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Ítalo Fábio Casciola Publisher do OBemdito

Os frágeis ranchinhos de palmito, as primitivas moradias antes das casas de madeira

Essas cabanas “arqueológicas” merecem se lembradas na história da arquitetura rural

Foto: Acervo Exclusivo de Italo Fábio Casciola
Foto: Acervo Exclusivo de Italo Fábio Casciola
Os frágeis ranchinhos de palmito, as primitivas moradias antes das casas de madeira
Ítalo Fábio Casciola - OBemdito
Publicado em 7 de julho de 2024 às 15h15 - Modificado em 7 de julho de 2024 às 17h52
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Quando se fala em palmito, a primeira ideia que nos vem à cabeça é saborear uma deliciosa salada ou uma saborosa sopa com carnes. É de encher a boca d’água, pois é uma das preciosidades da típica culinária brasileira…

Muitos vão estranhar e até mesmo achar graça, mas antigamente (e põe antigamente nisso!) em Umuarama esse tipo de palmeira servia para a construção de moradias, rudes, porém proporcionavam um teto mais seguro do que uma barraca de lona, para proteger-se da chuva e até mesmo dos bichos que habitavam as matas.

Esse tipo de casas, famosas em verso e prosa como ranchinhos, foram erguidas na fase pré-fundação da cidade, bem antes da chegada das serrarias. Aqui em Umuarama, as primeiras desse tipo foram feitas na Colônia Mineira, antes da pensão, do acampamento e da própria serraria do mesmo nome.

Recordações ouvidas por este repórter de “pioneiros da gema”, aqueles verdadeiros desbravadores do Noroeste, davam conta que os trabalhadores que derrubaram a mata para construir a pista (de terra) do primeiro aeroporto moraram em barracos desse tipo. Bem depois é que veio a ser instalada a lendária Serraria Mineira, de onde saíram as primeiras madeiras beneficiadas para começar a levantar as casas de peroba dos moradores precursores de Umuarama.

Diziam também que havia muitos ranchos de palmito ao longo da primeira trilha, que depois daria lugar à estrada-mestre vinda de Maringá, que serviam de abrigos provisórios para os andarilhos, aventureiros e caçadores.

Esse tipo de habitações primitivas foram desaparecendo ao longo do ciclo da exploração da madeira no território, pois a grande maioria passou a construir suas moradas de tábuas. Só permaneceu nos ranchos quem não tinha recursos para comprar a madeira, que não era tão barata quanto se imagina hoje. Mas, embora autênticas raridades, ainda deve haver umas poucas perdidas no campo. São verdadeiras peças “arqueológicas” da história da arquitetura rural.

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Foto: Acervo Exclusivo de Italo Fábio Casciola

Aliás, nunca se falou desse tipo de arquitetura, pois quando alguém se remete à construção da antiga Umuarama, relembra apenas a fase em que predominou a construção à base da madeira, digo, perobas… É preciso obedecer a ordem cronológica dos fatos e, é dever registrar que essa fase mais “moderna” teve como antecessora o uso do palmito. O beneficiamento da madeira, vamos dizer “mais nobre”, só veio a ocorrer depois que foram montadas as serrarias, loteada a área reservada à cidade e iniciada a agricultura.

Nos primeiros anos da colonização, levas de pioneiros foram chegando para derrubar a mata virgem, a fim de demarcar as terras e iniciarem uma nova história. Foi nesse período que foram surgindo as casinhas de palmito para moradia provisória. E, por sorte, uma das árvores mais abundantes era o palmito, do tipo “Jussara”, como eles a chamavam. É uma espécie de palmeira que só brota à sombra da mata fechada, distante da luz do sol. Demora muito a crescer, mas chega a atingir a altura notável de até 18 metros.

Seus troncos, muito resistentes, eram divididos longitudinalmente em duas metades, corte apropriado para servir de paredes para os ranchos. Os mais fortes, serviam de estrutura para a construção. Como não havia telhas, a cobertura era feita com tabuinhas, também de palmito. Para talhar ambos, eram usados machados afiados.

Alguns construtores, mais caprichosos e zelosos, procuravam preencher os vãos que ficavam nas paredes, entre um tronco e outro, com uma mistura de barro e capim. As janelas, muito simples, tinham duas folhas (tábuas). Para evitar qualquer faísca e riscos de incêndio, a cozinha (com fogão a lenha) era separada por um espaço, espécie de corredor, do lado de fora da casinha. Tempos depois, com os fogões com chapas de ferro e chaminés, é que as cozinhas foram incorporadas aos ranchos.

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Foto: Acervo Exclusivo de Italo Fábio Casciola

Esses ranchos não eram muito espaçosos, pois a construção não poderia ser muito grande, evitando que o peso fizesse a casa desabar. O piso era de chão batido, anti-higiênico e incômodo para seus moradores.

Quando ouvimos alguma música do cancioneiro caipira, percebemos que há alusões aos tais ranchinhos. Mas de uma forma romântica, apaixonada e simpática. A pura verdade é que eles não tinham nada, absolutamente nada, de confortável ou digno de ser lembrado com saudade. Viver numa habitação dessa era absolutamente cruel e desumano: no calor, pareciam fornos, e no frio, uma geladeira. Além disso, era comum se alojarem insetos, muitos deles transmissores de doença graves.

Deve-se observar ainda, o aspecto social dessa questão: existia o preconceito contra quem morava num rancho, sendo considerado um miserável, despossuído de fortuna e sorte. Lamento registrar, mas alguns intolerantes citadinos torciam o nariz quando visitavam os sítios e as fazendas longínquas onde haviam colonos morando nessa espécie de barracos. Chamavam-nos de “tocas de jacu” (a referência “jacu” era um depreciativo ao caipira, homem honesto e trabalhador que dava duro de sol a sol laborando na roça).

Felizmente, muitos desses antigos viventes de ranchos de palmito, por obra de seu trabalho duro e as bênçãos divinas, prosperaram graças às generosas colheitas de café e outros grãos. Puderam erguer as suas tão sonhadas casas de peroba, onde criaram seus filhos. Mostraram sua fibra cabocla e seu caráter de boa gente, superando as desventuras e cumpriram as jornadas da vida como vencedores! (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO)

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Foto: Acervo Exclusivo de Italo Fábio Casciola

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