Paraná

Defesa diz estar ‘às cegas’ e famílias com ‘fome de justiça’ no caso das 4 mortes de Icaraíma

Nove meses após o crime que revelou um cenário de violência e organização no meio rural do Paraná, o caso da morte de quatro homens em Icaraíma ainda não teve desfecho. Sem prisões efetivadas até o momento, a investigação segue sob sigilo, enquanto familiares das vítimas cobram respostas e a defesa dos suspeitos questiona a condução do processo.

Apontados como principais investigados, Antônio Buscariollo, de 67 anos, e o filho dele, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 23 anos, permanecem foragidos desde 8 de agosto de 2025, quando tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça.

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As vítimas Alencar Gonçalves de Souza Giron, Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Marascalchi e Robishley Hirnani de Oliveira desapareceram após um encontro na zona rural e, posteriormente, tiveram as mortes confirmadas. A suspeita é de que tenham sido atraídos para uma emboscada ligada a um conflito financeiro envolvendo uma propriedade.

Entre a espera e o luto, familiares relatam o impacto contínuo da ausência. Esposa de Rafael Marascalchi, Meire falou a OBemdito sobre os meses sem respostas e a dificuldade de lidar com a rotina marcada pela lembrança constante do marido. “Essas postagens da minha filha me consomem. Eu quero ver a justiça sendo feita”, afirmou, emocionada.

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A filha do casal, Giovanna Marascalchi, de 14 anos, tem mantido ativa a memória do pai nas redes sociais. Nesta terça-feira (5), ela publicou uma imagem de infância em que aparece sendo erguida nos braços por Rafael. Para a mãe, cada publicação reforça a dor da perda.

Meire também disse que pretende retornar em breve a Icaraíma para acompanhar de perto o andamento das investigações. Segundo ela, a presença na cidade tem sido uma forma de pressionar por respostas.

Giovanna Marascalchi, de 14 anos, relembra o pai em publicação nas redes sociais e reforça pedido por justiça após nove meses do crime

Última visita a Icaraíma

A última visita ocorreu em novembro de 2025, quando esteve acompanhada de Fabricia Affonso, esposa de Diego Henrique Affonso. Na ocasião, as duas passaram por locais ligados aos últimos momentos das vítimas.

“Eu acostumei a vir aqui, porque, para saber de algo, tenho que estar presente. Viro noites viajando, mas, se a gente não vier, nada acontece. Só queremos justiça”, disse Meire na época.

Fabricia Affonso, a advogada da família e Meire durante visita a Icaraíma, onde acompanharam pontos ligados ao desaparecimento das vítimas

Defesa pede acesso ao processo

Enquanto as famílias cobram respostas, a defesa dos investigados sustenta que enfrenta dificuldades para acessar o processo. O advogado Renan Farah afirmou que não houve avanços relevantes desde o início das investigações.

“Até a presente data não teve nenhuma alteração processual, nada da qual a defesa tenha tido acesso e tampouco algo que a gente tenha sido intimado a nos manifestar”, declarou.

Segundo ele, foram apresentados pedidos de revogação da prisão preventiva, ainda em análise pelo Tribunal de Justiça do Paraná.

“A defesa segue um pouco às escuras, às cegas, mas a gente luta para ter acesso pleno para que possamos fazer o contraditório e o devido processo legal”, afirmou.

Advogado afirma que defesa segue sem acesso completo ao processo e diz atuar “às cegas” no caso

O caso

As investigações indicam que o conflito teve origem na negociação de um sítio de cinco alqueires, avaliado em cerca de R$ 750 mil, no distrito de Vila Rica do Ivaí. De acordo com a Polícia Civil, Alencar teria comprado o imóvel de Antônio Buscariollo, com pagamento inicial de R$ 255 mil. O restante seria financiado, mas o crédito não foi aprovado, levando ao distrato.

O acordo previa a devolução do valor em parcelas, o que não teria sido cumprido integralmente, dando início à cobrança. Para isso, Alencar teria recorrido a Diego Affonso, que levou outros dois homens do interior paulista.

No dia 5 de agosto de 2025, o grupo voltou à propriedade rural dos investigados. Conforme laudos periciais, os quatro homens foram mortos por volta das 12h30, com múltiplos disparos de armas de diferentes calibres. A análise aponta uma execução e a participação de mais de um atirador.

Quatro homens foram mortos após emboscada em área rural de Icaraíma; caso segue sem prisões nove meses depois

A caminhonete em que estavam foi localizada mais de um mês depois, enterrada em uma estrutura subterrânea semelhante a um bunker, em área de mata. No local, havia vestígios de sangue, perfurações por tiros e objetos pessoais das vítimas.

Durante as buscas, a Polícia Civil identificou ao menos 22 estruturas subterrâneas na propriedade, incluindo cinco bunkers de alvenaria e outros esconderijos improvisados. Segundo os investigadores, esses espaços poderiam ser utilizados para ocultação de armas, drogas e veículos.

Os corpos das vítimas foram encontrados semanas depois, enterrados em uma área próxima e já em avançado estado de decomposição.

Apesar dos elementos reunidos, o caso segue sem uma conclusão. Entre o silêncio da investigação, os questionamentos da defesa e a dor das famílias, somente a prisão dos suspeitos poderá realmente esclarecer e definir o caso.

Apontados como principais suspeitos, pai e filho seguem foragidos desde agosto de 2025 após decretação da prisão preventiva

(Com imagens do OBemdito, arquivo familiar e O Liberal)

Rudson de Souza

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