Você sabia que Umuarama tem sítios arqueológicos de 8 mil anos?
A história de Umuarama pode ser bem mais antiga do que muita gente imagina. Antes mesmo da formação do município e da chegada dos primeiros moradores conhecidos, outros povos já percorriam e ocupavam essa região há milhares de anos. E não estamos falando dos Xetá.
Uma investigação iniciada neste ano pela reportagem do OBemdito, durante a apuração sobre a instalação de uma unidade da Amafil Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. no município, acabou levando a uma descoberta que pouco circula fora dos meios especializados.
Há registros de sítios arqueológicos em diferentes pontos do município, com vestígios de grupos humanos que passaram pela região milhares de anos antes de Umuarama existir como cidade.

O ponto de partida foi justamente uma etapa relacionada ao licenciamento ambiental do novo empreendimento. Estudos desse tipo precisam considerar a possibilidade de existência de patrimônio arqueológico. Foi nesse processo que a reportagem entrou em contato com a arqueóloga Alessandra Spitz Guedes Alcoforado, da Superintendência do Iphan no Paraná.
Em resposta à reportagem sobre o terreno na PR-468, no acesso a Mariluz, a especialista trouxe esclarecimentos sobre o processo de licenciamento da indústria, mas a conversa acabou revelando algo muito mais amplo. A região de Umuarama guarda registros de ocupações humanas de pelo menos 8 mil anos.
Esse universo arqueológico está relacionado aos grupos de caçadores e coletores, que utilizavam pedras para produzir instrumentos usados em diferentes atividades. Entre os materiais encontrados estão pontas de projéteis e ferramentas utilizadas para corte e outras funções.

Segundo Alessandra, olhar para esses objetos é uma forma de compreender uma ocupação humana que aconteceu muito antes dos registros históricos mais conhecidos sobre a região.
Um passado que não aparece nos livros sobre a cidade
Quando se fala sobre a história de Umuarama, é natural pensar na formação do município, nos pioneiros, na abertura das primeiras estradas e no processo de ocupação que transformou a paisagem. A arqueologia acrescenta uma camada muito anterior a essa narrativa.

Os vestígios encontrados no município estão relacionados a grupos que utilizavam recursos disponíveis no próprio ambiente para produzir suas ferramentas. A tecnologia da pedra lascada é uma das pistas utilizadas pelos pesquisadores para compreender essas populações.
“É a partir desses vestígios que conseguimos acessar informações sobre populações que não deixaram registros escritos”, explicou a arqueóloga.
Entre os materiais associados a esse período estão as pontas de projéteis, peças produzidas por meio do lascamento da pedra e utilizadas em atividades ligadas à caça. O modo de fabricação, o tipo de matéria-prima e o contexto em que os objetos são encontrados ajudam a arqueologia a interpretar esses vestígios.

É uma história que não está necessariamente em grandes construções ou monumentos. Em muitos casos, ela aparece em objetos pequenos, encontrados durante pesquisas realizadas antes de uma obra ou intervenção no território.
Três sítios arqueológicos se destacam em Umuarama
Entre os registros existentes no município estão os sítios arqueológicos Córrego Piava, Ribeirão Corimbatá e Esperança.

O Córrego Piava foi identificado durante estudos realizados em função da passagem da Estrada Boiadeira. O mesmo contexto está relacionado ao registro do sítio Ribeirão Corimbatá.
No cadastro do Iphan, o Córrego Piava aparece como um sítio arqueológico lítico e pré-colonial, localizado em uma área de meia encosta às margens do Ribeirão Piava.
O registro aponta duas concentrações de lascas, microlascas e instrumentos unifaciais, confeccionados com predominância de calcedônia e arenito silicificado. Também foi identificado material lítico lascado.

A área estimada do sítio é de 9.850 metros quadrados, com aproximadamente 197 metros de comprimento, a cerca de 60 metros do Ribeirão Piava.
Para quem passa pela região atualmente, pode ser difícil imaginar que aquele cenário já foi ocupado por pessoas milhares de anos atrás. É justamente o trabalho arqueológico que transforma esses vestígios em informações sobre esse passado.
O Esperança surgiu no caminho das torres de transmissão
Outro registro importante é o sítio arqueológico Esperança, descoberto durante os estudos para a instalação de torres de transmissão de energia no trecho entre Umuarama e Guaíra.

O local funcionou como uma verdadeira “oficina lítica” pré-colonial. As pesquisas ali realizadas catalogaram ferramentas de pedra lascada e pontas de projéteis, cujas peças recolhidas foram posteriormente destinadas ao acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR).
O material permite aos pesquisadores analisar as técnicas utilizadas na produção dos objetos e relacioná-las ao modo como esses grupos utilizavam os recursos disponíveis na região.
Para Alessandra, os artefatos não devem ser analisados apenas pelo objeto em si, mas pelo conjunto. “Não é somente a peça que importa. O contexto em que ela foi encontrada também traz informações importantes para a pesquisa”, explicou.

