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Rudson de Souza Publisher do OBemdito

Um ano depois, Icaraíma segue a vida entre a memória de uma chacina e a rotina do interior

Cena cotidiana em Icaraíma mostra que a cidade seguiu em frente após a tragédia (Foto Danilo Martins/OBemdito)
Um ano depois, Icaraíma segue a vida entre a memória de uma chacina e a rotina do interior
Rudson de Souza - OBemdito
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 10h28 - Modificado em 5 de agosto de 2026 às 10h39

A estrada Raul Barbosa Dias continua praticamente a mesma. Os remendos no asfalto resistem ao tempo, os caminhões carregados de mandioca cruzam a via diariamente e a poeira ainda toma conta das estradas rurais que ligam Icaraíma ao distrito de Vila Rica do Ivaí.

Um ano depois do desaparecimento e morte de quatro homens e da fuga da família apontada como principal suspeita, a maior mudança talvez não esteja na paisagem, mas na forma como o município passou a ser visto por quem chega de fora.

Em setembro de 2025, um mês após o caso ganhar repercussão nacional, a principal sensação era a de uma cidade tentando retomar a normalidade enquanto convivia com um mistério sem respostas. Hoje, às vésperas de completar um ano da chacina, a impressão permanece a mesma, a vida seguiu.

Vila Rica do Ivaí, distrito de cerca de 500 moradores, segue marcada pelo trabalho no campo e pela convivência entre vizinhos

Nas ruas, no comércio e nas propriedades rurais, o cotidiano continua marcado pelo trabalho. O leite precisa ser tirado, a mandioca colhida, as contas pagas e a rotina, como em qualquer outra cidade brasileira, impõe suas próprias urgências. O caso que colocou Icaraíma no centro das atenções não alterou a essência de um município que segue vivendo do campo, das pequenas empresas e da convivência entre vizinhos.

Para muitos moradores, a imagem construída fora da cidade pouco tem a ver com a realidade local. Não são raros os relatos de visitantes que chegam imaginando encontrar uma espécie de “Velho Oeste” paranaense, habitado por homens armados e cavalgando pelas estradas. O cenário encontrado, no entanto, é outro. Trabalhadores deixando as lavouras, crianças indo para a escola e comerciantes preocupados com o movimento do fim do mês.

Curiosamente, o que realmente quebra a rotina da população ainda é a presença de forasteiros em busca de respostas. Um carro desconhecido percorrendo as estradas vicinais, jornalistas fazendo perguntas ou pessoas interessadas no caso despertam mais atenção do que a própria movimentação policial.

Base do Exército Brasileiro instalada em Icaraíma durante a Operação Ágata pouco alterou a rotina dos moradores

Nem mesmo a instalação de uma base do Exército Brasileiro durante a Operação Ágata alterou significativamente o cotidiano da cidade. Para quem vive em Icaraíma, a presença dos militares passou a fazer parte da paisagem, assim como as viaturas que circulam pela região por causa da proximidade com a fronteira.

O delegado Thiago Andrade Inácio, chefe da Delegacia de Polícia Civil de Icaraíma, reforça que o município continua sendo uma cidade segura e que o episódio não representa a realidade local. Segundo ele, Icaraíma está inserida em uma rota utilizada para crimes transfronteiriços, mas isso não significa que a violência faça parte da rotina da população.

“É importante separar um episódio criminal da realidade do município. Icaraíma é uma cidade segura e o trabalho das forças de segurança é permanente justamente por causa da posição estratégica da região, utilizada para crimes transfronteiriços.”

Entre lavouras e ruas tranquilas, Icaraíma mantém o cotidiano característico de um município do interior paranaense

Se a tragédia abalou a cidade, ela não provocou uma ruptura entre os moradores. Um ano depois, não há sinais de perseguição aberta nem de hostilidade generalizada envolvendo a família Costa Buscariollo. As esposas dos foragidos continuam vivendo no município e levam uma rotina semelhante à de qualquer outro morador, frequentando supermercados, cumprindo compromissos e tentando reconstruir a vida em meio ao peso da investigação.

Em Vila Rica do Ivaí, distrito vizinho à propriedade da família, a memória dos moradores continua dividida entre a gravidade das acusações e as lembranças de tempos mais simples. Ainda hoje, algumas pessoas recordam os grandes bolos distribuídos por Antônio Buscariollo nas comemorações do Dia das Mães e os almoços promovidos no pesqueiro, que durante anos foi um dos principais pontos de encontro da região.

A ausência de Antônio, conhecido como “Tonhão”, também deixou marcas nas festividades religiosas do distrito. Moradores relatam que a tradicional festa em homenagem à padroeira Santa Teresinha do Menino Jesus perdeu parte de sua força após o desaparecimento daquele que era considerado um dos principais patrocinadores do evento.

Os quatro homens desapareceram há um ano em Icaraíma, no caso que se tornou o maior mistério policial da história recente do município

As lembranças do pesqueiro continuam vivas entre aqueles que frequentavam o local. O restaurante, que durante anos ficou conhecido pela comida e pelos almoços de domingo, permanece fechado e se transformou em um símbolo silencioso do episódio que mudou para sempre a história do município.

Nos últimos meses, rumores sobre uma possível venda da propriedade passaram a circular pelas rodas de conversa em Vila Rica do Ivaí. Moradores relatam que um corretor de imóveis chegou a visitar a região com informações detalhadas sobre a área.

“Esses tempos apareceu aqui um corretor com todos os dados da propriedade. Agora, resta saber quem vai assinar os papéis em uma possível venda”, comentou um morador, que pediu para não ser identificado.

Pouca gente de fora sabe, mas a família Costa possui raízes profundas em Icaraíma. Os Costa estão entre os pioneiros da cidade e tiveram participação importante no desenvolvimento local. O sobrenome está ligado, inclusive, à implantação do Colégio Estadual Desembargador Antônio Franco Ferreira da Costa, uma das principais instituições de ensino do município.

Pai e filho tiveram a prisão preventiva decretada e continuam foragidos um ano após o crime que abalou Icaraíma

No dia 5 de agosto de 2025, desapareceram Alencar Gonçalves de Souza, de 36 anos, e os paulistas Robishley Hirnani de Oliveira, de 53 anos, Rafael Juliano Mariscalchi, de 43 anos, e Diego Henrique Affonso, de 39 anos. Meses depois, as investigações apontariam Antônio Buscariollo e o filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, como os principais suspeitos do crime. Os dois seguem foragidos.

Um ano depois, a principal diferença em relação aos primeiros dias da investigação talvez seja a forma como a cidade aprendeu a conviver com o assunto. O mistério permanece sem solução definitiva, mas Icaraíma se recusa a ser definida apenas pelo episódio mais traumático de sua história recente.

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(Com imagens de Danilo Martins/OBemdito)

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