Alex Nascimento Publisher do OBemdito

Frei Clemente chega aos 103 anos com a fé de uma vida inteira e o coração ligado a Umuarama

Frei Clemente chega aos 103 anos com a fé de uma vida inteira e o coração ligado a Umuarama
Alex Nascimento - OBemdito
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 09h04 - Modificado em 16 de agosto de 2026 às 09h19

Aos 103 anos, Frei Clemente Vendramin olha para trás sem demonstrar desejo de mudar o caminho que escolheu ainda na infância. Para ele, a longa trajetória religiosa representa, sobretudo, uma resposta àquilo que entende como chamado de Deus.

Nascido em 1923, em Santa Felicidade, Curitiba, com o nome de Sezefredo Vendramin, por escolha da mãe, o sacerdote ingressou no seminário aos 10 anos. Desde então, atravessou diferentes períodos da Igreja, viveu em várias cidades, estudou em Roma e acompanhou acontecimentos históricos do catolicismo.

Apesar de ter passado por tantos lugares, foi Umuarama que ganhou um espaço especial em sua memória. O vínculo com a cidade começou durante os 15 anos em que foi pároco da Paróquia São Francisco de Assis.

Completando 103 anos neste domingo (16), Frei Clemente recebeu a equipe do OBemdito na casa paroquial na última sexta-feira (14). Em um bate-papo descontraído e alegre, ele contou histórias de uma vida marcada pela religião, pelos estudos e pela convivência com diferentes gerações.

“Eu acredito que alguma razão Deus tinha para me deixar ficar tão velho aqui. Eu gosto muito de ficar velho desse jeito”, afirmou ao falar sobre a idade.

O menino que escolheu os capuchinhos

A história religiosa de Frei Clemente começou antes mesmo de ele entender completamente o significado de uma vocação. A família vivia na região de Curitiba e mantinha uma ligação cultural com os frades italianos das Mercês.

Os religiosos falavam o dialeto de Veneza, assim como a família do futuro sacerdote. Os avós de Frei Clemente haviam vindo daquela região da Itália, e o idioma fazia parte da rotina dentro de casa. “Em casa, até que eu fui para o seminário, a gente falava no dialeto vêneto, não português”, contou.

Os frades visitavam a família com frequência. O menino se aproximou deles e criou uma relação de carinho ainda na infância. “Os freis pegavam a gente no colo, e passavam aquela barba na gente, e enchiam uma sacola de laranja e iam para casa contentes”, relembrou.

Quando surgiu a vontade de ser padre, a escolha pareceu natural. A proximidade com os capuchinhos pesou na decisão. “Quando chegou a hora de ir para o seminário, onde é que eu iria? Lógico, nas Mercês, né? Com os Freis Capuchinhos. Gosto dessa ordem franciscana”, disse.

Uma ordenação antes do previsto

Frei Clemente ingressou no seminário aos 10 anos. Na adolescência, fez os primeiros votos e, posteriormente, assumiu os votos perpétuos.

A ordenação sacerdotal ocorreu em 1946, quando ele tinha 22 anos. A idade, segundo seu relato, ficou abaixo do limite estabelecido pelo direito canônico naquele período. “Era necessário ter 24 anos e pronto”, contou.

A situação mudou por causa do contexto vivido naquele momento. Segundo Frei Clemente, o arcebispo de Curitiba decidiu antecipar a ordenação após saber que ele já havia concluído os estudos de Teologia. “Já estudei toda a Teologia”, disse o jovem ao arcebispo. A resposta veio em seguida, diante das circunstâncias provocadas pela guerra.

“Ah, tem guerra, então vamos fazer ordenação por nossa conta”, teria respondido o religioso. Assim, Frei Clemente recebeu a ordenação cerca de dois anos antes do previsto.