Pedras que ajudam a reconstruir uma vida de milhares de anos atrás
Uma ponta de projétil pode parecer apenas uma pequena pedra para quem não conhece arqueologia. Para um pesquisador, porém, ela revela informações sobre tecnologia, matéria-prima e ocupação humana.
Em geral, esse tipo de artefato está relacionado à chamada Tradição Umbu, associada a grupos de caçadores e coletores e conhecida principalmente pela presença de pontas de projéteis bifaciais.
Essa relação aparece de forma ainda mais definida no sítio arqueológico Córrego Chupiá, em Icaraíma, também identificado durante pesquisas relacionadas à Estrada Boiadeira (BR-487).

A arqueóloga explica que os instrumentos de pedra são uma das principais fontes para estudar esses grupos, já que foram produzidos e utilizados em diferentes atividades e permaneceram no território mesmo depois que seus autores desapareceram.
A Estrada Boiadeira também revelou parte desse passado
Há uma coincidência interessante na história dessas descobertas. Obras e estudos relacionados à Estrada Boiadeira ajudaram a localizar sítios arqueológicos em uma região que hoje é cortada por uma importante via de circulação.
Em Umuarama, como já descrito, o contexto está relacionado aos registros do Córrego Piava e do Ribeirão Corimbatá. Em Icaraíma, as pesquisas levaram ao sítio Córrego Chupiá.

O cadastro do Córrego Piava identifica o trabalho como parte do Programa de Prospecção Arqueológica, Melhoria e Pavimentação da Rodovia BR-487/PR, no trecho entre Cruzeiro do Oeste, Umuarama e Icaraíma.
Ou seja, enquanto a estrada era estudada para atender às necessidades atuais da região, as pesquisas acabaram encontrando marcas de quem percorreu esse mesmo território milhares de anos antes.
E por que o Iphan aparece nesses processos?
Foi justamente a apuração sobre o licenciamento da unidade da Amafil que levou a reportagem a chegar aos sítios arqueológicos.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura e tem entre suas atribuições a proteção do patrimônio cultural brasileiro, incluindo o patrimônio arqueológico.
Quando uma obra pode atingir uma área com potencial arqueológico, esse patrimônio precisa ser considerado durante o licenciamento. Isso não significa que o Iphan seja responsável por conceder a licença ambiental do empreendimento.
A atuação do instituto está relacionada à proteção e à preservação. Dependendo das características do projeto e da área, podem ser necessários estudos e programas de arqueologia preventiva para identificar, registrar e proteger eventuais vestígios.

Com o parecer favorável para o terreno da PR-468, a instalação da fábrica pôde seguir seu trâmite normal. Contudo, o diálogo iniciado por essa consulta acabou revelando que a história do município é substancialmente mais antiga e rica do que o conhecimento cotidiano costuma registrar.
O patrimônio pode estar escondido
Parte do trabalho arqueológico acontece justamente porque esses vestígios não são facilmente percebidos no dia a dia.
Uma pequena lasca de pedra pode passar despercebida por quem circula por uma propriedade rural. No entanto, esses materiais ganham significado quando analisados em conjunto e relacionados ao local onde foram encontrados.
O sítio Córrego Piava, por exemplo, sofre pressão de fatores como erosão pluvial e fluvial, pisoteio de gado, atividades de motocross e intervenções viárias. Devido ao seu valor científico, o cadastro do Iphan classifica sua relevância como alta e aponta a necessidade de medidas de preservação como o resgate arqueológico.

Alessandra destaca que os sítios arqueológicos são recursos finitos e não renováveis. “Uma vez destruído o contexto em que um objeto foi encontrado, parte importante da informação sobre o nosso passado desaparece para sempre. A pesquisa arqueológica permite transformar esses vestígios em conhecimento sobre as populações que ocuparam o nosso território”, ressaltou.
Muito antes dos Xetá
Conhecidos por sua ligação com o tronco Tupi-Guarani, os Xetá simbolizam a memória indígena da nossa região. Mas os vestígios arqueológicos descritos acima, demonstram que a ocupação humana em Umuarama começou muito antes.
Antes mesmo dos antepassados Tupi, grupos de caça e coleta já habitavam estas paisagens. E as relíquias em pedra que permaneceram em silêncio debaixo da terra nesses aproximadamente 8 mil anos, sempre estiveram prontas para nos lembrar que o chão de Umuarama guarda memórias milenares.

(Reportagem de Rudson de Souza/OBemdito com imagens do Iphan)
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