Umuarama

Quando o acolhimento muda destinos: conheça o impacto social da Apromo em Umuarama; vídeo

A porta se abre, alguém chega com uma mochila nas mãos e poucas certezas no coração. Do lado de dentro, há cama, comida, escuta e orientação. É assim que começam muitas histórias na Associação de Apoio à Promoção Profissional (Apromo), em Umuarama. E é assim que recomeçou a trajetória de César Augusto Juvêncio.

OBemdito visitou a sede da instituição para conhecer de perto o trabalho desenvolvido e entender os desafios, metas e resultados da entidade, que atende pessoas em situação de vulnerabilidade social e em situação de rua.

Entre os relatos, chama a atenção o de César, de 63 anos, que chegou à cidade há cerca de três meses sem ter onde ficar. “Eu cheguei aqui em Umuarama perdido. Procurei a Apromo, fui encaminhado para serviço e consegui regularizar minha documentação”, contou.

Usuários atendidos pela Apromo recebem alimentação como parte do processo de reinserção social

Segundo César, a equipe técnica o auxiliou na regularização de documentos e no encaminhamento para oportunidades de trabalho. “Fiz uma entrevista no Shopping Palladium, em Umuarama, e fui admitido. Só tenho a agradecer pela força que recebi da equipe técnica, da diretoria e de todos da Apromo”, afirmou.

Ele afirma que, sem o apoio recebido, poderia ter tomado um rumo diferente. “Se não fossem as oportunidades que eu tive na Apromo, talvez eu estivesse em uma situação bem pior, andando de albergue em albergue, de cidade em cidade”, relatou.

Hoje empregado na área de serviços gerais do Shopping Palladium, César já alugou um lugar para morar. “Agora vou conseguir melhorar minha vida. Daqui em diante, acredito que ela só tende a melhorar e isso tudo graças à Apromo”, afirmou.

Atendimento de saúde bucal integra o trabalho de cuidado e reconstrução oferecido pela Apromo

Estrutura e funcionamento

A Apromo atua há cerca de 35 anos no município. O psicólogo Matheus Richter Nogueira, de 31 anos, responsável técnico da instituição, explica que o foco principal é o atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“Um dos trabalhos é a reinserção no mundo do trabalho, porque isso acaba dando mais autonomia e fazendo com que a pessoa consiga se reinserir psicossocialmente na comunidade”, afirmou.

A instituição realiza elaboração de currículos, encaminhamentos para a Agência do Trabalhador, promoção de cursos livres e gratuitos, workshops, grupos de conversa e acompanhamento individual.

Horta cultivada na instituição auxilia na alimentação e promove aprendizado aos assistidos

Também há incentivo a atividades como produção artesanal e inserção cultural em outros núcleos do município.

As pessoas chegam por demanda espontânea ou por encaminhamento de serviços como o Centro Pop e a Guarda Municipal.

“A instituição precisa ser provocada de alguma forma. A pessoa pode bater na porta ou ser encaminhada por outros serviços”, explicou Matheus.

Bazar solidário ajuda a manter os atendimentos e oferece peças a preços acessíveis à comunidade

Em janeiro, foram registrados 84 acolhimentos. A capacidade atual é de 64 vagas, distribuídas em duas unidades.

Na sede principal, são 40 acolhidos, sendo 36 homens e 4 mulheres. Na unidade 2, na rua Bandeirantes, há 24 vagas destinadas principalmente a casos de passagem.

“Se fôssemos acolher todas as pessoas que demandam o serviço, esse número passaria mais que o dobro”, disse a coordenadora geral, Angélica Ramos, de 52 anos.

A assistente social Ariane Andrade Coutinho de Souza, de 43 anos, reforça que nem todos os atendidos estavam necessariamente em situação de rua.

Espaço físico foi organizado para oferecer suporte, segurança e dignidade aos assistidos

“Muitas pessoas vêm direto para cá. Se não houvesse a Apromo, provavelmente estariam na rua. A instituição também atua para evitar que cheguem a esse ponto.”

