De Umuarama ao Rio, ator transforma sonho de infância em carreira no teatro e na TV
Durante muito tempo, o sonho de trabalhar com arte existiu dentro de Vini Venancio, 24 anos, mas ficou guardado. Nascido em uma família humilde de Umuarama, ele sabia que queria atuar desde criança, mas, quando chegou à idade de buscar sozinho um caminho profissional, a necessidade de trabalhar falou mais alto.
A rotina de quem precisava garantir o próprio sustento acabou deixando pouco espaço para aquilo que, para ele, parecia distante: viver da arte. Na lida, começou como office boy em escritório, depois foi estoquista na Latorama.
“Viver da arte nunca foi algo que almejei nesse período porque eu tinha que trabalhar. A gente que é ou já foi refém da escala 6×1 sabe o quanto alguns trabalhos exigem da nossa saúde mental e do nosso tempo, deixando a gente até mesmo sem tempo para sonhar”, conta.
Aos 20 anos, porém, Vini decidiu que era hora de tentar. Deixou o trabalho que tinha em Umuarama e partiu para o litoral do Rio de Janeiro.
O destino inicial não foi a capital, nem um curso de teatro ou uma agência de atores. Foi Arraial do Cabo, onde conseguiu uma vaga de trabalho voluntário em um hostel. Em troca de serviços de recepção e limpeza, tinha moradia.

Ficou um ano na cidade. A experiência ajudou a viabilizar a mudança, mas ainda não o aproximava do objetivo principal. Em 2024, Vini finalmente se mudou para o Rio de Janeiro e escolheu o Vidigal como endereço.
A escolha não foi por acaso. Ele já havia ouvido falar na televisão sobre o Grupo Nós do Morro, criado há quatro décadas na comunidade e conhecido pela formação de artistas. Vini sabia que o Vidigal era um lugar de forte produção cultural e decidiu tentar uma vaga no grupo.
Passou na seletiva. “Assim que cheguei no Vidigal, participei de testes para ingressar no grupo e passei. Desde então, aquilo que era só um sonho começou a se tornar realidade”, conta.

Do sonho à primeira novela
O ingresso no Nós do Morro abriu para Vini a possibilidade de estudar teatro com professores e artistas e participar de montagens. Também marcou o início de uma trajetória que, em pouco tempo, começou a alcançar outros espaços do audiovisual.
A primeira participação em uma novela veio em 2026. Vini foi chamado para integrar o elenco de Três Graças, da Globo, no capítulo 103, em uma cena na Chacrinha. A oportunidade surgiu depois que ele havia enviado material para um teste de filme.
“Eu tinha mandado material para o teste de um filme e, semanas depois, uma agente ligou para mim de manhã dizendo que tinha repassado o material para um produtor da Globo e que me aprovou para gravar Três Graças”, orgulha-se.
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O próprio produtor da novela, Guilherme Gobbi, entrou em contato para falar sobre a participação. Para o jovem ator, a experiência foi especial também pelos encontros nos bastidores. Ele conta que dividiu camarim com o cantor Xamã e com Belo.

Na telinha, ator despertou emoção da avó
Mas a cena que mais marcou a estreia na televisão aconteceu depois que as câmeras foram desligadas. Como ainda não sabia exatamente quando a participação iria ao ar, Vini foi surpreendido por um áudio da avó, de Umuarama, dizendo que havia visto o neto na novela.
“Quando ela me viu na novela, ficou muito emocionada e me emocionou também; eu senti o orgulho dela pelo fato de eu ter conquistado esse papel, que foi uma participação rápida, mas marcante, para mim e para todos que torcem por mim.”
A repercussão também chegou pelas mensagens de amigos e familiares que acompanharam a participação de casa. Para quem saiu de Umuarama sozinho, a cena exibida na televisão teve um significado que ultrapassou a duração do papel.
“Estar na Globo foi, sem dúvidas, um dos momentos mais especiais da minha carreira até aqui”, afirma.

No palco, ao lado de grandes nomes
Antes de chegar à televisão, Vini já vinha construindo experiências importantes no teatro. Em 2025, foi um dos sete alunos do Nós do Morro selecionados para integrar o elenco de Gil: Sobre Todas As Coisas, espetáculo criado em homenagem a Gilberto Gil.
A montagem, apresentada no Teatro PRIO, no Rio, reuniu jovens artistas do Grupo Nós do Morro e da Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena. A dramaturgia foi de Fernando Porto Diogo, com direção de Paulo Guidelly, Fernando Porto Diogo e Marcello Melo e coordenação artística de Babu Santana.
Vini integrou o elenco da montagem, que criou cenas e personagens inspirados nas canções de Gil, utilizando elementos do coro grego, da dança, do carnaval carioca, da Tropicália e de manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras.
“Mesmo não cantando profissionalmente, foi um trabalho incrível”, diz Vini, que durante o espetáculo se dividia entre diferentes personagens.
A experiência com o musical também representou o contato próximo com artistas que ele conhecia de longe, como Babu Santana, um dos grandes nomes ligados ao Nós do Morro.

