Existem mulheres que medem a própria vida pelos anos. Outras preferem contá-la pelas gerações que ajudaram a construir. Aos 83 anos, completados no último sábado (11), Maria Esmerinda Mendonça, carinhosamente chamada de dona Lia, não precisou olhar para o bolo para perceber o tamanho da própria história.
Bastou abrir a porta de casa, no bairro São Cristóvão, em Umuarama, e encontrar filhos, netos, bisnetos e até um trineto reunidos em torno da mesa. São seis filhos, 14 netos, 17 bisnetos e um trineto. Uma família que nasceu das mãos de uma mulher acostumada a enfrentar as dificuldades da vida sem perder a serenidade.
Natural de um sítio chamado Guarani, próximo ao município de Porto Calvo, em Alagoas, dona Lia conheceu cedo a dureza da vida. Perdeu a mãe quando tinha apenas quatro anos e foi criada pela madrasta.
Ainda jovem, formou a própria família e viveu um casamento marcado por dificuldades. Mesmo assim, fez uma promessa silenciosa que carregaria por décadas. Ela só deixaria o marido quando todos os filhos estivessem criados e seguindo seus próprios caminhos. E, cumpriu exatamente o que havia decidido.
Mesmo enfrentando um relacionamento difícil, nunca deixou faltar cuidado dentro de casa. Foi dona de casa durante toda a vida e dedicou-se integralmente aos filhos.
Sem nunca trabalhar fora, contou com o apoio deles para manter a família unida e fez questão de incentivar os estudos, acreditando que cada um poderia construir uma trajetória diferente da que ela teve.
Quem conta essa história com orgulho é a filha, a empresária Fátima Mendonça Patinho, que hoje mora em Curitiba. “Minha mãe nunca se colocou no lugar de vítima. Ela sempre foi muito forte e muito decidida. Viveu uma vida difícil, mas nunca perdeu a alegria. O maior orgulho que tenho é da coragem que ela sempre teve para enfrentar tudo sem reclamar da vida.”
Ao longo dos anos, dona Lia também enfrentou perdas profundas. A mais dolorosa foi a morte de um dos filhos durante a pandemia de covid-19. Ainda assim, segundo a família, encontrou forças para seguir em frente, sustentada pela fé e pelo carinho daqueles que ajudou a criar.
Há quase três décadas, depois da separação, passou um período morando com uma das filhas e, mais tarde, escolheu viver sozinha. Foi uma decisão tomada por quem sempre prezou pela própria independência, mas nunca pela solidão.
Hoje, a casa continua cheia. Os filhos se revezam nas visitas, os netos aparecem para almoçar e os bisnetos transformam os fins de semana em uma sucessão de risadas e abraços.
“Ela gosta da casa cheia. Às vezes prepara o almoço e todo mundo vai comer com ela. Em outras ocasiões somos nós que a levamos para passar o dia conosco. O que ela mais gosta é ver a família reunida.”
Apesar de nunca ter frequentado a escola e de não saber ler, dona Lia surpreende a todos pela facilidade com que convive com a tecnologia.
Apaixonada pelo TikTok, passa parte dos dias assistindo aos vídeos e se comunica com filhos e netos por mensagens de áudio. Também aprendeu a escrever o próprio nome, algo que sempre desejou fazer.
“Ela tem uma inteligência impressionante. Nunca estudou, mas aprendeu a usar o celular praticamente sozinha. A gente se admira muito com isso.”
O momento mais emocionante da comemoração aconteceu antes mesmo do almoço. Morando em Curitiba, Fátima telefonou para a mãe dizendo que não conseguiria viajar para o aniversário naquele fim de semana. Do outro lado da linha, dona Lia ouviu resignada que talvez o reencontro ficasse para o ano seguinte.
O que ela não imaginava era que a conversa acontecia enquanto a filha e o genro, Oliveira Patinho, já estavam em frente à sua casa.
Poucos segundos depois da ligação, Fátima atravessou a porta, entrou silenciosamente até o quarto e surpreendeu a mãe, que ainda estava deitada. A emoção tomou conta da casa.
Abraços, lágrimas e sorrisos deram início a um dia que ficaria marcado não apenas pelo aniversário, mas pelo reencontro de gerações unidas pela mesma história.
Mais tarde, a mesa ficou pequena para acomodar tanta gente. Ali estavam filhos, netos, bisnetos e o mais novo integrante da família, um trineto que representa a quinta geração iniciada por aquela menina nascida em um sítio do interior de Alagoas.
No fim das contas, o aniversário de dona Lia foi muito mais do que uma comemoração pelos 83 anos. Foi uma celebração da mulher nordestina que enfrentou a vida sem desistir da própria família.
Uma homenagem silenciosa às milhares de mães brasileiras que nunca ocuparam cargos importantes, nunca apareceram em fotografias oficiais nem receberam homenagens públicas, mas construíram, dentro de casa, o maior patrimônio que alguém pode deixar.
Uma família que, geração após geração, continua voltando para o mesmo lugar apenas para lembrar que tudo começou com ela.
(Com imagens cedidas gentilmente ao OBemdito)
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