Graça Milanez Publisher do OBemdito

Primeiro fotógrafo de Umuarama preserva diversas câmeras antigas em pequeno museu

Alcides Franzoi e as câmeras fotográficas de madeira: relíquia bem guardada - Fotos: Danilo Martins/OBemdito
Primeiro fotógrafo de Umuarama preserva diversas câmeras antigas em pequeno museu
Graça Milanez - OBemdito
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 13h01 - Modificado em 15 de agosto de 2026 às 13h01

O primeiro fotógrafo de Umuarama transformou parte do tradicional Foto Ideal em um pequeno espaço de memória, onde mais de 100 equipamentos ajudam a contar a história da fotografia e da própria cidade.

Muito antes dos celulares, das selfies e das imagens compartilhadas em segundos, fotografar era um processo artesanal. Exigia conhecimento técnico, paciência e ferramentas que hoje despertam a curiosidade das novas gerações.

Cerca de 50 câmeras, além de filmadoras, flashes, ampliadores e outros objetos antigos, reunidos por Alcides Franzoi, 82 anos, conduzem o observador a uma viagem fascinante nesse universo.

Câmeras e muito mais: cerca de cem equipamentos formam o acerto do pequeno museu

Mas o verdadeiro patrimônio vai além das peças expostas. É a trajetória de Franzoi, primeiro fotógrafo profissional de Umuarama, cuja história se confunde com a do próprio município.

Ele chegou à cidade com a família no início da década de 1950. Era ainda criança quando acompanhou uma Umuarama que dava seus primeiros passos, com ruas de terra, poucas construções e um cotidiano marcado pelo trabalho no campo.

Memória afetiva: primeira câmera fotográfica profissional de Alcides Franzoi

Primeiro fotógrafo de Umuarama não quis encarar a enxada

Alguns anos depois, já adolescente, Franzoi descobriu que seu futuro não estava na agricultura. “Estudei até o terceiro ano primário e parei. Meu pai dizia: ‘Pra puxar enxada já basta’.” E foi justamente na lavoura que veio a certeza de que aquele não seria seu caminho.

Aos 16 anos, pediu ao pai autorização para ir até Terra Boa aprender fotografia com um tio. “Meu pai deixou e fui. Eu gostava muito de fotografia.”

Primeira fachada do Foto Ideal, inaugurado em 1964

Durante três anos, trabalhou das seis da manhã até a noite sem receber salário. Em troca, tinha cama, comida e a oportunidade de aprender cada etapa da profissão.

“Quando vi que estava pronto para encarar o serviço sozinho, me despedi do meu tio e voltei para Umuarama. Como ainda não tinha maioridade, meu pai abriu a empresa no nome dele.”

Foi assim que, em 1964, nasceu o Foto Ideal. Naquele período, Umuarama começava a consolidar seu crescimento urbano e comercial, abrindo espaço para o negócio de Franzoi.

“A fotografia ainda era um serviço essencial para documentos, retratos de família e acontecimentos que marcavam a vida da população”, lembra o fotógrafo, que não tem ideia de quantos casamentos, batizados e outros eventos registrou. “Foram milhares, com certeza”, dispara.

Franzoi e a primeira filmadora que chegou a Umuarama, acompanhada do gravador que usava fita magnética

Um museu para guardar a memória

A paixão pela profissão levou Franzoi a reunir equipamentos que marcaram diferentes fases da fotografia. O acervo ocupa uma vitrine do Foto Ideal voltada para a rua.

Embora não seja aberto à visitação, o pequeno museu do fotógrafo pode ser visto por quem passa em frente ao estabelecimento. São mais de 100 peças, entre câmeras analógicas, os primeiros modelos digitais lançados no mercado, filmadoras, ampliadores fotográficos e flashes.

Chapa de metal, recurso que as câmeras fotográficas utilizavam, antes de o filme de rolo, para capturar e gravar a imagem

Entre as relíquias está a primeira câmera utilizada por Franzoi, uma Miranda cuidadosamente preservada. Há também duas antigas câmeras de estúdio construídas em madeira, munidas de chapas de vidro e fole sanfonado para ajuste de foco e distância focal.

