos entre os parentes. A família suspeita que a estudante já apresentava sinais de uma reação incomum e entende que a condição deveria ter provocado uma avaliação mais prolongada antes da alta.
Os familiares levantam a hipótese de que Tayana estivesse desenvolvendo um choque anafilático. Até o momento, contudo, não há conclusão técnica ou policial que confirme essa possibilidade.
As últimas palavras de Tayana: ‘Não consigo nem ficar sentada’
Segundo os parentes, o estado de Tayana continuou se agravando ao longo daquele dia. Ela teria passado praticamente toda a quarta-feira sem forças para se movimentar e, ainda conforme o relato da família, chegou a apresentar sangue na urina.
À noite, diante da piora, decidiu procurar atendimento no Pronto Atendimento de Umuarama. No caminho, Tayana enviou mensagem de áudio para a sogra. Foram suas últimas palavras em vida. “Acho que a sedação feita em mim foi muito forte. Eu não consigo nem ficar sentada”.
Ao chegar ao Pronto Atendimento, ela precisou ser intubada às pressas. Posteriormente, foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Norospar, onde teria sido adotado o protocolo de atendimento para choque anafilático.
Tayana permaneceu internada, mas não resistiu e morreu nesta segunda-feira (24).
Os filhos chamam pela mãe e demonstram estar sensibilizados diante da ausência dela. Em consenso, os familiares decidiram por não levar as crianças ao velório, uma vez que existia a possibilidade de regressão na terapia a que são submetidos no serviço público da cidade.
Fotos da mãe dos filhos foram espalhadas sobre o corpo da estudante, o que causou uma consternação ainda maior nas horas de despedida.
Familiares falam em negligência
Os parentes suspeitam que possa ter ocorrido negligência durante o atendimento e querem esclarecimentos sobre a sedação, os sintomas apresentados após o exame, a decisão de liberá-la e o acompanhamento realizado naquele momento.
A Polícia Civil deverá analisar documentos, informações médicas e outros elementos capazes de reconstruir a sequência dos fatos.
Apesar das suspeitas levantadas pela família, até agora não há conclusão oficial que estabeleça erro médico, negligência ou responsabilidade criminal de qualquer profissional.
Médica diz que seguiu padrões de excelência
Após ser procurada pela imprensa, a médica anestesista Ana Cláudia Abdo Lopes (CRM-PR nº 18.955) divulgou nesta terça-feira uma nota de esclarecimento sobre o atendimento prestado a Tayana.
No documento, a profissional afirma que “não houve qualquer erro médico ou falha assistencial na condução do referido caso” e sustenta que os procedimentos adotados pela equipe seguiram protocolos técnicos, literatura médica atualizada e padrões de excelência profissional.
A médica também informou que não pode divulgar prontuários, diagnósticos, detalhes clínicos ou outros dados sensíveis em razão da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e das regras de sigilo previstas pelo Código de Ética Médica.
Segundo a nota, os esclarecimentos técnicos sobre o caso já estão sendo encaminhados aos órgãos competentes.
O texto emitido pela médica, porém, não condiz totalmente com a realidade dos fatos. Os familiares de Tayana estiveram na clínica no meio daquela tarde de quarta-feira e receberam a informação de que a profissional não havia deixado prontuário.
Após várias tentativas, os parentes então combinaram de voltar ao estabelecimento mais tarde, para ter acesso aos papéis, cujo conteúdo é bastante vago, conforme profissionais ouvidos pelo OBemdito sob a condição de anonimato.
Família de criança de 6 anos também acusa médica
Questionada pela imprensa, a Polícia Civil também apresentou informações sobre outro caso que teve ampla repercussão em Umuarama e envolveu a morte de uma criança de 6 anos, identificada pelas iniciais L.H.X.P.
No caso da criança, houve suspeita de possível erro médico e a investigação policial já foi concluída. “Quanto ao caso envolvendo L.H.X.P., de 6 anos, informamos que as diligências investigativas foram concluídas no ano passado, com o respectivo procedimento encaminhado ao Poder Judiciário para as providências cabíveis”, informou a PCPR.
Com a remessa do procedimento à Justiça, caberá ao Poder Judiciário analisar o caso e definir as providências cabíveis. A investigação ou eventual processo não representa, por si só, condenação ou reconhecimento definitivo de responsabilidade.
Uma despedida marcada por comoção
Dezenas de pessoas acompanharam a despedida de Tayana no Cemitério Municipal de Umuarama. O momento foi marcado por choro, abraços, aplausos e manifestações de inconformidade diante de uma morte considerada inesperada por familiares e pessoas próximas.
Para quem convivia com Tayana, além da perda da filha, parente, amiga e colega, fica também o impacto sobre os dois filhos e a interrupção de um projeto de vida que passava justamente pela Psicologia e pelo desejo de ajudar outras famílias.
Enquanto familiares, a investigação deverá buscar respostas para as perguntas que permaneceram após a morte.
De um lado, a família questiona o atendimento e a liberação da paciente após o exame. De outro, a médica anestesista afirma que não houve erro e que os procedimentos seguiram os protocolos técnicos.
A única certeza que se tem, até o momento, é que Tayana não está mais aqui, e, por isso, não poderá acolher e abraçar os filhos como costumava fazer, com muito amor.
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