Quatro anos em Roma

A formação intelectual ocupou parte importante da trajetória do sacerdote. Frei Clemente foi enviado para a Itália e passou quase quatro anos estudando na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

Na universidade, o latim dominava a rotina acadêmica. As aulas eram ministradas no idioma, assim como as respostas dos estudantes e os trabalhos apresentados. “Você tinha que responder em latim, escrever os trabalhos em latim, tudo. Não tinha outra língua”, lembrou.

A experiência não foi completamente estranha para ele. Durante os estudos em Curitiba, Frei Clemente havia lido obras em latim e desenvolvido familiaridade com o idioma. Em Roma, apresentou uma tese sobre o iluminismo. A pesquisa foi aprovada e resultou no título de doutor em Teologia Dogmática.

Umuarama virou uma segunda casa

A passagem por diferentes cidades não diminuiu a importância de Umuarama para Frei Clemente. Pelo contrário, a cidade se tornou uma referência afetiva em sua trajetória.

Ele trabalhou em municípios como Ponta Grossa, Irati, Florianópolis e Santo Antônio da Platina. Mesmo assim, afirma que nenhuma experiência se compara à vivida em Umuarama. “Eu trabalhei em muitas cidades por aí fora, mas nenhuma se compara com Umuarama, povo de um coração bom e tenho uma resposta do povo ao trabalho”, afirmou.

A ligação ganhou força durante os 15 anos em que permaneceu como pároco da Paróquia São Francisco de Assis. Depois, a Ordem o enviou para outras missões, inclusive para a Itália.

A despedida, entretanto, foi difícil. Frei Clemente recorda que deixou Umuarama chorando durante a viagem para Curitiba. “Eu tinha um carro ‘fordinho’ pequeno, eu fui chorando daqui a Curitiba quando me mandaram de volta”, contou.

Mesmo depois de tantos anos, o sentimento permanece. Para ele, a cidade continuou mudando e se tornou ainda melhor. “E hoje, mais ainda, porque o Umuarama se tornou melhor ainda, viu?”, disse.

A ameaça que sempre funcionava

O vínculo com Umuarama era tão forte que até os superiores religiosos conheciam a dificuldade de afastá-lo da cidade. Frei Clemente contou que um provincial utilizava uma estratégia simples quando precisava convencê-lo a realizar alguma tarefa. Bastava mencionar uma possível transferência.

“O provincial, quando quer que eu faça uma coisa que eu não queria fazer, falava: ‘Eu tiro de lá, hein?’. Daí tudo se resolvia”, relatou.

O episódio mostra como a permanência em Umuarama ultrapassou a rotina pastoral. A cidade passou a integrar a própria identidade do sacerdote. Quando perguntado se se sente acolhido pela comunidade, ele respondeu com um sorriso. “Demais, demais, demais, demais”, afirmou.

Os momentos que Roma não apagou

Entre as lembranças mais marcantes da vida religiosa, Frei Clemente destaca os anos vividos em Roma. Durante aquele período, testemunhou acontecimentos que considera únicos.

Um deles foi a definição do dogma da Assunção da Virgem Maria pelo papa Pio XII. O sacerdote estava na Praça São Pedro quando a Igreja proclamou o dogma. “Eu estava lá junto com toda a turma da Praça São Pedro. Um barulhão danado, mas muita alegria”, contou.

A experiência ganhou ainda mais significado pela devoção do sacerdote a Nossa Senhora. “Amo muito Nossa Senhora mesmo”, afirmou.

Outro episódio marcante foi a canonização de Santa Maria Goretti. Frei Clemente recorda que o homem responsável pela morte da jovem acompanhou a cerimônia. Segundo o sacerdote, ele havia se convertido posteriormente. A presença dele durante a canonização ficou gravada na memória de Frei Clemente.

“Ele percebeu o erro que tinha feito. Isso me marcou muito”, afirmou.

