Rudson de Souza Publisher do OBemdito

Chacina de Icaraíma completa 9 meses no dia em que Alencar Gonçalves faria 37 anos

"Tem coisas que eu olho hoje e penso que, se ele estivesse aqui, eu estaria tranquila", diz Alesandra Gonçalves de Souza, sobre o irmão Alencar (Foto Arquivo familiar)
Chacina de Icaraíma completa 9 meses no dia em que Alencar Gonçalves faria 37 anos
Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 5 de maio de 2026 às 15h00 - Modificado em 5 de maio de 2026 às 17h49

O calendário avançou, mas há datas que não seguem adiante. Elas permanecem. Ganham novos significados, mais densos, mais difíceis de atravessar.

Nesta terça-feira, dia 5 de maio, quando se completam nove meses do desaparecimento e da morte de Alencar Gonçalves de Souza Giron, a família enfrenta uma coincidência que parece desafiar qualquer lógica do tempo. É também o dia em que ele completaria 37 anos.

A revelação foi feita pela irmã, Alesandra Gonçalves de Souza, em entrevista recente a OBemdito. A data, que antes era motivo de celebração, agora se tornou um dos pontos mais sensíveis de uma história que ainda não encontrou desfecho.

“Dia 5 de maio não vai ser só nove meses da perda do Alencar, mas seria o aniversário dele. Então, para nós, vai ser um dia muito difícil, muito difícil mesmo”, disse.

A fala não carrega revolta. Carrega memória. Alesandra lembra de uma tradição simples, repetida ano após ano. A família fingia esquecer a data durante o dia. À noite, se reunia. Havia bolo, surpresa, riso contido até o momento certo.

“Era sempre assim. A gente passava o dia fingindo que não tinha nada. Quando chegava a noitinha, se reunia todo mundo, cantava parabéns. No ano passado eu comprei uma camisa para ele, muito linda.”

A camisa, como tantas outras coisas, virou detalhe de uma ausência.

“Ele usou uma vez só. No dia que ele desapareceu, estava com outra que ele gostava muito, que tinha comprado no Pará.”

O relato revela o tipo de lembrança que o tempo não dissolve. Pequena, específica, íntima.

Família Gonçalves de Souza reunida na propriedade da família (Foto Arquivo familiar)

O caso

Nove meses depois, o caso de Icaraíma ainda permanece sem respostas definitivas. Alencar Gonçalves de Souza Giron foi morto ao lado de Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Marascalchi e Robishley Hirnani de Oliveira após uma emboscada ligada a um conflito financeiro envolvendo uma propriedade rural.

As investigações da Polícia Civil apontam que os quatro foram executados com disparos de diferentes calibres, em uma ação que indica participação de mais de um atirador. A caminhonete em que estavam foi ocultada em um bunker subterrâneo, e os corpos só foram encontrados semanas depois, em área de mata.

Os principais suspeitos, Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, seguem foragidos.

Para a família, no entanto, o tempo do processo judicial não acompanha o tempo da ausência.

O dia 5 de maio sintetiza isso. Não haverá surpresa. Não haverá bolo. Não haverá o ritual que, até então, parecia garantido. “Vai ser um 5 de maio bem diferente, bem triste. Não vai ter surpresa, não vai ter bolo, não vai ter parabéns”, disse Alesandra.

Ainda assim, há algo que permanece. A memória. E uma espera que não se desfaz com o passar dos dias.

Entre a data que marca o crime e aquela que celebraria a vida, a família encontra um espaço difícil de nomear. Um lugar onde a saudade se impõe, mas não paralisa. Onde a dor convive com a necessidade de seguir.

Nove meses depois, o caso continua aberto. E, para quem ficou, o tempo segue contando de outra forma.

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