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Imagens mostram máquina que promete destruir granizo com ondas de choque

Foto de Rudson de Souza
Publicado em 9 de outubro de 2026 às 17h59 - Modificado em 9 de outubro de 2026 às 18h05

Um investimento de quase R$ 1 milhão em uma tecnologia para tentar conter o granizo voltou a chamar a atenção em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. O sistema emite explosões em sequência durante a aproximação de tempestades, mas sua capacidade de impedir a formação de pedras de gelo ainda não tem comprovação científica.

A Prefeitura de Chapecó destinou R$ 972.510,28 à aquisição e instalação do equipamento, inaugurado em 2 de fevereiro de 2026, na rua Quilombo, no bairro Efapi. A administração municipal aposta no sistema como uma forma de proteção contra o granizo, embora avaliações da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indiquem que não há evidências suficientes para comprovar a eficácia dessa tecnologia.

O debate envolve justamente a diferença entre colocar o equipamento em funcionamento e demonstrar que ele consegue interferir nos fenômenos meteorológicos. Embora o canhão produza disparos audíveis e visíveis, isso não significa necessariamente que altere o desenvolvimento das tempestades.

Explosões tentam interferir na formação do granizo

O sistema funciona a partir da combustão de uma mistura de acetileno e oxigênio em uma câmara. As explosões controladas geram ondas de choque que são direcionadas para cima por meio de um cone. Os disparos ocorrem em intervalos de aproximadamente sete segundos.

A proposta é que essas ondas interfiram no crescimento dos cristais de gelo dentro das nuvens. Segundo a explicação divulgada pela prefeitura, o objetivo é reduzir a formação de pedras de granizo ou fazer com que a precipitação chegue ao solo como chuva ou partículas menores.

O município estima que o equipamento tenha uma área de cobertura de cerca de 80 hectares, considerando um raio de 500 metros a partir do ponto de instalação. Essa é a abrangência informada pela administração municipal, mas não representa uma comprovação de que o sistema consiga impedir a ocorrência de granizo em toda essa extensão.

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Estudos questionam resultados do método

A Organização Meteorológica Mundial publicou, em junho de 2025, um posicionamento sobre técnicas utilizadas para tentar modificar fenômenos meteorológicos. A entidade afirmou que faltam evidências de que os canhões antigranizo produzam efeitos na escala das nuvens e destacou que a energia envolvida nos sistemas meteorológicos limita as possibilidades de intervenção para evitar eventos severos.

A falta de comprovação também aparece em uma revisão científica publicada em 2006 pelos pesquisadores Jon Wieringa e Iwan Holleman. No trabalho, os autores analisaram diferentes métodos de combate ao granizo e consideraram inúteis as tentativas de destruir pedras de gelo por meio de explosivos ou disparos sonoros.

O artigo está disponível no acervo do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos. As conclusões reforçam as dúvidas sobre a capacidade de ondas de choque geradas por equipamentos desse tipo de modificar os processos físicos que ocorrem dentro das nuvens.

Para demonstrar que uma tecnologia interfere na formação do granizo, não basta observar que o equipamento foi acionado antes ou durante uma tempestade. É necessário identificar alterações que possam ser atribuídas ao sistema, separando seus possíveis efeitos das condições naturais de cada evento meteorológico.

Defesa Civil de Chapecó contabilizou 1.432 disparos

Apesar das ressalvas científicas, a administração municipal apresentou um balanço favorável ao funcionamento do equipamento. Em março, a Defesa Civil de Chapecó informou que o canhão havia realizado 1.432 disparos durante o primeiro mês de operação.

Na ocasião, o diretor de Proteção e Defesa Civil, Walter Parizotto, atribuiu ao sistema a possível prevenção de granizo na região da Efapi. Como parte da avaliação, ele mencionou episódios em que pedras de gelo foram registradas em outros municípios.

A ausência de granizo em determinada área, entretanto, não comprova isoladamente que os disparos tenham evitado o fenômeno. Para estabelecer essa relação, seria necessário comparar tempestades semelhantes, analisar as condições meteorológicas e verificar se houve diferenças que pudessem ser atribuídas à utilização do equipamento.

A Organização Meteorológica Mundial recomenda avaliações com critérios objetivos, comparações entre eventos tratados e não tratados e análises estatísticas sustentadas por observações físicas. Sem esses procedimentos, relatos sobre tempestades ocorridas após os disparos não são suficientes para confirmar a eficácia do método.

Assim, os dados divulgados pela prefeitura demonstram a utilização do sistema, mas não constituem, por si só, uma comprovação científica de que o canhão tenha impedido a formação ou a queda de granizo.

Prefeitura informa medidas para reduzir o ruído

Além das dúvidas sobre os resultados, o funcionamento do equipamento provoca ruído em razão das explosões sucessivas. Segundo a Prefeitura de Chapecó, a estrutura instalada ao redor do canhão reduz o nível sonoro de 92 para 72 decibéis.

A administração também informou que distribuiu material explicativo aos moradores das proximidades para apresentar o funcionamento do sistema. Outra medida foi a criação de um grupo de WhatsApp destinado a comunicar os acionamentos.

As iniciativas buscam manter os moradores informados sobre os disparos e esclarecer dúvidas relacionadas à operação do equipamento instalado no bairro Efapi.

Semeadura de nuvens é uma técnica diferente

O canhão antigranizo não deve ser confundido com a semeadura de nuvens. Embora as duas técnicas tenham como objetivo interferir em processos meteorológicos, elas funcionam de maneiras diferentes.

O canhão utiliza ondas de choque produzidas por explosões. A semeadura de nuvens, por sua vez, consiste na dispersão de substâncias que buscam modificar determinados processos envolvidos na formação da precipitação.

A Organização Meteorológica Mundial reconhece avanços em aplicações específicas da semeadura de nuvens para aumentar a precipitação. Isso não significa, porém, que todos os usos da técnica tenham eficácia comprovada. Segundo a entidade, os experimentos destinados a reduzir o granizo ainda não oferecem evidências suficientes para validar de forma convincente seus fundamentos.

No caso do equipamento de Chapecó, portanto, o investimento, os disparos registrados e as avaliações positivas da administração municipal não substituem a necessidade de comprovação científica. As imagens mostram o canhão em funcionamento, mas determinar se ele consegue proteger a região contra o granizo depende de evidências adicionais sobre seus efeitos nas tempestades.

(Com informações do repórter Diego Antunes/Chapecó)

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