Um clássico do teatro brasileiro
Atualmente, Vini está novamente nos palcos, desta vez como Chiquinho em Eles Não Usam Black-Tie, clássico de Gianfrancesco Guarnieri que está em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio.
A montagem, dirigida por João Velho, entrou em cartaz em 7 de agosto e segue até o dia 30 de agosto, com 12 apresentações. A temporada tem sido marcada pela procura do público, com sessões praticamente esgotadas.
Para Vini, fazer parte de uma obra icônica do teatro brasileiro tem um significado especial. “Está sendo uma honra atuar nessa peça que é tão importante para a história do teatro brasileiro e para a nossa sociedade também”, afirma.

A temporada também lhe proporcionou outro daqueles encontros que parecem fechar um círculo. Na semana passada, Cissa Guimarães, mãe de João Velho, assistiu ao espetáculo e parabenizou o elenco.
“Fiquei muito feliz por ter alguém que sempre acompanhei na televisão agora me assistindo da plateia e me parabenizando. É um misto de emoções por estar fazendo o que eu amo e estar sendo reconhecido. Reforça que cada segundo de dedicação e amor que tenho pelo que faço vale a pena.”
A montagem de Eles Não Usam Black-Tie reúne no elenco, além de Vini, João Velho, Pedro Rocha, Nino Batista, Tai Xavier, Laura Campos Braz, João Amorim, Mara Uchoa, Bruna Kury, Ricardo Lopes e Tatiane Melo.

Ator também está no cinema
A construção da carreira não se limita aos palcos e à televisão. Vini já participou de três curtas-metragens: Dual, exibido no Festival do Rio em 2024; Cozinha, que integrou a programação do Festival Feira Preta em 2026; e Clave, que está em pós-produção.
Em Dual, dirigido por Dayse Amaral, interpretou Dedé. Em Cozinha, dirigido por Carolina Sales, viveu Rafa. Já em Clave, dirigido por Pedro Marchiori, interpreta Luís, um jovem flautista de uma escola de música do Rio.
Paralelamente aos trabalhos, Vini segue investindo na formação. Além do Nós do Morro, passou por cursos de atuação para audiovisual, incluindo formação pelo AfroReggae, laboratório de atuação da LABo e atividades do Rio Market.

E vem mais por aí
Os próximos passos ainda estão sendo desenhados. Desde 2024, Vini vem participando de testes para grandes produções. Recentemente, foi chamado para dois que considera especialmente importantes.
Um deles é para interpretar Zeca Pagodinho na adolescência, em uma produção sobre o sambista; e o outro, para viver Juliano, da dupla Henrique & Juliano, no filme sobre a trajetória de Marília Mendonça.
O resultado ainda não foi divulgado, mas, para Vini, a oportunidade de chegar a essas seleções já representa uma conquista. “Eu sei o quanto é difícil essa profissão e o quanto é difícil receber um teste nesse meio, principalmente no Rio de Janeiro, que tem muitos atores e atrizes no mesmo corre”, declara.
E salienta: “Só de receber essas chances já é motivo de comemoração e de me manter firme, com a certeza de que estou no caminho certo e que o que é meu vai me alcançar.”

Longe da família, mas perto do que sonhou
Aos 24 anos — completados no dia 13 de agosto — Vini olha para os quatro anos desde que deixou Umuarama como um período de muita luta, mas também de realizações. Longe da família, precisou aprender a conciliar cursos, estudos, trabalhos na área artística e atividades fora dela para conseguir se manter no Rio.
“Só a gente que deixa nossa cidade natal sozinho sabe o quão difícil é estar longe da nossa família, perder datas importantes e ter que viver uma nova realidade longe de todos.”
Agora, porém, a distância começa a ganhar outro significado. O jovem que desejava ser ator e não encontrava meios para isso, já subiu alguns degraus.

Inspiração para outros jovens
Quantos degraus Vini ainda terá que subir? Muitos, provavelmente. Mas o caminho que percorreu até aqui, marcado por muita esperança e dedicação árdua, é o que ele quer mostrar para Umuarama: “Talvez minha história possa inspirar outros jovens como eu que sonham com a carreira artística”.
Desde que deixou a família para tentar a sorte no Rio de Janeiro, o ator continua acompanhando de longe quem torce por ele. E, quando aparece na tela da televisão ou no palco de um teatro carioca, a conquista deixa de ser apenas dele.
Vira também motivo de orgulho para quem ficou na cidade — especialmente para a avó que, ao reconhecer o neto na televisão, fez chegar até o Rio de Janeiro a emoção de quem acompanhou desde o começo o sonho que um dia parecia não caber na rotina.
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