Desde 2018, a família Rocha mantém viva a tradição dos álbuns da Copa, transformando os encontros de troca em momentos de afeto, convivência e memória entre pais e filhos (Foto Família Rocha)
Na casa da família Rocha, a Copa do Mundo começou muito antes do apito inicial. Ela começou em volta da mesa, entre pilhas de figurinhas repetidas, pacotinhos rasgados com ansiedade e domingos reservados para encontros de troca.
O que inicialmente parecia apenas uma brincadeira de infância acabou se transformando em uma tradição familiar que atravessa gerações.
A contadora e acadêmica de direito Lucélia Santos Rocha lembra exatamente quando tudo começou. Era 2018. Os filhos Eduardo, então com 11 anos, e Márcio Junior, com apenas 6, chegaram da escola falando sobre o álbum da Copa que os colegas estavam colecionando.
“Claro que fomos atrás. Eles ficaram encantados com aquilo”, recorda. Naquele momento, porém, algo inesperado aconteceu: os pais passaram a se envolver tanto quanto as crianças.
“Pra mim e pro meu marido era uma felicidade dupla. Acho que era uma realização nossa também. Quando éramos crianças, não tínhamos conhecimento e nem condições de fazer algo do tipo”, conta Lucélia.
Os domingos rapidamente ganharam novo significado para a família. Era dia de acordar cedo para ir até os pontos de troca da cidade. Em 2018, segundo ela, a Livraria Paraná já funcionava como um dos principais locais de encontro dos colecionadores.
“Eles adoravam encontrar os amigos, negociar as figurinhas, abrir os pacotinhos. Mas acho que a nossa alegria, como pais, era até maior”, diz, sorrindo. O álbum foi concluído. Depois veio a Copa de 2022 e a tradição continuou.
Desta vez, porém, nem foi preciso que os filhos pedissem. “Acho que fomos nós que já queríamos viver aquilo de novo”, brinca. Agora, em 2026, com os filhos mais velhos e mais independentes, a experiência ganhou um novo capítulo dentro da casa.
“Levei a discussão pra família porque o custo realmente é alto. Perguntei se eles ainda queriam fazer o álbum. Foi meu marido quem respondeu primeiro. ‘Vamos fazer sim. Vamos transformar isso numa prática nossa’.”
Segundo Lucélia, o álbum deixou de ser apenas uma coleção. “Penso que fazer os álbuns é a realização de um sonho guardado na gente desde a infância. E poder viver isso com os filhos, proporcionar essa convivência, essa socialização, é emocionante.”
Ela diz que os encontros em torno das figurinhas criam memórias que dificilmente seriam substituídas pela rotina acelerada dos dias atuais. “As pessoas sentam juntas, conversam, trocam histórias, convivem. Isso vale muito.”
Na família Catarin, a coleção de figurinhas também atravessa gerações e exigiu até estratégia doméstica para funcionar.
O diretor geral e pedagógico universitário Roberto Catarin conta que começou a acompanhar os álbuns ainda com o enteado, Luan Fernandes, nas edições de 2014 e 2018. Em 2022, passou a colecionar ao lado do filho Francisco, então com 7 anos.
Agora, em 2026, a paixão cresceu novamente dentro de casa. “Esse ano precisei comprar dois álbuns para não dar briga”, diverte-se. Francisco, hoje com 10 anos, ganhou o próprio álbum. Já o pequeno João, de apenas 4, passou a dividir outro com o pai.
“Pelo volume de figurinhas e pela empolgação dos dois, não tinha como ser diferente”, conta. A rotina da família mudou completamente desde o lançamento da coleção.
“Aqui em casa, de sexta até domingo, praticamente só se fala nisso. A gente passa horas abrindo pacotinhos, organizando repetidas, atualizando aplicativo e planejando trocas.”
Segundo Roberto, a experiência vai muito além do futebol. “É uma convivência muito forte entre pais e filhos. E é engraçado porque você comemora cada seleção que completa. Não é só fechar o álbum inteiro. Cada etapa vira uma conquista.”
O educador conta que a tecnologia também mudou a forma de colecionar. Se antigamente os controles eram feitos em folhas de papel, hoje tudo acontece pelos aplicativos de celular. “Você controla repetidas, faltantes, combina trocas no WhatsApp, procura pessoas na cidade inteira.”
E a busca pelas figurinhas especiais já virou até rotina semanal. “Tem as figurinhas da Coca-Cola, por exemplo. Toda semana compramos seis garrafas para conseguir os cromos. Como não tomamos refrigerante em casa, acabamos doando para o meu filho mais velho.”
Mesmo com toda a modernidade, Roberto afirma que o principal continua sendo o encontro entre as pessoas. “Você vai nos pontos de troca, conversa com desconhecidos, conhece outras famílias, encontra amigos. Isso cria uma convivência muito legal.”
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O crescimento do álbum da Copa acabou espalhando encontros por diferentes pontos de Umuarama. No Gela Boca, os colecionadores se reúnem às sextas-feiras na unidade da avenida Castelo Branco e aos sábados na avenida Maringá.
Segundo a empresária Milena Romero Teles, o movimento chama atenção justamente pelo perfil familiar. “É muito bonito porque as pessoas esquecem um pouco o celular e passam a viver aquele momento juntas”, afirma.
A Livraria Paraná segue como um dos tradicionais pontos de encontro da cidade, com mesas tomadas por colecionadores aos sábados e domingos.
Já o Shopping Palladium criou um espaço especial voltado à Copa, enquanto até quadras esportivas aderiram à febre das figurinhas.
Na Isla Beach Tennis, por exemplo, as trocas acontecem aos domingos e reúnem atletas, pais e crianças em um ambiente descontraído.
Em meio a aplicativos, figurinhas brilhantes, pacotinhos e negociações, o álbum da Copa acabou fazendo algo raro nos tempos atuais, que é tirar as pessoas das telas por algumas horas e colocá-las frente a frente novamente.
(Com imagens cedidas gentilmente pelas famílias Rocha e Catarin e pelas empresas Gela Boca e Livrarias Paraná)
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