Foto: Magnific
As mudanças climáticas já afetam diretamente a rotina dos brasileiros e podem trazer novos desafios para a saúde pública nos próximos meses. Com a confirmação do fenômeno El Niño, especialistas alertam para o aumento do risco de doenças infecciosas, problemas de saúde mental e sobrecarga nos serviços de atendimento.
Uma pesquisa realizada pelo Aurora Lab em parceria com a More in Common Brasil apontou que 85% dos brasileiros acreditam que as mudanças climáticas já impactam o dia a dia da população. Entre os principais efeitos percebidos estão o aumento do custo de vida (53%), problemas de saúde física (45%), dificuldades para trabalhar (40%) e prejuízos à saúde mental (32%).
No Brasil, os efeitos do El Niño variam de acordo com cada região. Enquanto o Sul costuma enfrentar períodos de chuvas mais intensas, com maior risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos, o Norte e o Nordeste tendem a registrar estiagens prolongadas e temperaturas acima da média.
Segundo a infectologista Viviane Hessel, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, eventos climáticos extremos elevam significativamente o risco de doenças infecciosas, principalmente após enchentes.
Entre as enfermidades que mais preocupam estão a leptospirose, transmitida pelo contato com água contaminada pela urina de ratos, além da hepatite A e diversas infecções gastrointestinais.
“A bactéria da leptospirose pode penetrar pela pele durante o contato com água contaminada. Além disso, quando famílias precisam deixar suas casas, aumentam as dificuldades de acesso à água potável, alimentação, medicamentos e atendimento médico”, explica a médica.
A especialista destaca ainda que abrigos temporários e outros ambientes coletivos favorecem a disseminação de doenças respiratórias, especialmente entre crianças, idosos e pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Outro ponto de preocupação é o impacto das altas temperaturas na disseminação de bactérias resistentes aos antibióticos.
De acordo com Viviane Hessel, já existem evidências científicas de que o aumento do calor facilita a troca de genes de resistência entre bactérias presentes tanto na comunidade quanto em ambientes hospitalares.
“Dependendo do perfil de resistência, a bactéria deixa de responder aos antibióticos normalmente utilizados, reduzindo as opções de tratamento e dificultando o manejo clínico dos pacientes”, afirma.
Um estudo publicado em maio de 2026 na revista científica The Lancet Planetary Health identificou um crescimento global de 10% nos genes relacionados à resistência aos antibióticos. A pesquisa analisou mais de 480 mil genomas da bactéria Salmonella coletados em 139 países entre 1940 e 2023.
Segundo especialistas, o cenário representa um desafio crescente para hospitais e serviços de saúde, já que infecções provocadas por microrganismos resistentes costumam demandar tratamentos mais complexos e apresentar maior risco de complicações.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) também recomenda que os países reforcem a vigilância epidemiológica e ampliem a estrutura dos serviços de saúde para enfrentar os impactos provocados pelos eventos climáticos extremos.
(Informações: Banda B)
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