Graça Milanez Publisher do OBemdito

Mulheres motoristas de ônibus em Umuarama provam que a direção também é delas

Cidinha e Silvia, no terminal de ônibus de Umuarama: no volante, muito mais do que quilômetros percorridos - Fotos: Danilo Martins/OBemdito
Mulheres motoristas de ônibus em Umuarama provam que a direção também é delas
Graça Milanez - OBemdito
Publicado em 8 de março de 2026 às 10h59 - Modificado em 8 de março de 2026 às 16h35

Únicas mulheres entre os 78 motoristas da Viação Umuarama, Silvia Pavani, 55 anos, e Aparecida Pereira, 49 anos, dominam o volante dos coletivos da cidade. Mas nem sempre foi assim.

Determinadas e confiantes, elas carregam trajetórias marcadas por diferentes experiências de emprego, mas dizem que foi atrás do volante de um ônibus que encontraram o lugar onde realmente se sentem realizadas.

Desde 1962, a Viação Umuarama faz parte da rotina da cidade, conduzindo trabalhadores, estudantes e famílias pelas ruas e avenidas; e, mesmo com tantos anos de história, a função ainda parece ser do reduto dos homens.

Mas, no vai e vem das linhas urbanas de Umuarama, as motoristas de ônibus Sílvia e Cidinha mostram que as mulheres podem, sim, ocupar esse espaço, porque talento e dedicação não têm gênero — apenas direção; e o reconhecimento da equipe vem em forma de aplausos.  

Silvia Pavani, que conquistou carteira de habilitação categoria E em 2012

“Elas são ótimas motoristas, tranquilas e muito competentes”, elogia o coordenador do terminal urbano, Pedro Correa. Quando perguntado que nota daria, de zero a dez, foi categórico: “Dez! Elas merecem dez!”.

“São duas guerreiras, que vêm desempenhando um papel simplesmente exemplar, inspirador”, exclama a assistente operacional da Viação Umuarama, Laiza Cyrino.

Cidinha Pereira, que antes de encarar o ônibus foi tratorista em usina de álcool

Motoristas de ônibus com muito orgulho!

Silvia conta que conduzir um ônibus pelas ruas da cidade é mais do que um emprego. “Eu gosto muito do que faço; estar ao volante, levando as pessoas, me dá satisfação”, afirma, demonstrando no olhar e no sorriso o orgulho que sente pelo cargo.

Cidinha compartilha do mesmo entusiasmo. “Eu amo dirigir; não troco essa profissão por nada”, diz com convicção. No dia a dia, ela diz encarar com naturalidade os desafios de conduzir um veículo grande, quase sempre lotado de passageiros.

“Todos os dias elas assumem o volante com compromisso, enfrentando trânsito, adversidades e a grande responsabilidade de transportar pessoas com segurança, respeito e profissionalismo”, ressalta Laiza.

Segundo ela, em uma função que por muito tempo foi vista como masculina, elas revelam que atitude e habilidade não têm gênero: “Cada rota executada, cada passageiro atendido, cada expediente cumprido é a prova de que determinação e talento são diferenciais importantes… Sou muito grata por tudo o que fazem diariamente!”

“Isso é para os fortes”… Fracos não encaram

Aos 55 anos, Silvia carrega no volante muito mais do que quilômetros percorridos. Divorciada, mãe de duas filhas e avó de dois netos, ela encontrou no ofício de motorista um caminho de recomeço e afirma, sem hesitar, que dirigir é o que realmente gosta de fazer.

A carteira de habilitação categoria E veio em 2012, quando decidiu investir de vez na carreira. O início foi em São Paulo, conduzindo ônibus em viagens intermunicipais, no trajeto da capital a cidades do interior.

Antes disso, traz muita labuta no currículo: nascida e criada no sítio, diz ter clara lembrança de tudo o que fez, desde muito cedo. “Plantei milho, amendoim, arroz… Abanei café, lavei roupa na mina, cuidei de vacas, porcos… Não tem o que não fiz”.  

Também foi dona de uma fábrica de vestuário, mas acabou perdendo o negócio por motivos que não quis revelar. Foi justamente naquele momento difícil que surgiu a oportunidade — e a coragem — de mudar de rumo.

Entre uma história e outra, ela confessa que tem preferência pelas estradas. “O que eu gosto mesmo é rodovia, e dirigir à noite”, conta. No entanto, encara com tranquilidade as jornadas pelas ruas de Umuarama, levando passageiros de bairro em bairro.

E quando fala sobre a profissão, não suaviza as palavras. “Isso é para os fortes… não é para os fracos”, diz em tom imperativo, logo em seguida abrindo um sorriso.

A frase vem acompanhada de uma observação sincera: para ela, dirigir exige atenção constante — algo que, segundo comenta, muita gente parece esquecer no trânsito das cidades.

E Umuarama não é exceção: “Tem muito motorista que dirige mal por aqui”, diz, balançando a cabeça de um lado para outro, em sinal de inconformidade.

Abrindo caminhos com a D, depois a E

Aos 49 anos, Aparecida Pereira — a Cidinha — carrega no sorriso tranquilo a marca de uma vida de trabalho. Casada, mãe de três filhos e avó de três netos, ela diz se sentir plenamente realizada na profissão que escolheu: ser motorista.

A relação com o volante começou relativamente tarde. Cidinha aprendeu a dirigir aos 25 anos, mas não demorou para descobrir que queria ir mais longe.

Em 2011 conquistou a carteira de habilitação categoria D e, seis anos depois, decidiu avançar mais um passo em busca da E. Entre as primeiras vivências no volante, ela guarda com orgulho o período em que foi tratorista em uma usina de álcool. “Foi um período que me ajudou a fortalecer a confiança na condução de veículos grandes.”

Mas a disposição para as batalhas da vida vem de muito antes. Cidinha morou no sítio até os 18 anos e começou na peleja ainda criança. “Fazia de tudo”, lembra. “Carpia, plantava, ajudava a rarear algodão, abanava café e espalhava adubo nas lavouras… Não era fácil, não!”

Depois veio o tempo em que resolveu ganhar seu salário na cidade. “Fui funcionária no comércio por 13 anos, depois de laboratório; também fui costureira… Já fiz muita coisa até chegar nessa profissão que me deixa muito feliz!”

É que no volante do ônibus urbano, Cidinha leva consigo a vivência de quem aprendeu cedo que trabalho duro abre caminhos – e que, às vezes, esses caminhos começam numa estrada de terra e terminam nas ruas da cidade.

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