Momento feliz: participantes do grupo com uma das idealizadoras do projeto, a agente comunitária de saúde Lilian Guimarães - Fotos: Graça Milanez/OBemdito
Um, dois, três… 64 pontos formam uma correntinha das mais de cem que completam o tapete que a moradora do Panorama, Bernadete Rodrigues da Silva, 70 anos, está fazendo. Ela participa do grupo de mulheres que integram o ‘Conversando com crochê’, um projeto de interação desenvolvido pela equipe do ESF – Estratégia Saúde da Família [Posto de Saúde] do bairro.
Bernadete conta que “não sabia nada”, mas tinha muita vontade de aprender. “Agora já sei”, orgulha-se, mostrando o tapete, já bem adiantado, que está fazendo e outro, pronto. “Eu sei que tinha curso na cidade pra ir, mas não horário de ônibus; agora aqui é pertinho e é de graça!”.
E diz mais: “Eu não acreditava que ia aprender… achava que não tinha ‘cabeça’ pra isso! Mas me enganei; estou muito contente, até porque, depois que entrei nesse grupo, melhorei da insônia… Está sendo muito bom pra mim”.
A ideia é essa, mesmo: servir de ‘terapia’ para as mulheres interessadas em participar, voltada a estimular a convivência e trocar experiências, valorizando as habilidades de cada uma e, acima de tudo, promover melhoria na saúde mental.
“Percebemos que tinha muita mulher depressiva em casa”, diz a agente comunitária de saúde Gisele de Medeiros, 42 anos, ao explicar a criação do grupo, ideia que o pessoal do PA alimentava desde o final do ano passado.
“Tínhamos o sonho e só… Mesmo sem verba, decidimos pôr em prática indo atrás de doações de linha e agulhas e conseguimos o suficiente para começar”, conta, empolgada. Com ela, coordena os trabalhos do grupo Lilian Guimarães, 44 anos, também agente comunitária de saúde.
“Estamos direcionando nossos objetivos agora para tornar o projeto autossustentável, vendendo os tapetes que produzimos, mas por enquanto ainda dependemos de doação e vamos em busca”, salienta Lilian. O projeto segue com todo o apoio do chefe do ESF, enfermeiro Washington Rogério de Souza, 39 anos.
Tanto as coordenadoras, quanto as participantes alegam em bom tom que não se trata de aula de crochê, mas uma roda de conversa. “Aqui umas aprendem, outras ensinam… Tem as que vão além, aprimorando o que já sabem nessa troca de informação, mas o objetivo mesmo é bater papo, jogar conversa fora”, reafirma Gisele.
“Eu sei fazer crochê desde mocinha, mas continuo aprendendo e o melhor: participando de momentos alegres! Aqui a gente brinca, dá risada… É uma tarde muito gostosa!”, conta Anecy Oncken, 71 anos.
“Psiquiatras mandam a gente fazer crochê, porque, dizem, é uma terapia! E a gente faz, acha bonito o que faz e se valoriza”, acrescenta a aposentada Elza Bertucci, 69 anos.
Já Aparecida de Oliveira, 70 anos, não sabe fazer. “Mas tenho certeza que vou aprender, porque as que sabem ensinam de um jeito bem fácil, são muito queridas!”, afirma.
Entre essas ‘professoras’ do grupo está a Sônia Evangelista, 62 anos, protagonista de uma história em relação ao crochê cativante. Ela lembra que o desejo de aprender surgiu na infância, quando viu uma toalhinha de mesa na casa da patroa da mãe e se encantou.
“Lembro bem dessa cena! Naquele momento eu cismei que queria aprender a fazer crochê”, conta, rindo. E foi o que fez, improvisando.
“Como meus pais não tinham dinheiro para comprar linha e agulha, peguei um galhinho de árvore, com uma curvinha na ponta; a linha, aproveitava aqueles barbantes de sacos de açúcar e farinha [que antigamente eram fechados com uma costura] e comecei fazendo correntinhas… Aprendi assim”, relembra.
“Depois, emendava todas [as correntinhas] com a agulha de costura e fazia roupinha de boneca… Lembro que eu ficava muito feliz; reconhecendo minha força de vontade, minha avó comprou linha e agulha pra mim e daí fiz meu primeiro chapéu de crochê… Eu tinha 12 anos; uma amiga me ensinou.”
Além de crochê, atualmente Sônia faz tricô, macramê, costura, faz bolo e doces para vender e é cuidadora de idosos.
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