A aposentada Maria Odete mostra blisters e sobras de medicamentos que separa do lixo comum - Fotos: Graça Milanez/OBemdito
Blister é o nome dado à cartela que Maria Odete Carvalho, 89 anos, separa todos os meses para levar à farmácia. Ela não sabia como se chamava o material, mas aprendeu que as cartelas vazias dos medicamentos não devem ser jogadas no lixo comum.
Ela já incorporou esse cuidado à rotina. Separa os blisters, coloca tudo em uma sacola e, uma vez por mês, leva o material até uma farmácia de Umuarama, onde há coletores para medicamentos vencidos, em desuso e suas embalagens.
“Os agentes de saúde me explicaram que jogar no lixo comum pode prejudicar o meio ambiente. Aí eu aprendi e passei a separar tudo para levar na farmácia”, conta a aposentada.
O hábito parece simples, mas chama a atenção para um problema que começa dentro de casa: o que fazer com medicamentos que não serão mais utilizados e com as embalagens que ficam depois que o comprimido é retirado?
A orientação é que esse material não seja descartado junto com os resíduos domésticos.
A destinação faz parte do sistema de logística reversa de medicamentos domiciliares. Desde 2020, uma regulamentação federal estabelece regras para o descarte de medicamentos vencidos ou em desuso e de suas embalagens, prevendo pontos de coleta para que o consumidor entregue esse material de forma adequada.
Na prática, farmácias e drogarias que participam do sistema disponibilizam coletores para que a população entregue medicamentos e embalagens. É o que acontece na unidade da Raia visitada pela reportagem em Umuarama.
A gerente da farmácia, Aline Diniz, informa que o coletor é esvaziado mensalmente e o material é encaminhado para a central da rede, em São José dos Pinhais, no Paraná. A unidade reúne, em média, quatro quilos por mês.
Segundo Aline, o descarte correto é necessário porque os medicamentos contêm substâncias químicas que podem contaminar o solo e a água dos lençóis freáticos quando chegam ao meio ambiente de forma inadequada.
“É um ato de consciência, de cuidado com o meio ambiente e com a nossa saúde, por isso merece toda a nossa atenção”, destaca Aline, orientando sobre a forma correta de levar o material à farmácia.
Leia também: Para onde vão as lâmpadas descartadas pelos umuaramenses? OBemdito responde.
“Os restos de comprimidos, líquidos e pomadas devem ser mantidos dentro das embalagens originais, como cartelas e frascos. Depois, é só trazer até a nossa farmácia e colocar nos coletores, que têm compartimentos específicos para medicamentos vencidos ou sem uso e para caixas e bulas”, explica.
De acordo com a gerente, tudo o que é recolhido na unidade é encaminhado para incineração. Esse é o destino informado pela rede para os resíduos recebidos no coletor. Mas o blister pode ter outro caminho.
Formado geralmente por plástico e alumínio, o blister é uma embalagem de composição complexa, que exige processos específicos para ser reciclada. Empresas especializadas conseguem separar e reaproveitar seus componentes, que podem retornar à cadeia produtiva.
No Brasil, já existem iniciativas industriais que utilizam material proveniente de blisters reciclados na fabricação de novos produtos, entre eles portas, rodapés e guarnições.
Ou seja, depois que o medicamento é retirado, a cartela não precisa necessariamente ser vista apenas como um resíduo. Quando coletada e encaminhada para empresas que trabalham com esse tipo de material, ela pode ganhar valor como matéria-prima.
E há ainda outra possibilidade: a reciclagem pode ajudar a financiar ações sociais.
Em Maringá, uma iniciativa mostra como a coleta organizada pode ganhar esse caráter. A OSC Arbec – Assistência à Reabilitação e Bem-Estar de Convalescentes mantém pontos de coleta de blisters em Maringá e cidades da região.
O material arrecadado é encaminhado para reciclagem e se transforma em ação social: é trocado por equipamentos para pessoas que necessitam de apoio para mobilidade, como cadeira de rodas.
O exemplo de Maringá mostra que existe espaço para ir além do descarte correto. Com organização, o que hoje termina como resíduo pode se transformar em matéria-prima e, em alguns projetos, até em recurso para ações sociais.
Umuarama ainda não conta com uma iniciativa semelhante estruturada para transformar a coleta de blisters em benefício para a comunidade. Mas o modelo já existe e funciona há dez anos em Maringá.
Para o consumidor, o primeiro passo é simples: separar medicamentos vencidos ou em desuso e suas embalagens e procurar um ponto de coleta que faça a destinação adequada.
Para a cidade, porém, fica uma possibilidade a ser pensada. A existência de empresas que recebem e reciclam blisters e de entidades que transformam a arrecadação em recursos para ações sociais abre espaço para imaginar um projeto local de coleta organizada.
A sacola que Maria Odete leva todos os meses à farmácia é pequena. Mas, somada às de outros consumidores, representa uma quantidade de material que pode ter outro destino. “Ficaria feliz em colaborar para isso”, afirma.
Separar o blister dos demais resíduos é um gesto individual. Encontrar formas de aproveitá-lo, devolvê-lo à cadeia produtiva ou convertê-lo em benefício para quem precisa pode ser um passo coletivo.
Fotos: Graça Milanez/OBemdito
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