Antônio Buscariollo, Paulo Buscariollo, Carlos Henrique Buscariollo e Carlos Eduardo Buscariollo (Foto Polícia Civil do Paraná)
A investigação sobre o desaparecimento e a morte de quatro homens em Icaraíma, no Noroeste do Paraná, entrou na reta final. Segundo o delegado responsável pelo caso, a Polícia Civil ainda realiza diligências, mas já trabalha para concluir o inquérito e formalizar o indiciamento dos quatro integrantes da família Buscariollo investigados pelas mortes.
“A investigação ainda está em andamento, mas já estamos nas fases finais para conclusão”, afirmou o delegado Thiago Andrade Inácio, em entrevista ao site OBemdito.
A previsão é que os quatro sejam indiciados por uma série de crimes relacionados ao caso. Entre eles estão quatro homicídios qualificados, atribuídos às quatro mortes, além de quatro acusações de ocultação de cadáver, fraude processual e organização criminosa.
A definição dos enquadramentos representa uma nova etapa da investigação, iniciada após o desaparecimento de Alencar Gonçalves de Souza, Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi e Diego Henrique Afonso, em agosto de 2025. Os corpos foram posteriormente encontrados enterrados em uma área rural de Icaraíma.
SAIBA MAIS: Buscariollo formavam núcleo de organização criminosa especializada, diz delegado
De acordo com a linha jurídica apresentada pela Polícia Civil, os quatro investigados deverão responder, no indiciamento, por quatro homicídios qualificados, com enquadramento nos incisos II, III e IV do parágrafo 2º do artigo 121 do Código Penal.
Os dispositivos tratam de homicídio cometido por motivo fútil, meio cruel e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa das vítimas, respectivamente.
Também devem constar quatro imputações pelo artigo 211 do Código Penal, referente à ocultação de cadáver. A investigação ainda aponta possível prática de fraude processual, prevista no artigo 347 do Código Penal, e de organização criminosa, conforme o artigo 2º da Lei 12.850/2013.
A Polícia Civil também considera a incidência da legislação que trata dos crimes hediondos. O indiciamento, porém, encerra apenas a etapa policial da apuração. A responsabilização criminal dependerá das fases seguintes do processo, caso o Ministério Público ofereça denúncia e a Justiça a receba.
Os quatro investigados passaram meses fora do alcance da polícia. As prisões ocorreram em agosto deste ano, aproximadamente um ano depois do desaparecimento das vítimas.
Paulo Ricardo Costa Buscariollo e Antônio Buscariollo, pai e filho, foram localizados em uma propriedade rural em Rio das Pedras, no interior de São Paulo. Durante a abordagem, os dois tentaram fugir e acabaram capturados em uma área de mata.
Carlos Henrique Buscariollo também foi preso em São Paulo. Já Carlos Eduardo Cândido Buscariollo estava detido por outro crime quando a operação foi realizada.
As capturas foram resultado de trabalho de inteligência e monitoramento da Polícia Civil. Na época, os investigadores disseram que as prisões permitiriam avançar em pontos do inquérito que dependiam de novos depoimentos e da análise de materiais apreendidos.
Entre os elementos recolhidos durante a operação estavam aparelhos celulares, submetidos à análise policial.
A apuração conduzida pela Polícia Civil estabeleceu como uma das principais linhas que as quatro vítimas foram atraídas para Icaraíma em razão de uma cobrança relacionada à negociação de uma propriedade rural.
Segundo os investigadores, Alencar teria procurado integrantes da família Buscariollo para receber valores relacionados ao negócio e contado com a presença dos outros três homens na tentativa de solucionar a questão.
A investigação aponta que, após o encontro, teria ocorrido uma sequência de ações que culminou nas mortes. O veículo usado pelas vítimas foi localizado enterrado em uma área rural, com marcas de disparos e outros vestígios. Os corpos foram encontrados posteriormente em uma vala.
Ao longo da apuração, a Polícia Civil também descartou, até aquele momento, elementos que apontassem para tortura ou cárcere privado antes das mortes. A principal hipótese investigativa passou a ser a de uma execução planejada.
Outro eixo do inquérito envolve a suspeita de que integrantes da família tenham participado de uma estrutura criminosa com atuação em diferentes atividades ilegais.
Segundo a Polícia Civil, foram identificados indícios relacionados a crimes como tráfico internacional de drogas e armas, contrabando de cigarros e descaminho. Os investigadores também afirmaram que a influência atribuída ao grupo teria contribuído para o receio de moradores em prestar informações.
Esse contexto está relacionado à imputação de organização criminosa que deverá constar do indiciamento.
A polícia, no entanto, já havia esclarecido que não havia elementos suficientes para afirmar que os investigados integrassem uma facção criminosa ou que tivessem recebido proteção de alguma organização desse tipo durante o período em que permaneceram foragidos.
Na noite desta quinta-feira (24), o escritório Renan Farah Advogados, responsável pela defesa de Carlos Henrique Buscariollo, Carlos Eduardo Cândido Buscariollo, Paulo Buscariollo e Antonio Buscariollo, divulgou uma nota à imprensa.
Os advogados afirmam estar preocupados com a divulgação de depoimentos e outros elementos da investigação, que, segundo eles, está submetida a sigilo. A defesa sustenta ainda que não possui acesso integral a todo o conteúdo do procedimento investigativo.
Segundo a nota, os advogados dizem ter mantido cautela para não divulgar depoimentos, documentos ou estratégias de defesa. O escritório afirma que pretende questionar juridicamente a eventual divulgação indevida de informações protegidas pelo sigilo.
A defesa também afirma que investigados não podem ser tratados como condenados e menciona a proteção constitucional à honra, à imagem, à intimidade, à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.
Os advogados informaram ainda que não pretendem discutir publicamente o conteúdo dos depoimentos divulgados. Segundo a manifestação, eventuais contradições e esclarecimentos serão apresentados no processo, após acesso integral aos elementos da investigação.
A defesa também declarou que adotará medidas para identificar a origem do material que teria sido divulgado e apurar eventuais responsabilidades, sem atribuir neste momento o vazamento a qualquer pessoa ou instituição.
Com as principais prisões realizadas e as diligências consideradas próximas do encerramento, a Polícia Civil agora trabalha na consolidação dos elementos reunidos ao longo da investigação.
A conclusão do inquérito deverá reunir as provas obtidas, os depoimentos, as análises realizadas e a participação atribuída individualmente a cada um dos quatro investigados.
O próximo passo será o encaminhamento do procedimento às autoridades competentes, que poderão analisar o material produzido pela Polícia Civil e adotar as medidas cabíveis.
Até a conclusão formal do inquérito e das etapas posteriores da Justiça, os quatro permanecem na condição de investigados, apesar da expectativa da Polícia Civil de formalizar os indiciamentos pelos crimes apontados.
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