Ainda bem que na década de 1960 Umuarama ainda não tinha redes de energia elétrica... Caso houvesse, seria impossível construir uma caravela tão alta para desfilar pela Avenida Paraná. A “Santa Maria” era realmente impressionante pelas suas dimensões, peso e formato e suas linhas seguiam as da embarcação original com que Cristovão Colombo singrou os mares para descobrir a América! Detalhe: comparem a altura do carro alegórico com a estatura das pessoas próximas... - Foto: Acervo Italo Fábio Casciola

Umuarama parou pra ver um navio gigante ‘navegando’ na Avenida Paraná

Nunca, nem antes nem depois, se viu um carro alegórico desse porte na cidade

Ítalo Fábio Casciola Publisher do OBemdito
Ainda bem que na década de 1960 Umuarama ainda não tinha redes de energia elétrica... Caso houvesse, seria impossível construir uma caravela tão alta para desfilar pela Avenida Paraná. A “Santa Maria” era realmente impressionante pelas suas dimensões, peso e formato e suas linhas seguiam as da embarcação original com que Cristovão Colombo singrou os mares para descobrir a América! Detalhe: comparem a altura do carro alegórico com a estatura das pessoas próximas... - Foto: Acervo Italo Fábio Casciola
Umuarama parou pra ver um navio gigante ‘navegando’ na Avenida Paraná
Ítalo Fábio Casciola
OBemdito
11 de maio de 2024 17h17

Como já contei antes cronicando a nossa História, todos os antigos desfiles de 26 de junho tiveram algum detalhe marcante, que por este ou aquele motivo colaram feito chiclete na tela de nossa memória.

Os umuaramenses da época não esquecem do que viram naqueles belos festivos: uns se encantavam com os uniformes de cetim, coloridos e cintilantes, das belas balizas ou dos instrumentistas das fanfarras. Outros, lembram recordam até hoje de algum atrativo daqueles carros alegóricos. Ou do ritmo e coreografia e alguma marcha entoada pelos músicos. Ou, ainda, de alguma mensagem expressa na frase desenhada em alguma faixa.

Enfim, são tantas emoções na forma de cenas e imagens que ficaram guardadas e adormecidas, mas que subitamente reaparecem para reviver momentos que não voltam mais, momentos que são verdadeiros tesouros na existência de cada um que vive e respira Umuarama desde o “tempo do onça”…

Entre a infinidade de minudências de tantos desfiles, um certamente grifou as lembranças seja dos adultos daquela época, seja daqueles que ainda eram crianças ou garotos iniciando a juventude. Sem querer fantasiar ou maquiar um fato além do que ele realmente representou naqueles momentos, merece registro para a posteridade a alegoria apresentada por uma escola no desfile do ano de 1962. Certamente, nem antes nem depois, desfilou pela nossa avenida principal um artefato de tamanha estatura. Era imponente mesmo, de causar sensação principalmente naquelas pessoas mais simples que nunca haviam visto uma escultura desse tipo se movimentando por uma via pública.

Parêntese: vivia-se um tempo em que não existia a televisão exibindo aqueles deslumbrantes carros das escolas de samba cariocas; também, naquele tempo, era numerosa a legião de pessoas iletradas que desconheciam qualquer tipo de arte, entre elas a escultura; e a maioria era humilde e vivia isolada na zona rural distante daquilo que então se costumava chamar de “civilização”.

Portanto, dar de cara com uma parafernália – vamos assim dizer uma obra de arte – daquele tamanho era realmente algo desconhecido e, por isso mesmo, de arregalar os olhos…

Sem mais suspense, até porque em algum momento da crônica, teria que revelar do que se trata, a causa de tanta surpresa ao público presente àquele desfile era um portentoso navio igual aqueles que enfeitam as páginas de livros da História Universal.

Foto: Acervo Italo Fábio Casciola

NAVIO HOMENAGEAVA COLOMBO E CABRAL

Isso mesmo: era uma Caravela de Cristóvão Colombo, navegador italiano a serviço da coroa espanhola e imortalizado como o Descobridor das Américas. Seu nome, “Santa Maria”, estava inscrito na proa da réplica da embarcação que descia (e subia) vagarosamente como que navegando nas águas mansas rumo ao Novo Mundo.

Quem olhava de baixo para cima ficava impressionado com a engenhosidade daquele gigante se movendo ao longo da Avenida Paraná, que ainda era de terra. Incluindo o topo dos mastros que exibiam as velas, a altura superava os 16 metros. A largura era em de 6 a 8 metros. O primeiro pensamento que vinha à mente do distinto público que assistia o desfile era: como montaram esse tremendo navio?! Essa reação era natural, afinal, quem não fica perplexo ao ver algo impressionante e desconhecido como esse…

A engenhoca fora uma criação de um grupo de imigrantes da colônia portuguesa radicada em Umuarama, tanto é que exibia à frente duas vistosas bandeiras – a do Brasil e a lusitana. A reprodução da caravela de Colombo era um simbolismo, afinal o Brasil também é parte do continente descoberto pelo italiano.

Era do conhecimento de todos que o descobridor oficial do Brasil foi Pedro Alvares Cabral, em 1500, que aportou oito anos depois de Colombo no Novo Mundo.

Sem a mínima intenção em estabelecer uma discussão entre a importância histórica entre um precursor e outro, o objetivo emblemático era contribuir para o brilho do desfile comemorando a epopeia das grandes navegações, da qual pontificaram no passado Espanha e Portugal. Traduzindo: era uma homenagem maravilhosa para Colombo e Cabral!!!

MONTAR A CARAVELA FOI UMA TAREFA FANTÁSTICA!

Montar aquele carro alegórico deslumbrante foi uma tarefa cansativa, cumprida por um grupo de carpinteiros voluntários, usando material doado por comerciantes lusitanos.

O trabalho de armar a caravela em cima de um caminhão de grande porte foi realizado num amplo barracão de uma cafeeira. A réplica da caravela era tão grande que cobria toda a carroceria, a cabine e a frente do veículo. A madeira vinha já cortada de uma serraria e chegava pronta para ser montada como um quebra-cabeça, obedecendo as linhas de um desenho feito por um experiente carpinteiro, que calculou o formato e o tamanho da embarcação depois de estudar e observar mil vez os detalhes uma imagem da “Santa Maria” de um livro de história.

Depois de pronto todo o esqueleto, parte mais pesada da alegoria, o veículo saiu do barracão para que fossem montados os mastros e içadas as velas. Eram tão altos que dentro do prédio não caberiam…

(Mais um parêntese: ainda bem que, na época, Umuarama ainda não tinha energia elétrica, portanto, nas ruas e avenidas não existiam postes nem as redes de fios elétricos para impedir a passagem daquele gigante de madeira!)

Depois se seguiram os serviços de pintura e acabamento, tudo conforme detalhava o modelo original. O motorista dentro da cabine do caminhão se orientava através de duas pequenas janelinhas abertas no casco de madeira em frente ao para-brisa, mas sempre acompanhado por dois auxiliares que, do lado de fora, iam orientando o rumo para evitar possíveis acidentes, pois, vale repetir, as ruas e avenidas de Umuarama ainda não eram asfaltadas e havia buracos espalhados por todos os lados.

Do barracão, situado na periferia da cidade, até o local do desfile, a Avenida Paraná, a caravela percorreu alguns quilômetros. Por sorte, naquele ano o dia 26 de Junho foi presenteado com um sol fascinante e o navio singrou imponente engalando a grandiosa festa! (ITALO FÁBIO CASCIOLA)

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