Fotos: Acervo Ítalo

Colunistas

Forte crise econômica fechou as portas do primeiro grande hospital de Umuarama

Milhares de pessoas ali nasceram ou foram curadas durante 49 anos de atividades

Fotos: Acervo Ítalo
Forte crise econômica fechou as portas do primeiro grande hospital de Umuarama
Ítalo Fábio Casciola
OBemdito
22 de outubro de 2023 17h11

Estávamos em meados de junho do ano 2005… A cidade fervia com o início das festividades alusivas aos 50 anos de fundação de Umuarama. De repente surge a surpreendente notícia de que o hospital mais antigo da cidade e do Noroeste paranaense encerraria as suas atividades. A direção da casa de saúde marcou a data do fechamento das portas: 30 de junho!

A notícia estremeceu a cidade inteira, afinal o Hospital Umuarama fazia parte da História da Capital da Amizade e da vida da população daqui e dos municípios vizinhos. Basta imaginar quantas crianças nasceram ali e quantas vidas foram salvas de todo tipo de doenças da época.

O HU, como era afetuosamente chamado pelos umuaramenses, tinha quase a mesma idade de Umuarama – foi construído em 1956, apenas um ano depois da fundação da Capital da Amizade! Estava localizado na Rua Dr. Camargo, a quatro quarteirões da Praça Arthur Thomas. Ele foi edificado todo em madeira de peroba, quando ainda não havia construções de alvenaria por aqui. Ele era imenso, ocupando quase uma quadra inteira na área mais nobre da urbe.

FOI FUNDADO EM 1956, UM ANO DEPOIS QUE UMUARAMA NASCEU!

O Hospital e Maternidade Umuarama foi o primeiro nosocômio aqui no Noroeste paranaense. A iniciativa de construí-lo partiu do médico pioneiro Ingo Eber e iniciou as suas atividades em meados de 1956, portanto, apenas um ano depois de Umuarama ter sido fundada.

Em novembro de 1958, o Dr. Ingo vendeu-o ao médico Germano Norberto Rudner, que sozinho o manteve atendendo a população até 1967, quando chegaram a Umuarama os médicos Nelson Vasconcellos e Deraldo Mancini (que, depois, juntamente com o médico Osmar José de Souza e mais três colegas fundaram o Hospital São Paulo).

O Dr. Germano no início da década de 1970 resolveu abandonar a Medicina e dedicar-se à política, agricultura e pecuária. Principalmente à política, tendo se elegido vereador e por anos seguidos marcou a História da cidade como um dos mais atuantes e combativos membros do Legislativo umuaramense da época.

Com a chegada dos novos médicos acima citados o Hospital Umuarama foi transformado no maior e mais moderno hospital da região de Umuarama. Vale lembrar que o HU havia conquistado prestígio e carinho da coletividade regional porque os pacientes eram atendidos a baixos custos, tanto é que ganhou a nominação popular de Santa Casa da Misericórdia da Capital da Amizade! E vejam este detalhe importantíssimo: o hospital pioneiro não recebia recursos do poder público!!! O que demonstrava a generosidade dos profissionais que atuavam naquela casa de saúde.

SEM ENERGIA ELÉTRICA, A EQUIPE ENCARAVA AS DIFICULDADES DA ÉPOCA

Nos primórdios o HU enfrentou grandes dificuldades em razão de funcionar muito distante dos grandes centros médicos, a começar pela falta de energia elétrica (à noite, quando precisavam tinham que ligar motores abastecidos a diesel para funcionar e iluminar as dependências do hospital). Umuarama era uma pequena cidade que ainda nem sonhava com a chegada da Copel.

Outra grande dificuldade era a falta de médicos especialistas (anestesistas, apenas para citar um exemplo!), e de aparelhos elétricos da então medicina moderna como os Raio X, tomografia, etc, que hoje facilitam os diagnósticos e terapêuticas rápidos e precisos. Mesmo diante de tantas adversidades do século passado os índices de mortalidade eram baixos e podem ser comparados ao mundo moderno atual, fato que fazia com que a comunidade confiasse no atendimento.

O médico Fumiyo Sakabe permaneceu firme e dedicado até o fechamento das portas do HU. Ele recorda que o HU “foi sede da Maternidade Municipal de Umuarama de 1999 a 2004, quando em pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em todo o Brasil foi classificado como o 4° melhor hospital do Paraná!”. Portanto, era o melhor que todos os hospitais da região de Umuarama e o 16° melhor do Sul do País.

No final de sua história, quando já existia energia elétrica, o hospital pioneiro da Capital da Amizade possuía um centro cirúrgico com modernos equipamentos, pois havia sido instalada em suas dependências uma central de energia própria evitando eventuais ocorrências de ‘apagões’, central de gases (oxigênio e ar comprimido) para o eficiente funcionamento de respiradores na UTI e no centro cirúrgico.

A sua equipe de enfermagem era reciclada periodicamente pela chefia, enfermeiras padrões. Possuía ainda psicóloga, nutricionista, farmacêutica bioquímica, além de obstetras e pediatras em plantão permanente 24 horas!

Os atendimentos do Hospital Umuarama eram quase em sua totalidade de pacientes do SUS, pacientes munidos de pouquíssimos recursos, que tinham o hospital como seu ponto de referência quando necessitavam de atendimento médico.

Merece registro em alto relevo que durante todo o tempo a direção administrativa do HU estava à cargo da dinâmica e atenciosa Dona Margarida, esposa do Dr. Germano Rudner, que apesar de idosa permaneceu até o último dia em seu posto dando exemplo de competência e dedicação absoluta aos que precisavam de atenção em momentos difíceis.

FALTA DE REAJUSTES NA TABELA DO SUS PROVOCOU O FIM DO HOSPITAL

Porém, com o passar dos anos, isto é, dos últimos anos antes de fechar, não houve reajuste da tabela de custos pagos pelo SUS, com a transferência da Maternidade para outro hospital, e também em razão da elevação dos custos na área dos recursos humanos e materiais de manutenção do HU, tornou-se insustentável a continuidade das suas atividades!

E no dia 30 de junho de 1995 foi decretado oficialmente o fechamento das portas do icônico Hospital Umuarama! Foram 49 longos anos cuidando da saúde de nossa gente. E a nossa gente que passou por lá não esquece de seu valor e da dedicação de seus profissionais por quase meio século!

(Fotos exclusivas do acervo da coluna Ítalo)

Participe do nosso grupo no WhatsApp e receba as notícias do OBemdito em primeira mão.
<