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Por que Ratinho Junior, aclamado pelos paranaenses, não conseguiu fazer seu sucessor?

Por que Ratinho Junior, aclamado pelos paranaenses, não conseguiu fazer seu sucessor?
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Publicado em 5 de outubro de 2026 às 12h47 - Modificado em 5 de outubro de 2026 às 12h47

A eleição de Sergio Moro (PL) para o governo do Paraná ainda no primeiro turno produziu um dos resultados politicamente mais significativos da disputa estadual de 2026. Não apenas pela vitória do ex-juiz e senador, mas porque expôs os limites da capacidade do governador Ratinho Junior (PSD) de transformar sua elevada aprovação pessoal em votos para o candidato escolhido para sucedê-lo.

Moro terminou a eleição com 3.127.911 votos, ou 50,10% dos votos válidos. Sandro Alex (PSD) ficou distante, com 1.583.764 votos, equivalentes a 25,37%. Requião Filho (PDT) chegou logo atrás, com 1.465.601 votos, ou 23,47%. A diferença entre Moro e Sandro ultrapassou 1,5 milhão de votos.

Os números tornam o contraste ainda mais evidente porque Ratinho Junior chega ao fim de oito anos de governo com índices elevados de aprovação.

Levantamento da Quaest divulgado durante a campanha apontava 79% de aprovação de sua administração. Outra pesquisa, da Alfa Inteligência/TMC, registrava 74%. Mais significativo: nesse segundo levantamento, 79% dos entrevistados diziam preferir a continuidade do modelo de gestão.

Nas urnas, porém, continuidade administrativa e sucessão eleitoral mostraram ser coisas diferentes.

Ratinho era maior que seu candidato

O primeiro elemento para compreender o resultado está justamente na personalização da aprovação do governo. O eleitor que avaliava positivamente Ratinho Junior não necessariamente identificava Sandro Alex como a única alternativa capaz de dar continuidade à atual administração.

Ratinho tentou construir essa associação. Participou intensamente da campanha, apareceu na propaganda eleitoral, percorreu cidades ao lado de Sandro e chegou à reta final como seu principal cabo eleitoral. A estratégia foi tão explícita que a campanha buscou aproximar visual e biograficamente os dois políticos.

O problema é que Moro neutralizou parte dessa vantagem ao evitar uma ruptura com o governador.

Durante a campanha, o candidato do PL elogiou projetos da atual gestão, lembrou que havia apoiado Ratinho em eleições anteriores e afirmou que manteria iniciativas consideradas positivas. Com isso, ofereceu ao eleitor uma possibilidade aparentemente confortável: aprovar Ratinho Junior e, ao mesmo tempo, votar em Sergio Moro.

Essa talvez seja uma das principais explicações para o fracasso da transferência automática de votos.

Moro já começou a campanha muito maior

Outro fator decisivo foi o ponto de partida. Sandro Alex iniciou a disputa eleitoral com um problema de conhecimento e intenção de voto que nem mesmo a estrutura política reunida pelo PSD conseguiu eliminar completamente.

Uma pesquisa Quaest de julho mostrava Moro com 39%, enquanto Sandro tinha apenas 7%. Requião Filho aparecia com 18%. Depois da entrada mais intensa de Ratinho na campanha e da composição com Rafael Greca, Sandro cresceu. Em agosto, chegou a 15%, enquanto Moro permanecia em 37%.

Na reta final, a reação foi ainda maior. A RealTime Big Data chegou a registrar Moro com 36%, Sandro com 28% e Requião com 23%. Ou seja, Ratinho efetivamente ajudou seu candidato a crescer.

Mas havia uma diferença fundamental: Ratinho conseguiu tornar Sandro competitivo, mas não conseguiu transformá-lo em uma extensão eleitoral de si próprio.

Moro possuía um ativo que Sandro não tinha na mesma dimensão: uma identidade política própria consolidada nacionalmente.

