Umuarama

Trans fala de homofobia e como driblou as ‘pedras’ arremessadas para se dar bem na vida

‘Geni e o Zepelim’ ou ‘Joga pedra na Geni’, como ficou mais conhecida, é uma canção emblemática do repertório de Chico Buarque. Ele gravou lá no final dos anos de 1970, provocando muito bate-boca, à época! Coisas de antigamente? Não. A crítica social que guarnece a música continua atualíssima. Jogar pedra na Geni ainda é praxe no mundo da discriminação em relação a gênero, à sexualidade.

Para conscientizar, derrubar preconceitos [verdadeira missão da arte do renomado compositor], a obra foi para o cinema, teatro, literatura, porém… Já passamos 1/5 do terceiro milênio e as pedras continuam sendo arremessadas, não só no sentido metafórico, que já é cruel e inadmissível, mas no literal, frio e calculista.

Na direção das ‘Genis’, as pedras são lançadas para machucar e, infelizmente, algumas vezes para matar. Isso acontece no mundo todo, inclusive em Umuarama, que foi recentemente palco de uma tragédia dessas [leia aqui]. A homofobia ronda por aqui.  

“Isso é muito triste”, exclama a transexual umuaramense Sabryna, 45 anos, que vive em Madri, na Espanha. Para falar sobre essa perversidade e como dá a volta por cima, ela conversou com OBemdito via whatsApp. “Desde que me assumi gay não tenho dificuldade para conversar sobre esse assunto; minha vida é um livro aberto”, assegura.

Marcelo de Souza, seu nome de batismo, passou a infância no Parque Laranjeiras [quando era uma das favelas mais pobres de Umuarama]. Diz que cresceu se olhando e se perguntando por que nasceu assim. “Não me aceitava no corpo masculino”, conta, dizendo que cansou de ouvir, dos meninos da rua, frases do tipo “olha lá o Marcelo ‘viadinho’ passando”. Eles também xingavam e jogavam pedras, nela. “Isso doía, por dentro, por fora, mas eu não fazia nada”.

Até que… “Eu disse: ‘se vocês continuarem me xingando desse jeito eu vou entregar quem de vocês transa comigo, tá?’ Essa ameaça deu uma acalmada na intolerância deles, porque, você sabe, né?, homofóbico é possivelmente um gay enrustido, que não suporta a ideia sê-lo, imagine os outros saberem?”, descreve.

Pior foi quando revelou sua orientação sexual para a família, aos 16 anos: “E aí minha vida virou um inferno; fui expulsa de casa”, relembra, com tom de tristeza na voz.  “Por tantas outras desavenças com ‘os outros’ e conflitos ‘comigo mesma’, cheguei a entrar em crises sérias, de querer me suicidar; com o tempo aprendi a lidar com isso… minha personalidade forte me salvou… Coloquei uma peruca na cabeça e fui ser feliz”.

À esqerda: Sabryna em Paris: passeios pelos países vizinhos fazem parte da rotina profissional dela; à direita: Sabryna, a umuaramense que vive em Madri: “Aqui é mais tranquilo”

Profissional do sexo

Segundo Sabryna, as pessoas homoafetivas, na maioria dos casos, são desvalorizadas. “E isso geralmente começa dentro da família”, critica. “Hoje em dia nem tanto, mas no meu tempo… tudo era difícil demais!”.

Ela não teve chance de se profissionalizar; chegou a trabalhar numa fábrica e numa rádio em Umuarama, empregos relativamente bons, mas sem papas na língua confessa que o caminho da prostituição acenava para uma situação financeira mais promissora.

“E está sendo”, garante a trans, que atuou como profissional de sexo em Umuarama e em Cascavel. Na Espanha, ela atua há quatro anos. “O que ganhei nesse período aqui, levaria de dez a quinze anos pra ganhar aí [no Brasil]”, calcula, revelando o valor do ‘programa’: 60 euros por meia hora, 100 por uma hora.

Ela garante que ama viver e trabalhar lá no velho continente, mas é pra cá que manda o que sobra do seu orçamento: “Eu tenho investido em imóveis, em Umuarama”, afirma, orgulhosa. Mas abre um parêntese para avisar: “Prostituição não é sinônimo de dinheiro fácil, não! É preciso ter muita coragem pra entrar nessa!”

Por onde passasse, por aqui, chamava a atenção e “todo mundo arregalava os olhos”, diz Sabryna. Lá, não. “Agora vivo contente, mais livre, não devo nada pra ninguém, pago minhas contas, meus impostos, tenho meu plano de saúde… enfim, estou bem! E não me refiro só financeiramente; viver na Europa é mais tranquilo, porque a intolerância é menor. Nunca fui agredida; roubada, sim, já fui, mas agredida não! Posso dizer que venci as piores barreiras”. 

De malas prontas pra Tailândia

Lindos cabelos compridos ela já tinha, mas, definitivamente, queria se transformar numa mulher, ter o corpo feminino. O primeiro passo foi pôr prótese de silicone de mamas, depois, de glúteo, entre outras intervenções, como as de harmonização facial.

Agora ela quer investir na redesignação [readequação] sexual, ou seja, está disposta a passar pela construção da chamada neovagina, técnica que consiste na inversão peniana. Isso pretende fazer na Tailândia, país referência em cirurgias de troca de sexo. 

“Até agora não me arrependo de nada do que fiz e faço; de degrau em degrau estou concretizando meus sonhos”, arremata Sabryna, que espera não levar nunca mais uma pedrada na vida, nem da vida.

Graça Milanez

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