Colunistas

Sobre promover saúde mental e as suas opiniões sobre os modos de vida dos outros

O que você tem a agregar, à distância, para outras pessoas que não fazem parte de seu cotidiano?

Foto: Arquivo Pessoal
Sobre promover saúde mental e as suas opiniões sobre os modos de vida dos outros
Danielle Barreto
OBemdito
20 de abril de 2021 16h15

Neste nosso encontro quinzenal, gostaria de problematizar algumas possibilidades de protegermos e promovermos nossa saúde mental em tempos tão áridos de esperança e de alegrias;

Conceitualmente podemos definir resumidamente saúde mental a partir de documentos publicados que se trata de um estado de bem-estar no qual a pessoa realiza suas próprias habilidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e é capaz de fazer contribuições efetivas e afetivas à sua comunidade.

Saúde mental e bem-estar são fundamentais para nossa capacidade coletiva e individual, como seres humanos, para pensar, nos emocionar, interagir uns com os outros, ou seja, aproveitar a vida.

Neste sentido, podemos afirmar que a promoção, proteção e restauração da saúde mental podem ser consideradas como preocupações vitais das pessoas, comunidades e sociedades em todo o mundo.

A promoção de saúde mental, deve ser articulada através de políticas públicas e de ações coletivas, visando amparo e condições de vida que agenciem bem estar ao invés de estresses e desamparo.

Estamos há mais de um ano vivendo mudanças coletivas nos nossos modos de levar a vida, entre as muitas mudanças, a interação social via redes sociais é a que atingiu de forma mais homogênea a vida de todos nós.

Muitos de nós não veem pessoalmente amigos e familiares de outras cidades ou Estados desde o decreto da necessidade de distanciamento social. As notícias sobre nossa família por vezes nos chegam através das redes sociais públicas e em aplicativos de comunicação nos famosos grupos da família. Estamos mais fixados às telas, e apesar de cansados, não há outras formas seguras de nos protegermos das complicações de contágio. Este cenário poderá melhorar com a vacinação em massa, mas até lá, estamos mais vinculados aos celulares, computadores, televisores.

Esta condição de comunicação nos incita a termos que lidar com as informações e a nos posicionarmos em alguns momentos, como se estivéssemos numa conversa, daquelas que tínhamos presencialmente, com opiniões, com questionamentos e por vezes gargalhadas e deixa disso.

O que você tem de opinião quando lê sobre o adoecimento ou a morte de outras pessoas nestes canais de comunicação? Qual sentimento emana de você ao ler ou ouvir sobre vidas diferentes das que você convivia presencialmente? O que você tem a agregar, à distância, para outras pessoas que não fazem parte de seu cotidiano?

A sua opinião publicada nas reportagens online, nos grupos de amigos e familiares, nos aplicativos de relacionamento, e nas plataformas de cursos e palestras, diz muito mais da sua condição de saúde mental do que você imagina.

Ao não sermos capazes de nos aliar e solidarizar ao sofrimento, as dificuldades ou mesmo as alegrias das outras pessoas, significa que estamos perdendo nossa capacidade de enxergar no outro a humanidade que nos habita. Quanto mais ódio e violência você se implica em escrever numa postagem ou reportagem, mais desumano você se enxerga.

E neste sentido que resgatei a importância de visualizarmos que ao estarmos incapacitados de oferecermos ferramentas que agreguem valor nas nossas relações interpessoais, podemos ferir a promoção de saúde mental do outro, deslegitimando o direito de vida de pessoas diferentes de você. Neste sentido, quem está adoecido e despotencializado não é aquele que a sua opinião violenta, mas sim você, que acredita ser a referência do mundo e não é capaz de silenciar e respeitar a pessoa diferente de você.

Saber que as pessoas estão muito mais sensíveis, cansadas e sem muita esperança, deveria agenciar em nós, que acreditamos estar com um pouco de saúde mental preservada, a solidariedade, a aliança e o respeito, pois a qualquer momento, alguém pode também não enxergar as nossas fragilidades, cansaço e necessidade de cuidados.

————–

* Danielle Barreto é doutora em Psicologia e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (2016). Experiência docente em Cursos de Psicologia e Medicina. Tem experiência em atendimentos clínicos com ferramentas conceituais da Esquizoanálise, Membro do grupo de Pesquisa: Psicologias, coletivos e Cultura Queer (PsiCuQueer) na Unesp/Assis SP.

CRP 08/28879.

daniellebarreto@hotmail.com | Instagram: @danielle.barreto.37

LEIA TAMBÉM