Casas Bahia deixa R$ 54 milhões em dívidas para indústrias de Umuarama e abre espaço no varejo
A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia já produz efeitos que ultrapassam as lojas da varejista. Em Umuarama, três empresas do setor moveleiro aparecem na relação de credores apresentada no processo, com um total de R$ 54 milhões em valores a receber.
A maior exposição é da Umaflex Móveis e Colchões, com R$ 24,5 milhões. A Hellen Móveis e Colchões aparece com R$ 15,7 milhões, enquanto a Cama Inbox tem R$ 11,8 milhões a receber.
Juntas, as três empresas concentram uma parcela expressiva dos valores que a crise da varejista coloca sob atenção do setor produtivo de Umuarama. O caso ainda está em andamento e os créditos estarão sujeitos às regras do processo de recuperação judicial.
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Procuradas pelo OBemdito, Cama Inbox e Hellen Móveis e Colchões informaram que não irão se pronunciar sobre o assunto. A Umaflex informou que os diretores das unidades de Umuarama, Conchal (SP) e Escada (PE) não estavam disponíveis para falar sobre o caso.
Crise afeta cadeia de fornecedores
A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial em 16 de agosto para reestruturar uma dívida de R$ 17,3 bilhões. A situação envolve uma extensa rede de fornecedores, bancos e outros credores e colocou o caixa da companhia no centro das disputas judiciais.
Entre os credores da varejista estão grandes fabricantes de produtos vendidos em suas lojas. Segundo os dados apresentados, cerca de R$ 5,8 bilhões da dívida estão concentrados em grandes fabricantes do setor.
A preocupação não se limita aos valores já devidos. Para empresas que fornecem produtos ao varejo, a continuidade dos pedidos e a capacidade de pagamento da rede são fatores diretamente ligados ao funcionamento da cadeia.
O processo também envolve a tentativa da Casas Bahia de impedir que recursos sejam retirados de seu caixa por diferentes credores enquanto a recuperação judicial avança. A companhia afirma que, nos primeiros dias após o pedido, houve bloqueios e retenções de recursos, incluindo recebíveis de cartões.
Espaço para as redes regionais
Ao mesmo tempo em que a recuperação judicial impõe pressão sobre fornecedores, a redução da presença da Casas Bahia cria espaço para outras redes disputarem consumidores.
A varejista anunciou o fechamento de 298 lojas físicas. Com a diminuição da operação, redes regionais passaram a disputar parte dos clientes e das vendas que estavam concentrados na companhia.
O mercado regional movimenta cerca de R$ 300 milhões por mês, segundo os dados apresentados. Varejistas que possuem unidades próximas a lojas da Casas Bahia que encerraram as atividades registraram crescimento de 10% a 30% nas vendas nos últimos dias.
O movimento também chegou aos fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos. Para ampliar a distribuição de produtos pelas redes regionais, a indústria passou a oferecer condições comerciais como consignação, prazos sem cobrança de juros e aumento das verbas destinadas ao marketing.
Gazin vê espaço, mas mantém estratégia
Entre as empresas que podem encontrar oportunidades nesse novo cenário está a Gazin, que mantém forte presença no varejo e também tem negócios com o Grupo Casas Bahia. A sede da empresa fica em Douradina, região Noroeste do Paraná. Porém, a empresa tem filiais espalhadas pelo Brasil.
A rede possui 400 lojas em nove Estados e projeta faturamento de R$ 14 bilhões neste ano. Segundo os dados apresentados, 80% das vendas da companhia são financiadas por crédito próprio, reduzindo a dependência de bancos.
A Gazin, no entanto, evita tratar o movimento como uma mudança provocada exclusivamente pela crise da concorrente.
Procurada pelo OBemdito, a empresa afirmou por meio de sua assessoria de comunicação que acompanha os acontecimentos, mas mantém suas decisões vinculadas ao próprio planejamento.
“A Gazin acompanha naturalmente os movimentos do mercado, mas mantém seu planejamento e suas decisões orientados pela própria estratégia de crescimento”, informou a assessoria.
O representante da empresa acrescentou que a Gazin continua concentrada na eficiência da operação e na relação com os consumidores. “Seguimos focados na eficiência da operação, na proximidade com nossos clientes e no desenvolvimento sustentável dos nossos negócios.”
Tamanho da Casas Bahia abre disputa
O espaço deixado pela Casas Bahia ajuda a dimensionar o tamanho da disputa que se abre no varejo. Segundo os dados apresentados, a companhia respondia por 30% das vendas de linha branca, 25% dos volumes de televisores e 15% dos eletroportáteis.
A retração da rede, portanto, não representa apenas uma mudança na distribuição de lojas. Ela também altera a disputa por consumidores e a relação entre fabricantes e varejistas.
As redes regionais aparecem como alternativas para a indústria escoar produtos e ampliar a presença no mercado. Em um cenário de juros elevados, empresas com menor dependência de capital de terceiros ganham importância para os fabricantes, segundo a avaliação apresentada no material.
A crise também movimenta o mercado de trabalho. Parte dos funcionários desligados pela Casas Bahia pode ser absorvida por outras redes. No caso citado, uma varejista regional recebe currículos de ex-funcionários da companhia e mantém 300 vagas, entre posições abertas e temporárias, para o período de fim de ano.
Disputa pelo caixa
Dentro da recuperação judicial, a preservação do caixa tornou-se uma das questões centrais para a Casas Bahia. A empresa pediu à Justiça de São Paulo que sejam antecipados os efeitos do chamado stay period, mecanismo que suspende execuções e outras medidas contra a companhia durante o período de proteção previsto na recuperação judicial.
A varejista também questionou o débito de R$ 422 milhões realizado pelo Banco do Brasil depois que a instituição financeira, que atuava como fiadora em garantias contratadas junto a fornecedores, efetuou pagamentos e buscou o ressarcimento nas contas da companhia.
Além disso, a Casas Bahia afirmou que empresas de pagamento retiveram mais de R$ 18 milhões em recebíveis de cartões, enquanto cerca de R$ 9 milhões teriam sido bloqueados em ações relacionadas ao pagamento de créditos nos seis primeiros dias após o pedido.
A recuperação judicial ainda seguirá etapas de análise e negociação. O impacto definitivo para cada credor dependerá do andamento do processo e das condições que forem estabelecidas para o pagamento das dívidas.
(Com informações do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo)
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