Foto: Danilo Martins/OBemdito
A busca milenar pelo rejuvenescimento ganhou contornos tecnológicos e midiáticos sem precedentes. No centro desse debate contemporâneo estão dois grandes motores de transformação: o repúdio aos exageros estéticos do passado recente e a febre global do Coreia Beauty (K-Beauty), impulsionada por doramas e redes sociais.
Para separar o que é rigor científico do que é mero apelo de marketing, a médica dermatologista Glaucia Rodrigues esteve no estúdio do OBemdito para destrinchar a história do belo, os limites entre tendências e exageros, e os caminhos para um envelhecimento saudável e elegante.
A obsessão estética acompanha a humanidade desde os primórdios, embora com significados drasticamente distintos ao longo dos séculos. Nas eras primitivas, o conceito de beleza estava indissociável da funcionalidade e da sobrevivência.
Indivíduos portadores de deficiências eram afastados do convívio social por não conseguirem garantir a própria subsistência, o que significava a morte em um ambiente hostil. Assim, a busca pelo belo nasceu como uma necessidade primordial de aceitação e preservação da espécie.
Com o passar das civilizações, a vaidade assumiu novas formas:
Nos tempos modernos, a estética oscilou entre a elegância minimalista de Coco Chanel nos anos 1920, as curvas marcadas de Marilyn Monroe nos anos 50, a magreza emblemática da modelo Twiggy, o fisiculturismo dos anos 90 e, mais recentemente, a fase nebulosa da pandemia marcada pelo exagero no uso de preenchedores faciais.
Hoje, a humanidade vive a Era da Naturalidade. Impulsionada pelo aumento drástico na expectativa de vida — com estimativas de que 50% dos nascidos hoje sejam centenários, as pessoas buscam envelhecer bem para se manterem ativas na sociedade e no mercado de trabalho.
O objetivo atual é garantir que a aparência refletida no espelho esteja em harmonia com o vigor mental do indivíduo, eliminando a deterioração física sem apagar as marcas naturais da idade.
Entre 2014 e 2017, o mundo foi inundado pela onda coreana, exportando produções culturais como os doramas e uma nova filosofia de cuidados com a pele.
A Coreia do Sul consolidou-se como uma das principais potências globais da indústria da beleza, oferecendo desde cosméticos sofisticados até tecnologias e injetáveis avançados.
Do ponto de vista científico, os produtos coreanos não contêm segredos milagrosos ou princípios ativos radicalmente superiores aos desenvolvidos por indústrias ocidentais, incluindo o Brasil, que conta com um setor altamente qualificado. O verdadeiro trunfo do K-Beauty é sensorial e comportamental.
As marcas coreanas conseguiram transformar a rotina de skincare, historicamente vista como uma obrigação, em um momento de prazer e contemplação. Com texturas altamente agradáveis e formulações focadas no autocuidado, elas estabeleceram uma cultura de constância.
O impacto das redes sociais e da febre coreana atingiu fortemente a Geração Z e adolescentes, gerando um efeito colateral preocupante: a corrida precoce por produtos inadequados para a idade.
Embora muitos produtos coreanos funcionem perfeitamente no Brasil, nem todos são adaptados ao clima tropical e à diversidade da pele brasileira. Especialmente no que tange à fotoproteção, multinacionais e laboratórios nacionais costumam desenvolver fórmulas específicas para resistir ao calor e à umidade locais.
O uso de itens virais sem orientação médica pode causar desde a obstrução de poros por excesso de silicones até irritações severas provocadas por componentes inadequados.
O universo da beleza é cíclico e propício a ondas de exagero: ora surge a febre de procedimentos focados em uma única qualidade de pele, ora o uso desmedido de preenchedores que acabam deformando os traços originais.
Inicialmente, esses modismos costumam nascer de tratamentos excelentes e tecnologias avançadas que, quando aplicados de forma correta, geram resultados extraordinários. No entanto, o apelo midiático distorce o uso adequado, transformando a inovação em excesso.
Para escapar dessa armadilha, a recomendação central é a vinculação a um profissional de confiança. A pele exige um olhar especializado e profundo — fruto de anos de faculdade de medicina e residência em dermatologia.
A especialista resume a principal diretriz de segurança: escolher um “dermato para chamar de seu”, cultivar uma relação de confiança de longo prazo e seguir estritamente as orientações médicas individualizadas.
O cenário que se desenha para o futuro da dermatologia e da estética une inovação tecnológica e conservação da individualidade:
O futuro da estética facial não reside em congelar o tempo de forma artificial, mas em permitir que o indivíduo envelheça sem perder a própria referência e arquitetura facial.
A médica pondera que, embora procedimentos invasivos possam alterar a fisionomia, nada muda mais a estrutura de uma face do que o envelhecimento natural severo.
O objetivo contemporâneo é transitar pelas fases da vida mantendo a identidade e a harmonia, sem deformações drásticas. Com a popularização dessas tecnologias, projeta-se também uma tendência de maior acessibilidade dos valores, descentralizando o cuidado de alta qualidade.
Convidada a eleger o único item indispensável em uma hipotética “pílula da saúde” voltada para a dermatologia, a escolha da especialista foi unânime e direta: o protetor solar.
A radiação ultravioleta é apontada como o principal vilão da pele. O uso correto e diário do protetor solar protege o DNA celular contra danos profundos, preserva o colágeno, combate o fotoenvelhecimento, previne o surgimento de manchas e rugas e desempenha o papel vital na prevenção do câncer de pele.
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