Trilha em meio à vegetação integra a discussão sobre o Caminho do Peabiru e a proposta de inclusão de Umuarama na rota turística estadual (Foto Roberto Dziura/AEN)
A divulgação feita pelo OBemdito sobre a existência de sítios arqueológicos com vestígios de ocupações humanas de milhares de anos em Umuarama despertou a atenção de moradores e também de quem acompanha a história da região. Entre os interessados está o historiador umuaramense Márcio Targea, de 52 anos, que vive atualmente em São Paulo e mantém uma atuação voltada à valorização da pré-história e do patrimônio regional.
Entusiasta do tema, Targa passou a defender uma nova frente para Umuarama. Ele quer que o município entre no Programa Rota Turística Caminhos de Peabiru, iniciativa do Governo do Paraná que busca estruturar uma rota histórica de longo curso, associando turismo, patrimônio cultural, preservação ambiental e desenvolvimento regional.
Segundo o historiador, Umuarama ainda não integra formalmente a iniciativa estadual, que já conta com dezenas de municípios participantes e prevê o ingresso de novas cidades desde que cumpram os critérios estabelecidos pelo Decreto Estadual nº 8.025/2024.
Para Targea, a discussão ganhou força depois da reportagem publicada pelo OBemdito sobre os sítios arqueológicos locais, que ajudou a ampliar o debate sobre a relação entre a ocupação milenar do território e o antigo Caminho de Peabiru.
“Quando encontramos vestígios de milhares de anos no território de Umuarama, a cidade passa a ter uma história muito mais antiga do que aquela que normalmente conhecemos. Isso precisa ser reconhecido, preservado e apresentado para a população”, disse o historiador.
A reportagem revelou registros de ocupações humanas muito anteriores à formação de Umuarama e até mesmo à presença dos povos Xetá na região.
Entre os locais identificados estão os sítios arqueológicos Córrego Piava, Ribeirão Corimbatá e Esperança, além de outros registros. Os materiais encontrados incluem instrumentos de pedra lascada, lascas, microlascas e pontas de projéteis.
Para o historiador, esse passado ajuda a reposicionar Umuarama dentro de uma história muito mais ampla da ocupação do território sul-americano.
Targa considera especialmente relevante a possibilidade de relacionar a presença humana antiga identificada na região com o Caminho de Peabiru, uma extensa rede de caminhos utilizada por povos originários para circulação pelo continente.
Segundo ele, enquanto os estudos arqueológicos apontam para ocupações na região de milhares de anos, o Peabiru representa uma dimensão ainda maior dessa circulação indígena.
“O Peabiru nos permite olhar para esse território não como um lugar isolado, mas como parte de uma grande rede de circulação dos povos originários. Os vestígios arqueológicos ajudam justamente a ampliar essa compreensão sobre quem ocupava e percorria essas terras”, argumenta Targea.
SAIBA MAIS: Você sabia que Umuarama tem sítios arqueológicos de 8 mil anos?
Na avaliação do historiador, a discussão sobre o Peabiru não deve ser limitada à ideia de uma simples trilha utilizada no passado. Ele destaca que a rota estabelecia conexões entre diferentes povos e regiões da América do Sul, ligando áreas do atual território brasileiro aos Andes e ao Pacífico.
Targa afirma que os povos originários já utilizavam caminhos e redes de circulação muito antes da chegada dos europeus, o que ajuda a rever a narrativa tradicional sobre a ocupação do interior do continente.
O historiador chama atenção ainda para um aspecto que considera pouco conhecido. Os bandeirantes, frequentemente apresentados como responsáveis pela abertura de caminhos pelo interior, também utilizaram trilhas que já existiam e eram percorridas por povos indígenas. Nesse contexto, o Peabiru teria funcionado como espaço de circulação, comércio e troca entre diferentes grupos.
A leitura defendida por Targa coloca o território de Umuarama dentro de uma história de circulação que antecede em muitos séculos a formação das cidades e das atuais fronteiras nacionais.
O historiador relaciona os vestígios arqueológicos à existência de antigos grupos que já conheciam e percorriam o território, destacando também as relações comerciais estabelecidas ao longo dessas rotas.
