EDITORIAL: Quando a política em Umuarama flerta com o esgoto, quem ganha são as fezes
A campanha eleitoral começou a pegar fogo em Umuarama. E não é fogo amigo. Às vésperas da votação, quando o eleitor deveria estar comparando propostas, trajetórias e compromissos, o debate político local dá sinais preocupantes de que pode descer ao terreno da baixaria.
Montagens, vídeos recortados, associações indevidas de informações e conteúdos construídos para induzir o eleitor a determinada interpretação começam a disputar espaço com aquilo que deveria ser o centro de qualquer eleição: o que cada candidato pretende fazer pela população.
É um caminho perigoso. E profundamente lamentável.
O portal OBemdito tem defendido nesta eleição a importância da representatividade regional. Essa posição é pública e antecede as disputas dos últimos dias. Por dias, este veículo realizou uma série de entrevistas com candidatos justamente para oferecer espaço à apresentação de propostas, trajetórias e compromissos com Umuarama e os municípios do Noroeste.
Por isso, causa ainda mais preocupação assistir a candidatos com inserção regional, estrutura política e capacidade de disputar uma eleição competitiva desperdiçarem energia em ataques pessoais ou em peças cuja força depende mais da distorção do que do debate de ideias.
Não importa de qual campanha parta.
Uma montagem não se torna aceitável porque prejudica o adversário. Uma informação não pode ser retirada de seu contexto e associada a outra de maneira a produzir uma conclusão falsa. E uma disputa eleitoral não autoriza ninguém a transformar insinuação em fato.
Há uma diferença fundamental entre crítica política e desinformação. Questionar a atuação pública de um candidato, confrontar propostas, comparar votações, cobrar coerência e examinar o passado político são atividades legítimas –e necessárias. Outra coisa é manipular contexto ou estabelecer associações que os fatos não sustentam.
O problema ultrapassa a disputa entre candidatos.
Quando uma eleição abandona as propostas para mergulhar na guerra de versões, o primeiro prejudicado é o eleitor. Ele deixa de discutir saúde, infraestrutura, geração de empregos, segurança, educação, desenvolvimento regional e capacidade de articulação política para gastar seu tempo tentando descobrir se determinado vídeo é verdadeiro, se uma imagem foi manipulada ou se uma afirmação foi retirada do contexto.
O fenômeno está longe de ser apenas local. Levantamento do projeto VigIA, da agência Lupa, identificou 554 deepfakes circulando durante a campanha eleitoral de 2026 até 28 de setembro, dentro de um universo de 920 publicações eleitorais que utilizaram inteligência artificial. Parte delas saiu de perfis ligados a candidatos ou partidos.
Em Umuarama, o momento exige responsabilidade ainda maior.
A cidade já viveu períodos de forte representação política e chega novamente a uma eleição em que diferentes candidaturas locais e regionais disputam vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. O próprio OBemdito lembrou recentemente que Umuarama já conseguiu eleger três deputados estaduais em uma mesma legislatura.
É justamente por isso que a deterioração do debate preocupa. Candidatos competitivos não precisam transformar adversários em inimigos. Muito menos recorrer a expedientes que confundam o eleitor.
Quem pretende representar mais de 80 mil eleitores de Umuarama (o município tem 83.194 pessoas aptas a votar neste domingo) deve aceitar o contraditório e sustentar sua candidatura com propostas, histórico e argumentos verificáveis.
A baixaria pode produzir curtidas. Pode gerar compartilhamentos. Pode mobilizar militâncias durante algumas horas. Mas também pode ampliar o desencanto de uma parcela do eleitorado que já observa a política com desconfiança.
E existe um efeito ainda mais grave para Umuarama: enquanto candidatos da própria região se ocupam em destruir uns aos outros, candidaturas de fora continuam buscando votos aqui.
Não se trata de pedir uma campanha sem críticas. Democracia não é concurso de cordialidade. O confronto político é legítimo e saudável quando baseado em fatos. Candidato deve ser questionado, confrontado e cobrado. O que não serve ao eleitor é substituir esse confronto por manipulação, insinuação ou associação enganosa de informações.
Que cada candidato mostre sua história. Apresente suas propostas. Explique por que pretende representar a região. Responda às críticas. E deixe que o eleitor faça sua escolha.
Porque, quando a disputa política desce ao nível de esgoto, não existe vencedor para Umuarama a não ser a própria merda.
Quem perde é a região.
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