Copel sob pressão: há dias sem energia, consumidores questionam serviço após privatização
A sucessão de interrupções no fornecimento de energia elétrica em Umuarama e municípios da região tem provocado indignação entre consumidores. Famílias relatam dificuldades para conseguir atendimento e cobram da Copel respostas sobre a demora no restabelecimento do serviço, especialmente depois dos temporais que atingiram o Noroeste do Paraná.
Na área rural de Umuarama, nas proximidades do Garapeira Primavera, moradores relatam estar há pelo menos três dias sem energia elétrica. O problema vai muito além do desconforto. Geladeiras e congeladores deixam de funcionar, alimentos correm o risco de estragar, famílias precisam tomar banho frio e a escuridão aumenta a sensação de insegurança durante a noite.
O que deveria ser uma situação excepcional transforma-se em um drama prolongado para quem depende da eletricidade para atividades básicas.
Na região da PR-323, nas proximidades do distrito de Lovat, avicultores também relatam prejuízos em aviários. A interrupção do fornecimento compromete sistemas de ventilação, climatização e outros equipamentos essenciais à produção. Dependendo da duração da falta de energia e das condições de cada propriedade, as perdas podem ser expressivas.
Em bairros de Umuarama, como o Alphaville, consumidores igualmente cobram o restabelecimento do serviço. As reclamações colocam em discussão não apenas a capacidade de resposta da concessionária, mas também a estrutura disponível para atender ocorrências simultâneas em áreas urbanas e rurais.
Problemas com a Copel não se limitam a Umuarama
As dificuldades no fornecimento de energia não são exclusivas do Noroeste. O Paraná enfrentou uma sequência de eventos climáticos severos, com interrupções que atingiram consumidores de diferentes regiões do Estado.
No último domingo, 4 de outubro, a própria Copel informou que 202,5 mil unidades consumidoras permaneciam sem energia por volta do meio-dia, em consequência dos temporais da noite anterior. Segundo a empresa, mais de 500 equipes, reunindo aproximadamente 1.300 profissionais, estavam mobilizadas para recuperar a rede elétrica.
A abrangência dos danos também afetou as eleições. Conforme informações divulgadas pela imprensa, 94 municípios paranaenses registraram interrupções de energia durante o primeiro turno, em 4 de outubro.
A Copel reconheceu a dimensão dos estragos. Em balanço publicado em 2 de outubro, a companhia informou ter substituído 2.061 postes, seis torres de alta tensão e 113 quilômetros de cabeamento durante setembro, após quatro grandes eventos climáticos.
Privatização coloca qualidade do atendimento em debate
A insatisfação também reacende uma discussão que acompanha a Copel desde sua privatização, concluída em agosto de 2023. A operação transformou a antiga estatal em uma companhia de capital disperso, sem acionista controlador. O governo paranaense deixou de exercer o controle da empresa, embora tenha mantido participação acionária e direitos especiais previstos na legislação.
Na época, o governo estadual sustentou que o novo modelo daria mais competitividade à Copel e preservaria a qualidade dos serviços. A promessa de manutenção do atendimento foi questionada publicamente durante o processo de transformação da companhia.
Três anos depois, os relatos de consumidores que aguardam dias pela volta da energia levantam uma pergunta inevitável: a estrutura de atendimento da Copel está preparada para responder às necessidades da população, sobretudo diante da intensificação dos eventos climáticos?
Para moradores prejudicados, a percepção é de que a Copel já não oferece o mesmo padrão de atendimento. Essa avaliação, embora relevante, exige uma comparação dos indicadores de continuidade, do número de equipes e dos investimentos antes e depois da privatização para que seja possível identificar uma eventual deterioração comprovada do serviço.
O que não depende dessa comparação é a obrigação da concessionária de prestar atendimento adequado. Pública ou privada, a empresa continua responsável por manter e recuperar a rede de distribuição, sob fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Temporais explicam os danos, mas não encerram a cobrança sobre a Copel
É inegável que os temporais provocaram estragos de grande proporção. Árvores derrubadas, postes danificados e cabos rompidos podem exigir intervenções complexas, especialmente em propriedades rurais e locais de difícil acesso.
Entretanto, a gravidade das condições climáticas não elimina a necessidade de planejamento. Ao contrário, torna ainda mais importante a existência de equipes suficientes, manutenção preventiva, monitoramento meteorológico, equipamentos de reserva e planos de contingência capazes de reduzir o tempo de interrupção.
A Copel afirma contar com um plano de contingência estruturado. Em julho deste ano, a companhia também anunciou a formação de 20 novos eletricistas para reforçar o atendimento em 11 municípios vinculados à base de Umuarama.
A questão é saber se esse reforço foi suficiente e como a estrutura funciona na prática durante uma emergência regional.
Quantas equipes estão disponíveis atualmente em Umuarama? Quantas foram mobilizadas nos últimos dias? Qual é o tempo médio de atendimento das ocorrências urbanas e rurais? Existem localidades aguardando há mais de 72 horas? Houve redução ou ampliação do quadro de trabalhadores desde a privatização? São perguntas que precisam de respostas objetivas.
Também cabe questionar o alcance dos investimentos em prevenção. A própria Copel informou, em 9 de outubro, a conclusão de obras de modernização no Litoral e na Região Metropolitana de Curitiba, com instalação de equipamentos automatizados para agilizar a recuperação do fornecimento. A adoção dessas tecnologias evidencia a importância de investir em redes mais resistentes e sistemas capazes de identificar e isolar falhas.
É necessário esclarecer em que medida soluções semelhantes estão sendo implantadas na região de Umuarama.
Nenhuma distribuidora consegue impedir todos os danos provocados por tempestades. Mas é legítimo exigir que esteja preparada para responder a eles com rapidez, transparência e capacidade operacional.
Consumidor tem direito a informações e pode reclamar à Aneel
A demora também expõe outro problema: a comunicação com quem está sem energia. As regras da Aneel determinam que a distribuidora informe os consumidores afetados sobre interrupções reconhecidas, independentemente de terem registrado reclamação individual. A obrigação envolve a comunicação das ocorrências e das informações disponíveis sobre o atendimento.
Consumidores que não conseguem resolver a situação diretamente com a Copel podem procurar a ouvidoria da empresa e, posteriormente, a Aneel, pelos telefones 167 e 0800 727 0167, além dos canais digitais. É importante guardar os protocolos e documentar eventuais prejuízos.
A Copel precisa responder
A população reconhece os danos causados pelos temporais e o trabalho dos profissionais que atuam na recuperação da rede. A crítica não se dirige aos eletricistas que enfrentam condições adversas, mas à capacidade de organização e resposta da concessionária.
Para quem está há três dias sem eletricidade, pouco importa se a empresa é pública, privada ou uma corporação de capital disperso. O que importa é voltar a ter energia em casa.
A privatização da Copel foi apresentada como um caminho para aumentar a eficiência da companhia. Agora, diante das reclamações, cabe à empresa demonstrar que a mudança também se traduziu em benefícios concretos para os consumidores.
É indispensável que a Copel demonstre, com fatos e resultados, que realmente não é mais a mesma, mas uma empresa que mudou para melhor.
Corrija a abertura e deixe-a mais diretaAjuste o tom editorial do encerramento
Participe do nosso grupo no WhatsApp e receba as notícias do OBemdito em primeira mão.





