Canhão antigranizo promete conter pedras de gelo, mas faltam provas científicas; confira
Um vídeo publicado pelo repórter Diego Antunes na quinta-feira (8) mostra o acionamento de um canhão antigranizo em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. O equipamento emite uma sequência de disparos durante a aproximação de tempestades, com a promessa de reduzir a formação de pedras de gelo.
A Prefeitura de Chapecó investiu R$ 972.510,28 no sistema, instalado na rua Quilombo, no bairro Efapi, e inaugurado em 2 de fevereiro de 2026. Apesar do investimento e da expectativa de proteção, a eficácia desse tipo de tecnologia ainda não tem comprovação científica, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Como funciona o canhão antigranizo
O equipamento utiliza uma mistura de acetileno e oxigênio em uma câmara de combustão. As explosões controladas geram ondas de choque que seguem para cima por um cone, em intervalos de aproximadamente sete segundos.
Segundo a explicação divulgada pela prefeitura, essas ondas interfeririam no crescimento dos cristais de gelo dentro das nuvens. A proposta é fazer com que a precipitação chegue ao solo como chuva ou partículas menores, em vez de pedras de granizo.
O município informa que o sistema tem uma área de cobertura estimada em cerca de 80 hectares, considerando um raio de 500 metros ao redor do equipamento. Essa medida corresponde à abrangência anunciada pela administração municipal, mas não comprova que o aparelho consiga impedir a formação ou a queda de granizo nessa região.

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OMM aponta falta de evidências
Em posicionamento publicado em junho de 2025, a Organização Meteorológica Mundial afirmou que faltam evidências de que canhões antigranizo produzam efeitos na escala das nuvens. A entidade também destaca que a energia envolvida nos sistemas meteorológicos limita as possibilidades de intervenção para evitar fenômenos severos.
A discussão sobre esse tipo de equipamento não é recente. Em artigo publicado em 2006, os pesquisadores Jon Wieringa e Iwan Holleman revisaram métodos de combate ao granizo e consideraram inúteis as tentativas de destruir pedras de gelo com explosivos ou disparos sonoros.
O trabalho está disponível no acervo do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos. As avaliações reforçam a necessidade de distinguir a operação do equipamento de uma eventual comprovação de seus efeitos sobre as tempestades.
Prefeitura atribui resultados positivos ao equipamento
Em Chapecó, a Defesa Civil municipal apresentou uma avaliação favorável ao sistema. Um balanço divulgado em março contabilizou 1.432 disparos durante o primeiro mês de operação do canhão antigranizo.
Na ocasião, o diretor de Proteção e Defesa Civil, Walter Parizotto, atribuiu ao equipamento a possível prevenção de granizo na região da Efapi. Ele citou episódios em que houve registro de pedras de gelo em outros municípios.
Entretanto, a ausência de granizo depois dos disparos não comprova, isoladamente, que o equipamento tenha evitado a precipitação. Para estabelecer uma relação de causa e efeito, é necessário separar uma eventual influência do sistema da variabilidade natural das tempestades.
A Organização Meteorológica Mundial recomenda avaliações com critérios objetivos, comparações entre eventos tratados e não tratados e análises estatísticas apoiadas por observações físicas. Sem esse tipo de avaliação, relatos sobre o comportamento de tempestades não bastam para demonstrar a eficácia da tecnologia.
Equipamento também provoca ruído
O funcionamento do canhão produz ruído devido às explosões repetidas. Segundo a Prefeitura de Chapecó, a estrutura instalada ao redor do equipamento reduz o nível sonoro de 92 para 72 decibéis.
A administração municipal informou ainda que distribuiu material explicativo aos moradores das proximidades. Também criou um grupo de WhatsApp para comunicar os acionamentos do sistema.
Não é o mesmo que semeadura de nuvens
O canhão sonoro e a semeadura de nuvens são técnicas diferentes. Enquanto o primeiro utiliza ondas de choque geradas por explosões, a segunda dispersa substâncias para tentar modificar processos de formação da precipitação.
A Organização Meteorológica Mundial reconhece avanços em aplicações específicas da semeadura de nuvens para aumentar a precipitação. No entanto, a entidade ressalta que os experimentos destinados a reduzir o granizo ainda não oferecem evidências suficientes para validar de forma convincente seus fundamentos.
Assim, as imagens dos disparos em Chapecó demonstram que o equipamento foi acionado. A afirmação de que ele protegeu a cidade ou impediu a queda de pedras, porém, depende de evidências científicas adicionais.
Com informações: @reporterdiegoantunes
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