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DPE-PR participa de projeto para debater racismo junto a agentes de segurança pública

Foto: Assessoria Defensoria Pública do Paraná
DPE-PR participa de projeto para debater racismo junto a agentes de segurança pública
Redação
OBemdito
27 de janeiro de 2022 19h59

Enfrentar o racismo institucional e outras formas de discriminação por meio de um diálogo efetivo entre as instituições do sistema de justiça criminal. Essa é a proposta do projeto “Diálogos com a rede”, que ocorre em Londrina, e do qual a Defensoria Pública do Paraná é participante ativa, ao lado do Ministério Público do Estado do Paraná, Universidade Estadual de Londrina, Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, Secretarias Municipais, Guarda Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil, Conselho Tutelar, Departamento de Polícia Penal do Paraná.

Um dos principais focos do projeto é debater temas como racismo e questões de gênero e LGBTQIA+ junto a agentes de segurança pública como a Polícia Militar e a Guarda Municipal. A DPE-PR é representada no “Diálogos com a Rede” pelo psicólogo Clodoaldo Porto Filho, um dos organizadores dos encontros e também integrante da Comissão de Relações Étinico-Raciais da Associação dos Servidores e Servidoras Públicas da Defensoria Pública do Paraná (Assedepar). 

Até o momento, já ocorreram cinco encontros, e o próximo está previsto para fevereiro. No primeiro módulo, que ocorreu nos dias 23/09, 5/10 e 25/10, discutiu-se um tema complexo e que exige capacidade de escuta ativa por parte daqueles que não vivenciam a discriminação: o racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira. 

No segundo módulo, que ocorreu nos dias 23/11 e 02/12, foram discutidas questões de gênero e LGBTQIA+. O terceiro encontro deste módulo deve ocorrer em fevereiro. Nos encontros, os(as) presentes realizam uma dinâmica para que possam se conhecer melhor e para que um possa entender a vivência do outro; além de repassar um conteúdo teórico, a metodologia do projeto permite a fala aberta e a troca de experiência, sem julgamentos sobre a atuação de quem está presente.

 “A ideia desse trabalho nasce com a perspectiva de fazer uma ação junto aos agentes de segurança. Nas conversas iniciais com alguns atores e atrizes sociais que foram chamados para pensar esse trabalho, nós percebemos que havia uma necessidade de fazer uma atuação mais voltada para a questão inclusiva [de incluir os agentes de segurança, afirma o psicólogo Clodoaldo Porto Filho. 

O servidor da DPE-PR, que atua em Umuarama, explica que a intenção não foi apenas de discutir o racismo dentro da polícia, mas sim de preparar um diálogo com esses profissionais dentro de uma abordagem integrada a outros serviços. 

“Eu participei ativamente desse primeiro módulo que já se encerrou, e foi bem interessante. Tivemos a participação de professoras da Universidade de Londrina, de uma promotora, de um desembargador, e de várias outras pessoas da comunidade. Nós trabalhamos com aulas expositivas e com diferentes dinâmicas, com métodos de resultados ativos, com vários mecanismos de exposição para realizar essas discussões, sempre na perspectiva de ouvir o que essas pessoas têm a dizer”, comenta.

A promotora de justiça que atua na área Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná em Londrina, Susana Broglia Feitosa de Lacerda, participou do “Diálogos com a rede”, e conta que o projeto influenciou positivamente o seu trabalho, na medida em que ele foi desenvolvido de maneira horizontal e com humanidade.

“Ultimamente, com a presença de integrantes negros e negras nessas instituições, é que esses espaços estão sendo abertos. Hoje em dia se tem dado cada vez mais espaço para a discussão do racismo, mas nem sempre a presença de pessoas negras abre essa discussão ou esse espaço. Inclusive, isso nós ouvimos de policiais negros, que, com 30 anos de carreira, nunca tinham tido oportunidade dentro da corporação de falar sobre o racismo que sofrem, quer seja trabalhando, quer na vida pessoal”.

O desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná Ruy Muggiati também elogia a metodologia e os resultados do projeto.

“Participei de um encontro, como visitante, para aprender a metodologia com os integrantes do grupo. Mas pude perceber que a discussão percorreu um caminho bastante produtivo, possibilitando desvendar as raízes culturais do pensamento e do comportamento conduzidos por preconceitos de raça e etnia, os quais permeiam todos os setores da sociedade brasileira, criando vulnerabilidades individuais e coletivas, estigmas e sofrimentos psíquicos, cuja existência não se harmoniza com o anseio de uma sociedade que almeja ser justa, fraterna e igualitária”.

O Major da 4ª Companhia da Polícia Militar em Londrina, Marcos Antonio Tordoro, relatou sobre como essa conversa foi de extrema importância para abrir caminhos para um diálogo franco e efetivo. “O projeto foi muito importante, para mim e para todos os outros policiais militares que participaram. As pessoas puderam estar numa Unidade Policial Militar, conhecer os policiais militares, ouvi-los e entender que policiais militares também passam por angústias, por problemas. Foi algo inovador, algo que quebra barreiras e paradigmas, e que constrói pontes, liga e integra pessoas, segmentos e instituições”, declarou o Major. 

O Tenente da PMPR Danilo Alexandre Mori Azolini também enfatizou a necessidade de unir diferentes pessoas, de diferentes instituições para melhorar a comunicação e assim buscar aperfeiçoar as relações. 

“Muitas vezes, abordamos questões a respeito do sistema de justiça como um todo, do sistema de segurança pública. Nós sabemos quem são os órgãos, mas dificilmente conseguimos espaços de diálogos entre os servidores, entre as pessoas que os representam. A horizontalidade traz benefícios que permitem que todos possam se pronunciar e possam ouvir anseios, desejos, dificuldades, obstáculos e desafios de outros órgãos, para tentar ajudar a sua própria instituição e ver como ela pode melhorar para poder prestar um serviço melhor para sociedade”, refletiu o tenente. 

Confira declarações dos(as) participantes do projeto:

No projeto, nos foram apresentadas vivências das mais diversas pessoas, que hoje são psicólogos e estão na Defensoria, são policiais e estão na corporação, são psicólogos e estão trabalhando para a polícia, guardas municipais; e essas vivências servem, da minha ótica de mulher branca, para entender e compreender muita coisa. Também entender que as violências que mulheres brancas sofrem não são as mesmas violências que as mulheres negras sofrem” – Susana Broglia Feitosa de Lacerda – Promotora de Justiça em Londrina

“O racismo e a discriminação podem funcionar como critérios de seletividade que atuam pela mão invisível da cultura e do preconceito. A discussão sobre tais temas pode fazer jorrar luz sobre essa problemática e ampliar a visão dos agentes aplicadores da lei” – Ruy Muggiati – Desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná

“Todos puderam nos ouvir, e tivemos a oportunidade de ouvir o que as pessoas negras passaram e ainda passam, e quais são as expectativas que todos têm. Foram encontros poderosos de crescimento, de conhecimento,das instituições, mas, sobretudo, de conhecimento das pessoas” – Marcos Antonio Tordoro – Major da 4ª CIA da Polícia Militar em Londrina

“Esse projeto vem com o intuito de realizar essa troca de experiência, esse compartilhamento de conhecimento, e essa produção coletiva ajuda as instituições a terem uma maior proximidade com demandas de outras instituições que, dentro de um mesmo sistema, de um mesmo ciclo, acabariam tendo algum tipo de conexão” – Danilo Alexandre Mori Azolini – Tenente da Polícia Militar

(Assessoria Defensoria Pública do Paraná)

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