Neuropsicóloga alerta para os perigos do autodiagnóstico incentivado pela internet
A era digital trouxe facilidades inegáveis, mas também inaugurou um cenário de alerta para a saúde mental. O novo episódio do podcast OBemdito Saúde, debateu sobre “O comportamento humano na era do excesso de telas e da sobrecarga de informação”. A neuropsicóloga Thaís Serafim destacou como a exposição desenfreada a conteúdos sobre transtornos mentais nas redes sociais tem impactado diretamente o cotidiano e a busca por ajuda especializada.
Segundo a especialista, embora a internet tenha democratizado o acesso à informação e encorajado pessoas a buscarem apoio de forma autônoma, a qualidade desse conteúdo preocupa.
É cada vez mais comum que pacientes cheguem aos consultórios portando diagnósticos prontos, baseados em vídeos virais ou trends das plataformas digitais.
“Acontece muito de chegarem no consultório já com o diagnóstico pré-definido. ‘Doutora, eu já sei que eu tenho TDAH’ ou ‘eu me encaixo em todos aqueles sintomas, eu sou autista e só preciso da confirmação’. Isso me preocupa muito”, pontua Thaís Serafim.
Os perigos do autodiagnóstico
A neuropsicóloga alerta que o autodiagnóstico — quando o indivíduo se identifica apenas com sintomas isolados sem a validação de um profissional — pode gerar prejuízos severos ao desenvolvimento pessoal. Nesses casos, o suposto transtorno passa a ser adotado como uma “muleta” para justificar dificuldades cotidianas, funcionando muitas vezes como uma resposta equivocada que atrapalha o verdadeiro progresso do indivíduo.
Para diferenciar uma dificuldade comum do dia a dia de um quadro clínico real, Thaís Serafim aponta três critérios fundamentais:
- Frequência: O sintoma não ocorre de vez em quando, mas sim de maneira recorrente.
- Intensidade: A manifestação da dificuldade é forte e impactante.
- Prejuízo generalizado: O sintoma interfere de forma ampla e simultânea nos âmbitos pessoal, profissional e acadêmico da vida da pessoa.
O impacto das telas e o mito do “zero telas”
Questionada sobre os efeitos do uso excessivo de aparelhos eletrônicos, a especialista é categórica: pesquisas já comprovam os prejuízos negativos, que incluem maior propensão à irritabilidade, distração e agitação corporal.
No entanto, ela ressalta que uma postura proibicionista de “zero telas” são irrealistas no mundo tecnológico atual.
A recomendação para crianças, por exemplo, exige mediação rigorosa:
- Até os 2 anos: A orientação mundial é de exposição zero.
- Após essa idade: O uso deve ser consciente, pedagógico, controlado quanto à classificação indicativa e limitado no tempo (cerca de uma hora diária para crianças).
- Horários críticos: Evitar o uso logo ao acordar e imediatamente antes de dormir (após as 18h), pois prejudicam a qualidade do sono e o descanso cerebral.
A busca por autoconhecimento entre os adultos
Se antes a avaliação neuropsicológica era procurada majoritariamente por pais preocupados com o desenvolvimento escolar dos filhos, hoje o cenário mudou.
O consultório de Thaís Serafim registra um equilíbrio, com um crescimento expressivo na busca por parte de adultos.
Isso ocorre não apenas pelo acesso facilitado à informação, mas pela quebra do tabu em relação à saúde mental e pela evolução da própria ciência.
Adultos que hoje investigam hipóteses como o TDAH muitas vezes entendem que suas dificuldades de infância não foram identificadas na época simplesmente porque os critérios clínicos e o conhecimento científico de trinta anos atrás eram limitados.
Dicas práticas para o dia a dia
Para lidar com a aceleração do mundo moderno e amenizar a ansiedade, a neuropsicóloga recomenda estratégias simples que ajudam a organizar a rotina:
- Planejamento visual: Uso de planners, post-its e rotinas visuais para estruturar o dia e focar nas prioridades.
- Fragmentação de tarefas: Dividir problemas complexos e extensos em pequenas metas diárias para evitar a procrastinação.
- Atividade física regular: Fundamental para a regulação dos neurotransmissores, redução da ansiedade e melhora da qualidade do sono.
- Atividades sensoriais: Práticas que utilizam as mãos e exigem foco e concentração — como cozinhar, fazer jardinagem ou trabalhos manuais —, desde que sejam prazerosas para o indivíduo.
Nota da redação: Conteúdos informativos de podcasts e reportagens não substituem a avaliação médica ou psicológica presencial. Caso identifique sinais de sofrimento psíquico, procure sempre um profissional especializado.