A eleição nacional entrou na disputa paranaense

Também pesou a configuração ideológica do eleitorado paranaense. O Paraná deu mais de 60% dos votos a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022. Em 2026, Moro estava no PL e reconectado politicamente ao campo bolsonarista.

O cientista político Emerson Cervi avaliou, após a apuração, que Moro conseguiu fazer uma vinculação vertical do voto da direita. Em outras palavras, parte do eleitorado associou as escolhas nacionais e estaduais dentro de um mesmo campo político.

Sandro Alex enfrentava uma situação mais complexa. Embora Ratinho Junior também tenha forte identificação com o eleitorado de centro-direita e direita, o PSD construiu uma coligação ampla, reunindo partidos e lideranças de diferentes origens. Moro, por sua vez, conseguiu apresentar uma identidade eleitoral mais claramente vinculada à direita.

E havia ainda sua própria biografia. Ex-juiz da Lava Jato, ex-ministro da Justiça e senador eleito pelo Paraná em 2022 com quase 2 milhões de votos, Moro não precisava ser apresentado ao eleitor. Sua candidatura começou com um grau de conhecimento e uma base eleitoral previamente estabelecida que Sandro Alex precisou construir durante a campanha.

O paradoxo da continuidade

Talvez o aspecto mais interessante do resultado seja justamente este: a derrota de Sandro não significa necessariamente uma rejeição ao governo Ratinho Junior.

Os números disponíveis durante a campanha apontavam exatamente o contrário. Moro percebeu essa circunstância e evitou transformar a eleição em um plebiscito sobre Ratinho. Se tivesse assumido uma posição frontalmente oposicionista, poderia ter colocado o eleitor diante de uma escolha entre aprovação do atual governo e mudança. Em vez disso, buscou incorporar parte do discurso de continuidade.

Isso enfraqueceu uma das principais mensagens da campanha de Sandro: a de que votar no candidato do PSD seria o caminho natural para preservar o modelo administrativo de Ratinho. O eleitor mostrou que poderia separar as duas decisões.

Estrutura política não foi suficiente

Sandro Alex entrou na eleição sustentado por uma ampla composição partidária e por uma estrutura política relevante. Tinha o governador como principal apoiador, recebeu o apoio de prefeitos e lideranças municipais e buscou apresentar sua candidatura como continuidade de uma administração bem avaliada.

Mesmo assim, terminou com praticamente metade da votação de Moro. Isso demonstra um fenômeno conhecido nas eleições majoritárias: popularidade é transferível apenas até certo ponto. Um governador pode emprestar estrutura, tempo de exposição, alianças, discurso e prestígio. Mas não transfere integralmente a relação pessoal que construiu com o eleitorado.

Ratinho Junior conseguiu elevar Sandro de uma candidatura que aparecia com 7% em julho para 25,37% nas urnas. Sob esse aspecto, sua participação teve peso. O que não conseguiu foi fazer com que os eleitores que aprovavam seu governo entendessem Sandro como escolha obrigatória para sua sucessão.

No fim, prevaleceu uma candidatura com capital eleitoral próprio. Sergio Moro chegou às urnas carregando a projeção nacional acumulada desde a Lava Jato, quase 2 milhões de votos obtidos para o Senado quatro anos antes, uma identidade política reconhecida e a inserção no campo majoritário da direita paranaense.

Sandro Alex tinha o apoio do governador mais popular do Estado, mas ainda precisava construir sua própria relação eleitoral em escala estadual.

O resultado de 50,10% contra 25,37% deixa uma mensagem política relevante para o grupo que governa o Paraná há oito anos: Ratinho Junior manteve sua popularidade, mas descobriu que aprovação de governo e transferência de voto são capitais diferentes. 

E, desta vez, o eleitor paranaense decidiu preservar a boa avaliação do governador sem necessariamente seguir sua indicação para a sucessão.

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Leonardo Revesso

Graduado em Direito pela Unipar, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especializando em Neurociência do Consumo pela ESPM. Tutor da Olívia, da Ludi e da Mila. Está no jornalismo há 27 anos (iniciou aos 15). No OBemdito escreve sobre política e consumo.