Graça Milanez

Com 100 clientes por mês, relojoeiro mantém ofício que resiste ao tempo em Umuarama

Quantos relojoeiros há em Umuarama? Já teve muitos, no passado. Atualmente talvez tenha uns quatro em atividade. Um deles segue firme na bancada todos os dias. E é quem fez a estimativa. “Olha, não deve ter mais que quatro hoje na cidade, não, pode acreditar”.

Aos 78 anos, Adail Ribeiro Mesquita atende cerca de 100 clientes por mês e mantém viva uma profissão que muitos acreditavam estar fadada ao desaparecimento com a chegada dos celulares e relógios digitais.

Conhecido como Mesquita, ele trabalha oito horas por dia em uma oficina instalada dentro da Visótica, loja de óculos e relógios de Umuarama. São 46 anos dedicados à relojoaria, uma paixão que nasceu ainda na infância e atravessou décadas sem perder a força.

Natural de Caririaçu, no Ceará, Mesquita chegou ao Paraná em 1958, aos dez anos de idade, quando a região vivia os primeiros anos de colonização. A família comprou um sítio em Perobal [à época, distrito de Umuarama], onde passou a cultivar café.

Que maravilha! A lupa que encantou o menino no Ceará continua sendo uma das principais ferramentas do relojoeiro

Lupa de relojoeiro: “Uma maravilha!”

Na adolescência, Mesquita trabalhou pesado na lavoura. Plantava, carpia, colhia e ensacava café. Lembra com orgulho da força física que tinha na juventude. “Quando moço eu dava conta de ensacar até dez sacas de café por dia. Ninguém conseguia mais que eu. Todos admiravam e elogiavam esse feito.”

Apesar da dedicação à roça, o futuro que imaginava para si era outro. A inspiração surgiu ainda menino, durante uma visita a uma relojoaria no Ceará. Enquanto acompanhava o pai, ficou fascinado ao observar um relojoeiro trabalhando.

“Fiquei impressionado com a lupa… Achei uma maravilha! Naquele dia decidi que queria ser relojoeiro e não tirei mais isso da cabeça”, conta Mesquita, entusiasmado ao recordar a própria trajetória.

Bancada lotada: entre parafusos, pinças, molas e ponteiros, Mesquita exerce um ofício cada vez mais raro

Sonho de ser relojoeiro adiado, mas realizado

O sonho, porém, precisou esperar. “Eu tinha que ajudar na lavoura. Meus pais precisavam de mim.” Até que driblou o impasse: aos 28 anos, já casado, Mesquita iniciou um curso técnico de relojoeiro por correspondência.

Ele conta que a rotina exigia sacrifícios. “Eu trabalhava o dia inteiro e estudava à noite, à luz de lamparina. Cheguei a pensar em desistir. É fácil quando se tem um professor do lado. Eu não tinha. Era eu e eu.”

Leia também: Loja de Umuarama mantém vivas as máquinas de escrever há 40 anos.

Pequena no tamanho, grande na função: oficina guarda décadas de experiência acumulada

Nesse processo de aprendizagem faz questão de citar o apoio do concunhado Luiz Nicoleti, que já atuava no ramo, em Umuarama, e que o ajudou nos primeiros passos. “Ele me deu uma mão muito grande. Tenho muita gratidão por ele.”

Depois de concluir o curso, começou a consertar relógios em casa, à noite. “De dia ia para a roça, à noite consertava”. Na época, predominavam os modelos movidos à corda.

O sucesso dos serviços deu confiança para um passo maior. Até hoje, ele lembra com precisão a data que considera o marco da carreira. “Foi em 10 de maio de 1980 que assumi de vez minha profissão”, diz, pausadamente.

Tal pai, tais filhos

A relojoaria prosperou até 1992, quando decidiu mudar-se para Maringá para acompanhar os três filhos que haviam seguido carreira na mesma área. “Eu ensinei e eles se tornaram ótimos relojoeiros. Tanto que logo conseguiram emprego na Gouveia”, orgulha-se o pai.

Na Gouveia, tradicional rede do setor no Paraná, dois permanecem até hoje; o outro, saiu para montar o próprio negócio.

Mesquita também trabalhou na Gouveia, em Maringá e depois em Guarapuava, onde permaneceu na atividade até a aposentadoria, em 2018. “Foi um período muito bom. Só tenho lembranças positivas.”

“Celular não extinguiu a profissão”

A aposentadoria, no entanto, não significou o fim da jornada para Mesquita. Viúvo, casou-se novamente, voltou para Umuarama e retomou o ofício de relojoeiro que escolheu ainda na infância.

Hoje, divide os dias entre a oficina e a família. Do segundo casamento nasceu Joaquim, de 10 anos, que já demonstra interesse pela carreira do pai. “Vou ensinar tudo o que sei pra ele”, promete.

Em um mundo que valoriza cada vez mais o celular, e com a chegada dos relógios inteligentes [os smartwatches], a profissão tem futuro? Mesquita acha que sim.

“Quando entrou o celular, disseram que ia acabar. Não mudou nada pra mim. Tenho muitos clientes, por isso sei que não paro tão cedo”.

== Contato: Visótica – 44 9 8821 0298 – 44 3056 1717

(Fotos: Danilo Martins/OBemdito)

Graça Milanez

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