“O fotógrafo tinha que ser muito bom para conseguir foco numa câmera dessas”, comenta Franzoi. E mostra também uma máquina de fazer binóculos e lâmpadas de flash preenchidas com fios metálicos. “Eram sensíveis e eficientes.”

Bem lembrado: Franzoi e o painel com imagem de Jesus, que fazia parte dos cenários de estúdio

Muito além das câmeras

Outra peça que Franzoi aponta com orgulho é a primeira câmera VHS utilizada em Umuarama para gravações. “Foi um sucesso quando adquirimos”, lembra. Em seguida, tira da prateleira uma Kodak Love descartável. “A pessoa fazia as fotos e a máquina ia para o lixo”, explica.

Ampliadores fotográficos e outros equipamentos que ajudam a contar a evolução da fotografia estão ao lado de rádios, televisores, máquinas de escrever e diversos materiais que fizeram parte da rotina da empresa ao longo das décadas.

Um grande painel com a imagem de Jesus, utilizado durante muitos anos como cenário para retratos de estúdio, chama a atenção. Centenas de pessoas passaram pelo Foto Ideal e posaram diante daquela mesma imagem, que hoje também faz parte da memória afetiva de muitas famílias.

Recordação da primeira comunhão: crianças faziam questão de posar ao lado do painel com a imagem de Jesus

A fotografia de uma cidade que crescia

O acervo guarda também histórias curiosas da própria formação de Umuarama. Nos primeiros anos da cidade, o Foto Ideal funcionava em uma rua paralela à avenida principal, hoje Ministro Oliveira Salazar. Era por ali que passavam as boiadas.

Antes da travessia, os tropeiros avisavam os comerciantes para que fechassem as portas, porque a poeira levantada pelos animais tomava conta da rua. Franzoi registrou uma dessas passagens.

Bem antigas: câmeras de fole estão entre as que chamam bastante atenção no pequeno museu

Na fotografia, exposta no pequeno museu, aparecem centenas de bois seguindo pela via enquanto, ao fundo, surge a fachada do Foto Ideal. A cena sintetiza uma época em que a cidade ainda dividia espaço com a intensa atividade rural.

Outra lembrança que Franzoi arranca da memória está relacionada a uma das máquinas de escrever do acervo. Segundo ele, a peça testemunhou um momento importante da organização do município.

“Com ela confeccionei 28 mil títulos de eleitor. Eu fazia a fotografia e preenchia o cartão. A Justiça Eleitoral me contratou para isso.”

O negócio prosperou rapidamente

Franzoi recorda que a empresa começou suas atividades na época em que Umuarama prosperava com suas lavouras exuberantes de café. E “seu foto” acompanhava a pujança, na mesma região onde está instalado atualmente.

“Eu ganhava muito dinheiro. Com dois anos de trabalho comprei um terreno que hoje vale dois milhões de reais”, conta o fotógrafo, com orgulho.

Mas também enfrentava dificuldades. Eram dias difíceis. Para comprar chapas fotográficas, filmes, papéis, reveladores e fixadores, era preciso viajar de ônibus até Maringá.

“A viagem levava 12 horas, quando o tempo ajudava. Se chovesse, podia demorar quase o dobro”, enfatiza Franzoi, com a satisfação de ver todo o esforço recompensado.

Afinal, lá se vão mais de seis décadas, e seu Foto Ideal, que a partir de 1982 passou a contar com o sócio Álvaro Orsi, continua em atividade, atravessando todas as transformações tecnológicas — da chapa de vidro ao filme, do filme às câmeras digitais e destas aos celulares — sem perder sua identidade.

E o pequeno museu do fotógrafo é um convite para lembrar de um tempo em que fotografar exigia técnica, paciência e sensibilidade. Um tempo em que boa parte da memória de Umuarama passava pelas lentes de um homem que escolheu trocar a enxada por uma câmera.

Fotos: Danilo Martins/OBemdito

Participe do nosso grupo no WhatsApp e receba as notícias do OBemdito em primeira mão.