Um prédio que nasceu de uma negativa

Outra lembrança envolve os estudantes de Teologia que viviam em Florianópolis. Na época, Frei Clemente ocupava uma posição de liderança entre os Capuchinhos. Ele contou que os estudantes moravam em condições precárias. Por isso, surgiu a proposta de construir um prédio destinado à formação religiosa.

O projeto precisava de 300 mil reais. Frei Clemente procurou o superior-geral da Ordem, que inicialmente sinalizou apoio. No entanto, no dia seguinte, um dos auxiliares informou que o dinheiro não seria enviado para a América. A resposta contrariou o sacerdote. “Não tem sentido mandar 300 mil para a América. Não mesmo. Não dá nada”, teria ouvido.

Frei Clemente decidiu seguir em frente. Ao encontrar novamente o superior-geral, agradeceu ironicamente pelo dinheiro que não havia recebido.

A história, porém, terminou de outra maneira. Durante a viagem de volta, o religioso recebeu a notícia de que os 300 mil reais seriam enviados. “Tá aqui 300 mil. Construa lá e pronto. Me devolve quando eu puder”, relatou.

Anos depois, Frei Clemente voltou para devolver o dinheiro. O valor dos juros havia sido calculado, mas o superior-geral decidiu não cobrar. “Frade, somos irmãos ou não somos? Eu vou cobrar juros de você? Não quero esse dinheiro de juros, não”, teria respondido.

O prédio continua sendo utilizado pelos estudantes de Teologia. Para Frei Clemente, a construção se tornou uma das realizações importantes de sua trajetória.

Três papas e uma viagem de ônibus

A experiência em Roma também aproximou Frei Clemente de três papas. Ele conheceu pessoalmente Pio XII, Paulo VI e João Paulo II.

O encontro com João Paulo II também está ligado a uma viagem que começou em Umuarama. A comunidade organizou uma excursão para acompanhar uma missa em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

O grupo fretou um ônibus pequeno. Quando chegou a Guaíra, porém, a travessia ainda dependia de balsas, pois a ponte não existia. Três ônibus grandes aguardavam para atravessar. A espera poderia comprometer o horário da missa, e Frei Clemente chegou a considerar o retorno.

Foi então que um militar soube que havia um padre supostamente convocado pelo papa dentro do ônibus pequeno. A organização da balsa permitiu que o veículo passasse à frente. Depois, na estrada, os outros ônibus alcançaram o grupo e fizeram uma grande vaia. Frei Clemente conta a situação como uma das histórias curiosas de sua longa vida.

A mudança que mais impressionou

Durante quase oito décadas de sacerdócio, Frei Clemente acompanhou transformações profundas na Igreja Católica. Entre elas, uma das mais marcantes envolveu a liturgia.

A Igreja passou a celebrar as missas em línguas vernáculas. Até então, o latim ocupava posição central nas celebrações que ele conhecia desde os primeiros anos de sacerdócio. Frei Clemente sabia a missa em latim de cor. Por isso, a primeira celebração em português causou estranhamento.

“Quando fui rezar a missa em português a primeira vez, meu Deus do céu, eu senti que nem um protestante”, contou.

Com o tempo, porém, ele passou a valorizar a mudança. Para o sacerdote, a compreensão da liturgia aproximou a comunidade da celebração. “A liturgia era em latim e ninguém entendia. Hoje não. Hoje é a comunidade”, afirmou.

Ele considera que a mudança promovida pelo Concílio Vaticano II foi uma das mais importantes que acompanhou. “Isso do Vaticano II, sem dúvida, foi uma grande coisa”, disse.

A fé como segurança

Aos 103 anos, a fé continua ocupando o centro da vida de Frei Clemente. Para ele, a crença em Deus oferece segurança diante das incertezas. “A fé, para mim, é o que me dá segurança. Eu não me preocupo muito com tantas coisas”, afirmou.

O sacerdote diz acreditar que Deus conduz a Igreja. Essa confiança também influencia a maneira como encara suas próprias atividades religiosas. “Eu tenho fé que Deus está dirigindo a minha Igreja e não tem problema nenhum”, declarou.

