Rudson de Souza Publisher do OBemdito

Choro interrompe áudio de caixa-preta; PF prevê indiciamentos no caso Voepass

Destroços da aeronave do voo 2283, que fazia a rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) e caiu em agosto de 2024 (Foto Secretaria de Segurança Pública de São Paulo)
Choro interrompe áudio de caixa-preta; PF prevê indiciamentos no caso Voepass
Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 1 de julho de 2026 às 12h57 - Modificado em 1 de julho de 2026 às 13h02

Os familiares das 62 vítimas do acidente com o voo 2283 da Voepass tiveram acesso, pela primeira vez, ao conteúdo da caixa-preta da aeronave. A apresentação foi feita pela Polícia Federal (PF) durante uma reunião realizada nesta terça-feira (30), em Campinas (SP), quando também foi entregue o laudo pericial que embasa a fase final da investigação.

O avião caiu em agosto de 2024 após decolar de Cascavel, no Oeste do Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).

Segundo o assistente de acusação das famílias, Luciano Katarinhuk, a Polícia Federal cumpriu o compromisso de apresentar o material aos parentes antes que qualquer informação fosse tornada pública.

“A Polícia Federal cumpriu conosco um acordo de que, antes que qualquer informação referente à caixa-preta fosse divulgada para a imprensa, ela seria apresentada às famílias. Hoje esse compromisso foi cumprido e tivemos acesso também ao laudo pericial, que ainda está sendo analisado”, afirmou.

Além da transcrição das conversas registradas na cabine, os representantes da associação receberam o laudo técnico elaborado pelos peritos da PF, documento que servirá de base para a conclusão do inquérito policial.

Grupo desistiu de ouvir as gravações

Inicialmente, estava prevista a reprodução dos áudios captados na cabine da aeronave. No entanto, a emoção tomou conta dos familiares logo no início da reunião e o grupo decidiu interromper a audição, optando apenas pela leitura das transcrições.

“Íamos ouvir os áudios, mas começou aquela choradeira. Achamos melhor ler apenas as transcrições daqueles minutos finais que antecederam a queda do avião. Foi muito triste”, relatou Luciano.

De acordo com o advogado, o conteúdo das conversas permanecerá sob sigilo para não comprometer o andamento das investigações, conforme solicitação da Polícia Federal.

Investigação ganhou novos elementos

A presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283, Fátima Albuquerque, mãe da médica Arianne Albuquerque, afirmou que as informações apresentadas reforçam a convicção das famílias de que houve condutas passíveis de responsabilização criminal.

Representantes da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283 participaram de reunião com a Polícia Federal, em Campinas (SP), onde tiveram acesso à transcrição das conversas da cabine e ao laudo pericial da investigação. (Foto: Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283)

Segundo ela, a investigação continua em andamento, com novas oitivas e a mudança da condição de algumas pessoas, que deixaram de ser apenas testemunhas para passarem a ser investigadas.

“A gente sabe que vai ter indiciamento, que estão tendo mais oitivas, de que houve conduta criminosa. Também envolve funcionários e os pilotos, que não foi criminoso, mas pagaram com a vida.”

Na avaliação da associação, os elementos reunidos pela Polícia Federal apontam para uma cultura operacional que priorizava manter as aeronaves em operação, mesmo diante de possíveis falhas técnicas.

“Tinha um modus operandi, uma cultura de economizar, de não ficar no pátio. Então não reportavam erro, não reportavam problema, não reportavam nada quebrado para não perder dinheiro”, declarou Fátima.

Luciano Katarinhuk afirmou que o laudo pericial ampliou o alcance das investigações.

“O laudo pericial trouxe mais elementos. Pessoas que tinham sido ouvidas como declarantes agora estão sendo chamadas como investigadas.”

PF prevê conclusão do inquérito neste mês

Durante o encontro, segundo o advogado, o delegado responsável informou que a investigação deverá ser encerrada até o fim de julho, quando o inquérito será encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF).

A expectativa apresentada às famílias é de que o relatório contenha indiciamentos.

“O delegado nos garantiu que haverá indiciamentos. O voo 2283 não ficará em vão. As pessoas que perderam a vida terão uma resposta e os familiares também”, afirmou Luciano.

Ele acrescentou que a responsabilização não deve ficar restrita aos pilotos.

“Às vezes é muito fácil jogar a culpa só nos pilotos. Mas existem pessoas vivas que mantiveram esse avião no ar. A garantia dada pela Polícia Federal é de que essas pessoas também serão responsabilizadas penalmente.”

Famílias cobram responsabilização

Para Fátima Albuquerque, a busca por justiça tem como principal objetivo evitar que novos acidentes semelhantes ocorram no país.

“Os nossos não vão voltar, mas a nossa luta é para que amanhã o seu filho, a sua filha, o seu pai ou a sua mãe não sejam vítimas de uma tragédia anunciada. Então, a nossa luta é para cessar esse tipo de comportamento no país.”

Ela também defendeu que sejam apuradas as decisões relacionadas à manutenção da aeronave e às condições em que o voo foi realizado.

“Que esses mesmos não voltem a cometer os mesmos erros. Você não fazer uma manutenção adequada, não reportar um erro e submeter uma tripulação a uma situação de risco são questões que precisam ser apuradas.”

Próximos passos

A associação informou que já se reuniu com integrantes do Ministério Público Federal e pretende atuar como assistente de acusação caso seja oferecida denúncia após a conclusão do inquérito.

Os próximos 30 dias são considerados decisivos para o encerramento da investigação. Caberá ao MPF analisar o relatório da Polícia Federal e decidir sobre eventual apresentação de denúncia contra os investigados.

Até a publicação da reportagem, a Polícia Federal e a Voepass Linhas Aéreas não haviam se manifestado sobre o caso.

(OBemdito com informações do Portal Banda B)

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