Umuarama

Acompanhada por policial nos metros finais, corredora umuaramense supera limites; vídeo

Não foi o primeiro lugar. Não houve medalha dourada, troféu ou faixa de campeã. Ainda assim, poucas pessoas venceram tanto quanto Marivani Rodriguez Veloso Castanha, de 46 anos, na manhã deste domingo (2), durante a 5ª Corrida do 25º Batalhão da Polícia Militar (25º BPM), em Umuarama.

Enquanto os atletas mais rápidos cruzavam a linha de chegada e comemoravam seus tempos, outra história era escrita quilômetros atrás, longe dos holofotes e dos cronômetros. Uma história sobre recomeços, fé e a coragem silenciosa de quem trava batalhas que quase ninguém vê.

Servidora pública municipal, Marivani foi a última atleta a concluir os 12 quilômetros da prova. Mas, para ela, cruzar a linha de chegada significava muito mais do que completar um percurso. Cada passo carregava uma vitória pessoal, construída ao longo de anos marcados pela depressão, pela doença e pela busca por uma vida mais saudável.

As imagens daquele momento ultrapassaram a marca de um milhão de visualizações no Instagram da corredora. O que emocionou tanta gente, porém, não foi a posição na classificação, mas a trajetória de quem aprendeu que vencer nem sempre é chegar antes dos outros. Às vezes, a maior conquista é simplesmente continuar.

Em entrevista ao OBemdito, Marivani contou que a corrida entrou em sua vida em 2021, por orientação médica, após enfrentar um quadro severo de depressão. “Eu não gosto de academia. Optei por correr e comecei no projeto Amigos que Correm”, relembrou.

A decisão transformou completamente sua rotina. Entre treinos, amizades e quilômetros percorridos, ela encontrou uma forma de reencontrar a própria essência. “Quando corro, me sinto como um pássaro, livre.”

Mas a caminhada esteve longe de ser fácil. Há cerca de dois anos, Marivani contraiu dengue e precisou interromper os treinamentos. Durante a recuperação, enfrentou uma queda na imunidade e ganhou 14 quilos. O afastamento das pistas trouxe insegurança, mas não foi suficiente para fazê-la desistir.

Com persistência, retomou os treinos e passou a integrar o projeto Corre Umuarama. Em todos os momentos, diz ter encontrado forças na fé. “Sempre coloco Deus e Jesus na minha caminhada. São eles que me erguem.”

A cabo da Polícia Militar Ussula Ferreira da Silva acompanhou a corredora Marivani Rodriguez Veloso Castanha nos quilômetros finais da prova, transformando a chegada da 5ª Corrida do 25º BPM em um dos momentos mais emocionantes do evento

No domingo, no entanto, os últimos quilômetros pareceram mais difíceis do que todos os obstáculos que havia enfrentado até ali. O desgaste físico, o peso da subida da avenida Portugal e o cansaço acumulado ao longo dos 12 quilômetros consumiam suas últimas energias.

Foi nesse momento que surgiu a cabo da Polícia Militar Ussula Ferreira da Silva, de 40 anos, integrante do 25º BPM, que trabalhava na segurança da corrida. Ao perceber que a atleta seguia sozinha e desanimada, a policial se aproximou e perguntou se estava tudo bem. A resposta foi sincera.

“Ela falou que estava bem, mas que estava triste porque era a última colocada e a viatura vinha logo atrás dela”, contou Ussula ao OBemdito. A policial, então, tomou uma decisão que mudaria completamente a história daquela chegada. “Eu falei: ‘Bora, vamos terminar a prova juntas. Eu vou correr com você até o final’.”

Ussula pediu apoio às equipes do Siate e a policiais da Rocam, que acompanharam a dupla nos metros finais do percurso. Da subida da avenida Portugal até a chegada, dentro do Shopping Palladium, as duas correram lado a lado, cercadas por palavras de incentivo.

Para Marivani, aquele encontro não aconteceu por acaso. “Foi Cristo que colocou a Ussula no meu caminho. Eu estava sem forças para continuar.” Ela faz questão de esclarecer que nunca teve vergonha de ser a última colocada.

“Vergonha, não. Eu sei das minhas batalhas, dos meus 87 quilos e da minha busca por saúde e bem-estar. Cada pessoa conhece apenas o resultado, mas não conhece a luta que existe por trás dele.”

Talvez seja justamente essa a razão de a história ter tocado tantas pessoas. Em um mundo acostumado a celebrar apenas quem sobe ao pódio, Marivani lembrou que existem vitórias invisíveis, conquistadas longe das medalhas e dos aplausos.

Vence quem enfrenta a depressão e encontra forças para recomeçar. Vence quem supera uma doença e decide voltar a correr. Vence quem entende os próprios limites, respeita o próprio tempo e segue em frente sem precisar da aprovação alheia.

Na manhã deste domingo, entre centenas de corredores, a última colocada mostrou que a verdadeira linha de chegada não fica no pórtico de uma prova. Ela está dentro de cada pessoa que, todos os dias, escolhe não desistir de si mesma.

(Com imagens de reprodução de redes sociais)

Rudson de Souza

Jornalista formado pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) e historiador pela Universidade Paranaense (Unipar), construiu sua trajetória entre o jornalismo impresso e o digital, com atuação em diferentes editorias e dedicação à reportagem, à investigação jornalística, à apuração rigorosa e ao relacionamento com fontes. Também possui especializações em Toolkit de IA para News, pela Google News Initiative, e em Storytelling e Técnicas de Apresentação: Conceitos Gerais de Comunicação, pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

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