Entre os produtos que teriam circulado, ele cita inclusive a cerveja, como exemplo da diversidade das trocas realizadas entre povos. A ideia central é deixar de enxergar o território apenas pela perspectiva da ocupação posterior promovida pelos colonizadores.
O Programa Rota Turística Caminhos do Peabiru foi instituído pelo Governo do Paraná por meio do Decreto Estadual nº 8.025, de 2024, para implementar e manter a rota histórica utilizando trilhas de longo curso. O programa prevê ações voltadas ao turismo responsável e sustentável, ao desenvolvimento social e econômico e à preservação ambiental e cultural.
O Caminho de Peabiru foi reconhecido como Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial Paranaense pela Lei Estadual nº 21.046, sancionada em 5 de maio de 2022. A iniciativa conecta o Paraná de leste a oeste e busca valorizar as comunidades situadas ao longo dos trajetos, além de fortalecer corredores ecológicos e incentivar o uso consciente das trilhas.
O programa possui diferentes eixos de atuação coordenados pela Secretaria de Planejamento do Paraná, com participação da Secretaria de Estado do Turismo e da Paraná Projetos. A iniciativa está integrada à estratégia nacional de trilhas de longo curso e busca conectar unidades de conservação, paisagens culturais e territórios de interesse turístico.
Para Targea, a participação de Umuarama permitiria inserir o patrimônio arqueológico local em uma iniciativa que ultrapassa os limites do município. A cidade poderia, na visão dele, passar a ser reconhecida também pela relação entre seus vestígios pré-históricos, a história dos povos originários e uma das antigas redes de circulação do continente.
O movimento ganhou um novo capítulo recentemente. Depois da publicação da reportagem do OBemdito, foi elaborado um ofício solicitando à Prefeitura a entrada do município no programa estadual.
Para Targea, a cobertura jornalística teve papel importante nesse processo porque trouxe para o debate público informações que até então permaneciam restritas a pesquisas e registros técnicos, oferecendo uma oportunidade para Umuarama ampliar a discussão sobre patrimônio histórico e turismo.
O historiador cita Alto Piquiri como um dos municípios da região que já integram o programa, reforçando a importância de Umuarama buscar essa conexão.
A proposta não se limita à criação de um novo atrativo turístico: o programa prevê a valorização do patrimônio histórico e cultural, a preservação ambiental, a integração entre municípios e o fortalecimento do desenvolvimento econômico local.
A defesa do historiador também parte de uma mudança de perspectiva sobre a própria história da América do Sul. Durante séculos, a interpretação do continente foi construída principalmente a partir de referências europeias. A existência de antigas redes de circulação indígena mostra que diferentes povos já mantinham relações e percorriam grandes distâncias muito antes da formação dos países atuais.
O interesse pelo Peabiru também dialoga com os atuais projetos de integração entre os países sul-americanos, como as rotas bioceânicas que buscam conectar o Atlântico e o Pacífico.
A comparação chama atenção para uma característica histórica do continente: antes das atuais obras de infraestrutura, povos originários já utilizavam caminhos que atravessavam diferentes regiões e permitiam a circulação de pessoas, conhecimentos, produtos e culturas.
“A entrada de Umuarama no Caminhos do Peabiru não seria apenas uma questão turística. É uma oportunidade de preservar patrimônio, contar a história dos povos que passaram por aqui e criar uma nova forma de apresentar a cidade para quem vive nela e para quem vem conhecer a região”, conclui o historiador.
É justamente essa perspectiva que Targa pretende consolidar no debate local. Para ele, reconhecer a presença do município nesse contexto significa olhar para uma história que começou milhares de anos atrás nos sítios do Córrego Piava, Ribeirão Corimbatá e Esperança, transformando esse patrimônio em conhecimento, preservação e novas possibilidades de desenvolvimento para Umuarama.
Dois homens, ambos de 34 anos, foram presos por suspeita de violência doméstica em ocorrências…
O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, corregedor-geral eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou neste…
Uma ocorrência de perturbação do sossego terminou com a apreensão de um equipamento de som…
A Cama Inbox Indústria e Comércio de Móveis Ltda., de Umuarama, divulgou neste domingo (11)…
A passarela das Cataratas do Iguaçu, no Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu,…
Formada em Letras, Letícia Falashi transformou um quarto do apartamento em espaço de produção e…
Este site utiliza cookies
Saiba mais