Responsabilidade e regras

A equipe destaca que o trabalho vai além do abrigo. Há regras internas e acompanhamento técnico permanente. “Quando eles chegam, muitos vêm com uma sensação de culpa muito grande”, afirmou Matheus.

“A gente trabalha com responsabilização, não com culpa. Pensamos na responsabilidade individual e coletiva, inclusive no ambiente compartilhado aqui.”

Segundo ele, a instituição não tolera violência. “A violência aqui é zero. Não aceitamos violência verbal, racial, de gênero, sexual ou qualquer tipo de discriminação.”

Atualmente, 33 funcionários atuam nas duas unidades.

Para o psicólogo Matheus Richter Nogueira, o acolhimento é o primeiro passo para a retomada da dignidade

Alimentação e manutenção

Os acolhidos recebem quatro refeições diárias na unidade principal, além de cama, banho e produtos de higiene pessoal. A instituição mantém ainda uma horta, utilizada como atividade e complemento alimentar.

A manutenção ocorre por meio de subsídios municipal, estadual e federal, que cobrem principalmente despesas fixas, como salários. Para outras necessidades, a entidade depende de recursos próprios.

“A gente tem um bazar permanente que ajuda nas despesas e realiza promoções fixas ao longo do ano, como carreteiro, feijoada, pizzas e, agora, a rifa de Páscoa”, explicou Angélica. A rifa atual custa R$ 20 e tem como prêmio uma cesta.

Angélica Ramos, coordenadora geral, reforça a importância do apoio da comunidade para manter os serviços

A Apromo também recebeu reconhecimentos e parcerias, como o Selo Mesa Brasil, do Sesc, no campo da nutrição social, além de premiações de instituições locais.

Para a equipe, histórias como a de César são exemplos concretos do propósito da entidade. “O caso do César é um que a gente documentou, mas são muitos outros”, disse Matheus. “Reinserção social não é discurso. É prática diária.”

Preconceito e estigmatização

Durante a entrevista, o psicólogo também abordou o preconceito enfrentado por pessoas em situação de rua ou vulnerabilidade social. Segundo ele, ainda há uma tendência de rotular e reduzir essas pessoas à condição em que se encontram.

“Muitas vezes a sociedade olha para a pessoa em situação de rua e enxerga apenas a rua. Não enxerga a história, não enxerga o contexto, não enxerga os fatores que levaram aquela pessoa a estar ali”, afirmou.

Com portas abertas à comunidade, a instituição acolhe quem busca recomeçar

Ele destaca que a vulnerabilidade social não pode ser tratada como falha moral individual. “Existem questões familiares, econômicas, de saúde mental, dependência química e rompimentos de vínculos que precisam ser considerados. Não é algo simples ou raso.”

A equipe reforça que o acolhimento começa pelo respeito. “Quando a pessoa chega aqui, ela já chega carregando muito julgamento externo. Nosso papel é reconstruir dignidade, autonomia e responsabilidade, sem reforçar culpa”, disse.

Para a coordenação, combater o preconceito é parte do trabalho diário da instituição. A proposta, segundo os profissionais, é mostrar que reinserção social é possível quando há apoio técnico, oportunidade e compromisso do próprio acolhido.

César Augusto Juvêncio conseguiu emprego e moradia após ser acolhido pela instituição

Conheça a Apromo

A Apromo segue de portas abertas para a comunidade. Quem desejar conhecer de perto o trabalho desenvolvido pode visitar a instituição, localizada na Rua Montevidéu, 4378, no Conjunto Guarani III, e entender como funciona o acolhimento oferecido às pessoas em situação de vulnerabilidade social e em situação de rua.

A entidade também recebe doações e apoio da população para manter as atividades e ampliar os atendimentos. Interessados em contribuir ou obter mais informações podem entrar em contato pelo telefone (44) 3622-6441 e se informar sobre as formas de colaboração.

(Com imagens de Danilo Martins/OBemdito)

Rudson de Souza

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