Para Frei Clemente, celebrar uma missa também representa uma demonstração dessa confiança. “Eu vou realizar uma missa, tenho certeza que estou fazendo uma coisa que Deus aprova”, afirmou.

Por isso, ele resume sua visão em uma frase simples: “A fé é a força de tudo, certamente”.

O conselho de quem viveu mais de um século

Quando questionado sobre o que gostaria de ensinar às novas gerações, Frei Clemente não recorreu a uma longa explicação. “Aceite o caminho que Deus lhe indica”, aconselhou.

Segundo ele, quem identifica uma vocação deve ter coragem para segui-la. O sacerdote considera que esse chamado pode aparecer tanto na vida religiosa quanto no matrimônio. “Se você tem uma vocação para alguma coisa, não hesite, tenha coragem e vá”, afirmou.

Aos 103 anos, ele próprio continua seguindo a escolha feita ainda na infância. Por isso, o conselho se mistura à história pessoal que construiu durante décadas.

Sem planos para mudar

Frei Clemente não demonstra interesse em alterar a rotina que manteve durante a maior parte da vida. Para o futuro, deseja continuar fazendo aquilo que ainda consegue realizar. “Continuar como sou”, respondeu quando perguntado sobre o que gostaria de viver daqui para frente.

Ele pretende continuar confessando, celebrando missas e exercendo o serviço religioso. “Podendo confessar as pessoas, podendo celebrar a Santa Missa, continuar aquilo que fiz até aqui”, afirmou.

Aos 103 anos, portanto, o sacerdote não fala em aposentadoria da vocação. Ele prefere continuar no mesmo caminho que escolheu quando ainda era menino.

Frei Clemente e a história de Umuarama

A história de Frei Clemente se mistura com diferentes momentos da Igreja e também com a memória de Umuarama. A cidade ocupa um lugar particular entre as comunidades onde ele atuou. Ao completar 103 anos, o sacerdote recebe uma homenagem da comunidade da Paróquia São Francisco de Assis. A celebração reunirá pessoas ligadas à sua trajetória religiosa e pastoral.

A mensagem que ele deixa para a comunidade também resume o vínculo construído ao longo dos anos. “Seja uma comunidade fiel a Deus e à sua Igreja também. Seja uma comunidade, continue sendo isso que é. Uma comunidade muito unida”, afirmou.

Depois de conhecer diferentes cidades e países, Frei Clemente mantém a mesma avaliação sobre Umuarama. “Eu viajei bastante e confesso do coração e de verdade, não vi uma cidade tão gostosa e bonita com Umuarama”, declarou.

Sua história reúne fé, estudo, trabalho pastoral e lembranças de quase um século de transformações. Mais do que acompanhar a passagem do tempo, Frei Clemente participou dela.

Em sua memória, as melhores lembranças

Frei Clemente não fala sobre a própria história como quem encerra um capítulo. Ele prefere continuar vivendo a rotina que escolheu ainda menino, entre missas, confissões e encontros com a comunidade.

Sua memória guarda Roma, três papas, décadas de sacerdócio e as transformações da Igreja. Guarda também uma despedida chorando a caminho de Curitiba e um vínculo com Umuarama que o tempo não conseguiu apagar.

Agora, ao celebrar mais um aniversário, Frei Clemente permanece onde diz querer estar: perto das pessoas e da Igreja. Sua história se tornou parte da memória de uma cidade que ele próprio define como difícil de comparar com qualquer outra.

Mais de nove décadas depois de entrar no seminário, ele continua repetindo, à sua maneira, a escolha que orientou toda a sua vida. Seguir o caminho que acredita ter sido indicado por Deus.

Aos 103 anos, Frei Clemente Vendramin relembra sua trajetória religiosa, os estudos em Roma, encontros com papas e a relação especial com Umuarama – Foto: Jean Soriani/OBemdito

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